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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

30
Abr13

O dia em que o Sol se esqueceu de acordar (Violência – 9)

Publicado por Mil Razões...

 

Amaldiçoo o dia em que te conheci. Parecias um parolinho da aldeia, não partias um prato. Até casarmos, a coisa bem foi, mas depois de nascer a Maria parece que foste atingido por um raio e mudaste completamente. Tornaste-te azedo, violento. Eras tão bom cliente da Tasca do Tio João que, ao fim de poucos anos, parecias um barril com pernas. As três miúdas vieram quase de seguida. Na assistência técnica nunca quiseste falhar e televisão via-se pouco. O bruto com quem dormia era suportável até ao dia em que a Maria entrou para a primária. A Clarinha e a Marta eram ainda pequeninas mas a forma como disseste que elas iam ser umas bonitas raparigas e o quanto ansiavas que crescessem um bocadinho, aquilo arrepiou-me a alma…. Nunca te privei do sexo embora a partir daí me custasse mais do que tudo na vida, mas pensei que, talvez se eu nunca te dissesse que não, deixasses de olhar para as miúdas daquela maneira ordinária. Mordia-me toda, fechava os olhos, esperava que aquilo acabasse depressa e saísses de cima de mim, com o teu bafo a bagaço e a tua pele suada.

Um dia cheguei da mercearia da Tia Lurdinhas e encontrei a Clara e a Marta sozinhas na sala. Chamei pela Maria e nada. De repente senti a força falhar-me nas pernas e fui procurá-la no quarto. Quando abri a porta vi-te deitado na cama com a nossa filha. Tinhas despido a Maria da cintura para baixo e tocavas-lhe de forma ordinária. A Maria chorava e pedia-te que parasses. Estavas tão excitado quanto eu estava enojada. Gritei o mais alto que pude, arranquei-te a Maria dos braços e corri para a rua com as três miúdas. Vieste atrás de mim e juraste que, se eu não voltasse e contasse a alguém o que tinha acontecido, matavas as miúdas. Venceu-me o medo e a vergonha e voltámos para casa contigo. Nessa noite deste-me a tareia da minha vida mas não tocaste mais na Maria. Daí em diante nunca mais tive um segundo de paz. Tinha medo da minha própria sombra. Mesmo quando dormias como um porco, eu acordava sobressaltada e com a cabeça cheia de pensamentos terríveis. Durante algum tempo achei que as coisas iam mudar: bebias menos, batias-me em dias alternados e não ligavas às pequenas. No dia em que a Maria fez 7 anos, voltaste à carga. Chegaste a casa bêbedo e afirmaste, alto e bom som, que a primeira vez das nossas filhas seria contigo, não com um qualquer parvalhão. Afirmaste, com um ar convicto, que era o que te competia como pai. Perguntei-te se o paizinho também te havia iniciado a ti. Custou-me quatro costelas fraturadas, o nariz partido, tímpanos perfurados à chapada e mais equimoses do que eu conseguia contar. Apesar disso, nada do que me fizeste me podia doer mais do que o medo pelas minhas filhas. Nada. Eu soube nesse momento que nunca as protegeria daquela coisa que eu lhes havia dado como pai.

No dia seguinte, depois de deixar as meninas na escola, fui à Tia Lurdinhas fazer as compras, como era habitual. Mas, nesse dia, para além da mercearia, trouxe um veneno para ratos. “É para uma ratazana que tenho lá em casa, Ti Lurdinhas”. Fiz a minha rotina como era habitual. Preparei o jantar em silêncio e esperei que chegasses a casa. “Cheira bem, mulher. Põe o jantar na mesa que tenho fome”. E eu pus. Servi-te o melhor jantar da tua vida. Comeste como uma besta e nem tiveste tempo para arrotar no fim. Caíste com a cara no prato, a espumares-te todo. Tive medo que não morresses e percebesses que eu te tinha envenenado a comida. Mas não, estavas morto, mortinho da silva.

 

Fui presa e aqui me encontro a cumprir pena. Perguntou-me o juiz se tinha noção da violência do que havia feito. Tive um ataque de riso tão grande que fui retirada do tribunal em braços; nem tive tempo de lhe dizer que não estava arrependida, que aquele porco não merecia qualquer compaixão. Que só tinha pena de não o ter feito mais cedo e ter poupado a Maria a coisas que nunca mais esquecerá. Disso é que eu me arrependo. As miúdas vivem desde então com a minha irmã e vêm ver-me com frequência. O que me mantém viva é pensar que um dia vou sair daqui, ser feliz com as meninas e esquecer aquela besta que nos fez tanto mal. Dizem-me que aos olhos de Deus pequei, mas eu era capaz de jurar que Deus estava comigo no dia em que pus fim à tua vil existência. Estou-me nas tintas para quem me julga com leviandade. Só Deus me julgará e paz terei se a Maria um dia me perdoar. Nesse dia, pode ser que o Sol volte a nascer nas nossas vidas.

