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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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31
Mai11

As paisagens (O sentido da vida – 5)

Publicado por Mil Razões...

 

Em jeito de provocação, abrindo hostilidades, direi que, como é óbvio, a vida não tem qualquer sentido. Ou melhor, tem todos. Eu explico: que sentido existe na afirmação de que a vida terá um, nenhum ou todos os sentidos? Que é que isso importa? A vida é para ser vivida, nada mais. E isto não é discutível, porque enquanto durar a discussão, nem o tempo espera nem a vida melhora. A menos que esse sentido seja a razão, o caminho, a estrela que norteia a vida daquele para quem a vida tem um sentido.

Por todas as razões e mais algumas, cada criança que nasce devia fazer-se acompanhar de um manual de instruções. No capítulo das advertências constaria, em letras garrafais, qualquer coisa como: Cuidado! Este artigo pode tornar-se autónomo. E no das funcionalidades algo do tipo: Está programado para perseguir incansavelmente a satisfação das suas necessidades. E isto, autonomia na satisfação das necessidades, é afinal o grande e único, se existir, sentido da vida. É indefinível mas toda a gente sabe qual é o seu. Ou tem, pelo menos, uma vaga ideia. Varia com a urgência do momento e com as estratégias escolhidas para extinguir a carência.

O sentido da vida é o resultado de uma equação complexa na qual concorre um vasto e denso conjunto de variáveis do indivíduo e um maior e mais maciço conjunto de variáveis do meio. Essa equação é para ser resolvida