 

Alexandra Vaz


26
Abr13

Violar direitos e deveres - uma reflexão (Violência – 8)

Publicado por Mil Razões...

 

Violência é um assunto sério e grave. Sério, devido às consequências que acarreta, e grave, porque vive de forma gratuita e premente em todas as esferas da vida humana.

Violência é uma intimidação que se faz sobre alguém, empregando recursos coercivos ou manipulatórios, derivados de algum tipo de força.

Mas eu coloco-me a seguinte questão: será que comportamentos autodestrutivos e autopunitivos serão uma manifestação menor de violência crassa? Será que a verdadeira violência não começa com todos aqueles pensamentos, emoções, hábitos e atitudes que nos levam a experimentar uma infelicidade autoimposta?

Estaremos nós, individual e coletivamente, viciados na infelicidade, depressão e desespero?

Será que a felicidade, o bem-estar e todas as emoções positivas serão um direito ou um dever?

A OMS (Organização Mundial da Saúde) define violência como a “imposição de um grau significativo de dor e sofrimento evitáveis.” E aqui a palavra “evitáveis”, no meu entendimento, poderá dar início a uma explanação melhor do conceito. Assédio físico ou moral, agressão, coerção, dominação, guerra, ódio, entre outras, são expressões de violência que ainda predominam nas manifestações socioculturais por todo o mundo “civilizado”.

A violência existe devido aos valores caducos de uma sociedade patológica, dominado pelo vil metal, pelos interesses egoístas, desde o domínio pessoal até ao nacional. A primitividade da defesa pelo próprio território… proteção do próprio clã.

Porque será que todos nós temos tanta dificuldade em acompanhar os ritmos da mudança, em fazer concessões que beneficiariam a todos, mesmo que esse benefício tivesse um custo e só trouxesse mais tranquilidade a médio/longo prazo, e com isso aumentássemos a nossa capacidade de promover uma sociedade justa, equilibrada, feliz?

Os conflitos – causas dos atos de violência – serão meramente geracionais, ideológicos, socioculturais, económicos, religiosos… ou terão a sua origem nos conflitos interiores, íntimos, de quem não quer abdicar da “razão”, da certeza, da segurança, do seu próprio e exclusivo interesse individual?

Deixar-se vitimizar ou impor subjugação são duas atitudes inadequadas, que apesar de trazerem algum tipo de ganho imediato para os seus promotores, acarretam prejuízos emocionais, mentais, relacionais e civilizacionais.

Violência é um atestado de incompetência humana, em que o homem desiste da lógica e de viver com humanidade.

 

Marta Silva (articulista convidada)


23
Abr13

Sentido positivo da violência (Violência – 7)

Publicado por Mil Razões...

 

O termo violência assume muitos sentidos para além dos relacionados com agressividade; pode-se associar a velocidade, dinamismo, acidente, enfim um conjunto de atributos que descrevem o impacto de um ato, tornando-se assim um sincrónimo que é utilizado com recorrência para realçar os resultados de um determinado ato. É, em muitos casos, uma figura de linguagem e de retórica, porque comunica um impacto que apesar de agressivo é igualmente positivo. Assinala-se a aparente (falsa) facilidade de se abordar, por ser um vocábulo comum, conquanto trata-se de um termo sobejamente aplicável em muitos campos de ciências humanas e sociais, pelo que o seu tratamento merece alguma atenção e profundidade de análise.

Entretanto, o seu uso associado a agressividade tem maior notoriedade e preponderância que os outros sentidos colaterais, até porque o seu sentido figurado aleita-se em raízes da área de ciências sociais. Segundo Wikipedia, “violência é um comportamento que causa intencionalmente dano ou intimidação moral a outra pessoa... Tal comportamento pode invadir a autonomia, integridade física ou psicológica e até mesmo a vida de outro. É o uso excessivo da força para além do esperado”. No extrato acima vinca-se a natureza comportamental do termo que carateriza o estágio de início de conflito no âmbito das relações humanas.

Numa outra aceção mais eloquente, fervorosa e prática, Wikipedia estabelece diferença entre violência e força, embora sejam palavras próximas na língua e pensamento corrente. Enquanto força designa, no seu sentido filosófico, a energia ou firmeza de algo, a violência carateriza-se pela ação corrupta, impaciente e baseada na ira, que ao invés de convencer o outro através da persuasão, simplesmente agride-o.

Se olharmos para as relações humanas como um jogo de interesses, com necessidades e desejos em foco, o iminente conflito que pode resultar em violência surge quando a priorização das necessidades humanas não obedece a hierarquia natural, por um lado, e/ou quando a pirâmide simplesmente não existe, contrariando a sequência lógica das necessidades humanas para o estabelecimento do estado de equilíbrio.

A violência é, assim, a expressão da atrocidade, quando as partes envolvidas não conseguem manipular a comunicação através da informação que dispõem para verem satisfeitas as suas necessidades. Esse estado de frustração de necessidades e desejos é tão biológico quanto natural que possui uma forte capacidade de contágio e réplica a outras pessoas. Na época contemporânea e em sociedades mais avançadas em termos de acesso ao conhecimento, que a informação é um recurso quase que limiarmente livre, os conflitos são iminentes, pelo que a gestão de conflitos torna-se uma prática recorrente e uma competência vital para a manutenção de estabilidade. Esse equilíbrio sobressai quando as diferentes gerações encontram uma atmosfera de interacção e nítida separacção de papéis, onde os jovens desempenham um papel preponderante de ligação entre os dois extremos.

Ora, o jovem pela sua mocidade é por natureza sedente e força motriz de uma sociedade. A dinâmica esperada a nível operacional de uma sociedade, no que respeita a constituição da força produtiva e ligação operacional entre as diferentes atividades económicas e sociais, depende sobremaneira do compromisso, motivação e empenho na sua participação, na prossecução dos desafios da sociedade. Porém, nem sempre essa juventude é acompanhada de assertividade suficiente para manipulação favorável das ferramentas que dispõem para a satisfação de suas necessidades imediatas. Algum medo, receio e timidez que os caracteriza, fruto da violência imposta pelos mais experimentados e ortodoxos que repreendem sem pedagogia, e sobre-dosagem de demagogia, pelos erros e falhas cometidas (fraquezas desculpáveis), impedem-os de serem tão ferozes quanto o expetável.

Para fortalecer a capacidade interventida e vantagem comparativa dos jovens, devia-se apostar, dentre outras variáveis, na solidificação dos soft skills, em paralelo ao sistema de educação formal, para torná-los mais audazes e arrojados sem implicar o uso da força física, pressa e ansiedade no alcance dos seus anseios. Para se atingir o estado de equilíbrio evitando-se violência, deve-se evitar entrar em pânico diante de uma situação aparentemente impossível ou de iminente problema, o fenómeno movimento harmónico simples encarregar-se-á de restabelecer o equilíbrio estático.

 

António Sendi (articulista convidado)


19
Abr13

Violências… (Violência – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

Rompemos para o mundo com violência. Nascer é um ato violento. Queremos, mais que tudo, nascer! Levamos as nossas mães às dores mais profundas do corpo e à alegria mais extenuante da alma. Essa violência em que a nossa própria mãe é cúmplice. Naquele preciso momento, grita, agarra, chora, range os dentes e agride os céus e o que tiver mais à mão. Assim, começa a vida cá fora, da forma mais violenta. Cheio de suor, lágrimas e sangue. E ainda por cima, logo a comunidade em volta nos agride com uma palmada no rabo e nos põe de cabeça para baixo, enquanto choramos a plenos pulmões perante os olhares embevecidos de todos. De mão em mão, tal boneca de pano, chegamos finalmente, ao calor da mãe, ao sôfrego mamar da existência. E, assim estamos, preparados para a violência que nos espera, vida fora!

Assim sendo, atos mais agressivos fazem parte do nosso desenvolvimento, do nosso dia-a-dia. Convivemos dentro e fora com essa agressividade, tantas vezes vital para a nossa emancipação, adaptação e superação.

No entanto, violência pode ser entendida em várias perspetivas. Quando nos deparamos com atos que, conscientemente e intencionalmente, são usados para prejudicar o outro, chegamos ao conceito mais obscuro da violência. Até nós próprios podemos ser, simultaneamente, o autor e alvo dessa violência. Por vezes, estes mesmos atos são mascarados. Às vezes, são mais evidentes, outras vezes mais silenciosos. Porém, não menos danosos.

Somos agressores e agredidos, inevitavelmente, em maior ou menor grau.

Acredito que hoje vivemos sob uma violência que se mascara de solução. Essa tal austeridade, proferida pelos governantes, possuidores do poder de manipular o rumo das nações e seus compatriotas. Formas opressoras de moldar a liberdade de circulação pela própria vida, pelo próprio rumo a tomar. Decisões que agridem o estômago de muitos, o sono de tantos, o sentido de muitos outros. Austeros, esses violadores de sonhos. O que fazer perante tamanha violência? Responder na mesma moeda? Agredir quem nos viola os direitos? Violentar? Talvez perante a violência, a resposta seja readquirir o poder que nós deixamos tomar por algum momento. Com atitude, não com violência!

 

Cecília Pinto


16
Abr13

A violência de um homem só (Violência – 5)

Publicado por Mil Razões...

 

Está tudo silencioso agora

Daqui avisto o horizonte e as estrelas

Estou sentado no topo do mundo

Por mais que tente, não consigo chorar

 

Conto os meses e os anos

Que passam como segundos

Já não sei quem sou

Já me esqueci quem fui

 

Ergo este copo a ninguém

E a dúzia seguinte também

Nem nada nem ninguém, assim é

Por esta janela vejo tudo turvo

 

Um pássaro interrompe o silêncio

E desço a pistola agora

Respiro fundo e suspiro

Acendo o último, desta vez o último

 

(É sempre o último há meses, há anos

Mas não é, nunca é)

 

Daqui avisto tudo e não vejo quase nada

Não há nada nem ninguém aqui

Neste corpo só moro eu

Somente eu, ninguém

 

 

Joel Cunha


12
Abr13

Bambu (Violência – 4)

Publicado por Mil Razões...

 

Há centenas de variedades de bambus, mais ou menos rígidas, com origem em todos os continentes à exceção da Europa, mas sempre flexíveis. Ao que parece há pelo menos uma, o bambu chinês, que após semeada, dedica cerca de cinco anos desenvolvendo as suas raízes, tanto para baixo como para os lados, e só após esse longuíssimo período começa a crescer acima do solo. E como o bambu cresce rapidamente, então!

O bambu está cada vez mais disseminado e é cada vez mais utilizado pelo homem, nas mais diversas áreas, desde a química à construção antissísmica de edificações.

 

É do senso comum dizer-se que “a vida é dura”. Até poderíamos estender este conceito a todos os seres vivos, mas o enunciado é dirigido ao Homem e à sua expressão gregária, a vida em sociedade. Especialmente a sociedade atual, que estrutura e empilha, em espaços mais ou menos pequenos, milhões, dezenas de milhões de pessoas, é muito dura, chega a ser de uma violência tal que pode aniquilar, destruir o indivíduo.

 

Ainda que se vá ensinando, amparando, prevenindo as crianças, depois jovens, de que os ‘nãos’, as regras estabelecidas e praticadas, as dificuldades que têm que enfrentar na família, na escola, com os amigos e os menos amigos; ou, por outra via mas com o mesmo objetivo, ainda que se permita, proporcione ou mesmo provoque a liberdade de opções, a liberdade de experimentar, para daí antecipar, vivenciar e estabelecer raízes; como é que depois, chegados à idade adulta, mais bem aguentamos os embates da vida, a violência da sociedade, cada vez mais desumanizada, como é que melhor se consegue superar e contornar o choque da força bruta dessa violência?

 

Voltemos ao bambu, às suas raízes longamente desenvolvidas abaixo do solo e à flexibilidade acima do solo que lhe permite, por mais alto que seja, enfrentar as maiores tempestades mesmo os terramotos. Raízes e flexibilidade são os dados da equação para superar a violência.

 

Há fenómenos na natureza mais violentos que um terramoto?

 

Jorge Saraiva


09
Abr13

Mal entendidos (Violência – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

Dizia-me há dias um amigo:

- A coisa que mais me enternece é ver um filho beijar o pai.

- Sim, é bonito mas beijar o pai não é o que há de mais natural? Perguntei admirada.

- Claro que é natural, ainda assim, todo eu me derreto quando vejo um filho, carinhosamente, beijar o pai.

- Com tal sensibilidade, o teu pai deve ter muita sorte contigo?!

- Pois aí é que tu te enganas. Não me lembro de ter vontade de beijá-lo. Como não fui criado com ele até me parece natural esta falta de afetividade.

- Natural, natural não será! Mas não sendo tu criado com ele, viam-se com regularidade?

- Nem por isso, o homem estava emigrado e só quando vinha a Portugal, o que acontecia uma vez por ano, é que nos víamos.

- E nem nessas alturas te apetecia beijá-lo e matar saudades?

- Quais saudades? Eu não estava autorizado a ter saudades.

- Não estavas autorizado a ter saudades? Mas ter saudades precisa de autorização?

- Pois não. Agora que sou adulto vejo com clareza que não, mas na época eu era um miúdo a quem a minha mãe e toda a família faziam a cabeça contra o meu pai.

- Agora baralhaste-me. Então o teu pai estava longe e a tua família ainda to distanciava mais, pondo-te contra ele?

- É isso mesmo, percebes-te bem o que eu quis dizer: punham-me à distância dele.

- E porque o faziam?

- Isso não sei mas passavam o tempo a falar-me mal dele, que nos tinha abandonado, que não queria saber de nós, que não mandava dinheiro para o sustento, e havia até quem dissesse que ele já tinha outra família lá no país para onde tinha emigrado.

- Mas isso era verdade?

- Não sei, nunca lho perguntei. Acho até que nunca ninguém lho perguntou. Quando vinha de férias todos se comportavam com naturalidade, só eu é que não. Não entendia este comportamento dos adultos e revoltava-me vê-los agir como se não tivessem esclarecimentos a pedir. Afastava-me dele, não conseguia esquecer que ele nos tinha abandonado e não lho perdoava.

- E ele percebia o quanto estavas afastado dele?

- Penso que sim porque procurava aproximar-se de mim, mas fazia-o de uma forma tosca que me violentava.

- Queres contar como era?

- Olha, sentava-me no colo e depois de me pôr a cara a arder, o que acontecia porque ele esfregava a barba rija na minha pele ainda tão fina, irritando-me profundamente, perguntava-me se eu gostava mais dele ou do meu avô.

- Ah! Estou a perceber violentava-te sexualmente.

- Não, não estás a perceber. Nunca me senti violentado sexualmente, mas não achas uma violência perguntar a uma criança de quem é que ela gosta mais? Achas que eu tinha coragem para o enfrentar e dizer-lhe que não gostava dele porque ele não se importava comigo e de quem eu gostava era do meu avô? O problema é que a falta de coragem para ser sincera com ele, criava uma situação de injustiça para com o meu avô, de quem eu gostava realmente. Esta simples pergunta era tão violenta como ouvir, durante todo o ano, os desabafos da família contra ele.

- Falam disso agora que és adulto e terás outros argumentos para te fazeres entender?

- Não, ele já morreu. O nosso relacionamento, ou melhor, a falta dele, nunca foi esclarecido.

- Isso é que é violento amigo.

 

Cidália Carvalho


05
Abr13

A violência começa no verbo (Violência – 2)

Publicado por Mil Razões...

 

Infelizmente, no mundo que vivemos, a palavra “violência” acompanha a vida de muitas mulheres.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, sete a cada dez mulheres serão agredidas ao longo de sua vida. E não só fisicamente, nem sexualmente, mas verbalmente também, essa violência muitas vezes velada confunde as pessoas.

A grande maioria acredita que agredir uma mulher verbalmente é dizer palavras de baixo nível e coisas ofensivas, mas existe outro tipo de violência, mais silenciosa, que todas as mulheres escutam todos os dias.

Quem nunca escutou: Só podia ser mulher? É coisa de mulher. Ela está nervosa porque é uma histérica, por que contratar se daqui a pouco vai engravidar? E quem mandou usar essa roupa curta? Isso deve ser coisa de mulher da vida... E assim vai, frases soltas, que se dizem todos os dias. As mesmas mulheres decoram o texto e não pensam que estão reproduzindo um padrão machista, quando se referem a outra mulher que não gostam chamam ela de prostituta, vadia, fácil, leviana. Quando fazemos isso, eu também já fiz, repetimos um padrão sexista que determina que existem dois grupos de mulheres, “as de respeito” e as de “vida fácil”.

Está tão presente no nosso dia-a-dia, essa divisão, que sem querer repetimos à exaustão.

Não depende só dos homens parar a violência, depende também de nós mulheres, primeiro quebrando nosso padrão mental, entendendo que estamos muitas vezes repetindo a agressão que recebemos, simplesmente porque não sabemos que é agressão; de pequenas somos acostumadas a pensar em nós como sub-seres, sub-humanos, sem ter nossos direitos respeitados, acreditamos não merecer nada mesmo.

Eu cresci escutando que mulheres são histéricas e dispostas a fazer a vida de qualquer homem um inferno. Mas ninguém me disse que ataques histéricos, ou fazer da vida de alguém um inferno, pode ser uma caraterística humana, não uma questão de gênero. O machismo leva de muitas de nós a noção de quem somos, e dos direitos que nos são subtraídos.

O verbo não é tão inocente assim. Namorados que sempre estão lembrando que erramos muito, ou não somos magras o suficiente, são namorados que estão agredindo.

Mas ele não bateu! Não, ele bateu sim e bateu muito forte, ou alguém aqui nunca ficou magoado com alguma coisa que escutou do ser amado?

Palavras podem não parecer muito, mas são capazes de quebrar barreiras e construir novos mundos. No dia em que o machismo abandone o nosso vocabulário, provavelmente a palavra violência também possa desaparecer.

 

Iara De Dupont (articulista convivdada)


02
Abr13

Vazio (Violência – 1)

Publicado por Mil Razões...

 

Ao pensar hoje em violência não pensamos só em agressões físicas pois já sabemos que a nível psicológico também se pode agredir e de forma muito violenta. Mais do que a violência visível, quer seja física ou psicológica, penso que o que me assusta mais são os aspetos que não se veem. Aqueles que ninguém sabe que estão a acontecer mas que corroem lentamente, deixando marcas por vezes irreparáveis.

Penso, por exemplo, no dia-a-dia sem afeto e cada vez mais frio. Quando vamos a um qualquer serviço público e somos tratados como algo que veio atrapalhar o sossego de alguém, vistos como alguém que não sabe o que quer, que só vem mesmo ao serviço porque deve alguma coisa, porque é inimigo do sistema (aquele ser invisível mas sempre presente).

Será que estou a ser romântica demais?

Pensemos na violência que é acordar bem-disposto e ir até um serviço público e ao falar com a primeira pessoa com quem nos cruzamos, o segurança, ele olha para nós como se fossemos intrusos e nem bom dia deseja. Mesmo assim, nós entramos e dizemos “Bom dia”, podendo receber resposta ou não. Ao chegar à máquina das senhas que marcam a vez, somos fulminados por olhares atentos para ver se iremos passar à frente ou não, reparando em todos os nossos passos e, caso tenhamos alguma dúvida que nos leve ao balcão antes de tirar a senha… Nem quero pensar! Chegada a hora de ser atendidos ao balcão por uma pessoa que está ali única e exclusivamente para fazer atendimento ao público, não recebemos o bom dia, fazem-nos perguntas como resposta às nossas perguntas, transparecendo que nós já deveríamos saber “combater” aquele assunto. Para terminar, com sorte temos o assunto resolvido ou então “fique a aguardar”. Se não tivermos sorte, o assunto é remetido para outro balcão ou adiado por falta de documentos. Lá voltamos para a rotina diária já sem a boa disposição, porque fomos bombardeados por coisas nada boas.

Quando isto me acontece, quando sinto que estou a ser alvo de má educação e falta de civismo que a mim me soa a violência psicológica porque cada vez mais há assuntos pendentes com finanças, segurança social e outros serviços públicos, eu penso num e-mail que recebi há tempos de um autor desconhecido, que dizia “não temos que ser o caixote do lixo de ninguém”, ou seja, a nossa mente não tem que suportar a forma mal educada e sem sensibilidade de outras pessoas. Desde esse e-mail, penso sempre em algumas piadas e situações engraçadas que acontecem quando alguém é mal educado comigo, sem saber como me corre a mim o dia ou em que fase da vida (menos boa ou melhor) me encontro.

Da minha parte passa a existir um vazio por essas pessoas e isso é muito triste, pois somos humanos e somos feitos de relações sociais que se pretendem agradáveis.

Sinto o vazio por parte do segurança, pois já deve ter sido alvo de violências de várias formas, por parte das pessoas que estão à minha frente, pois já passaram pelo segurança e sofreram alguma injustiça por parte de outros utentes, por parte da senhora do balcão, pois já vai preparada para o ataque aos utentes que vêm com más intenções.

Sinto vazio e frio quando vou a certos locais públicos, pois cada um no seu dia-a-dia arranja defesas para se proteger de violências psicológicas vindas dos sítios menos esperados, apesar de eu aqui abordar apenas os serviços públicos.

 

Sónia Abrantes


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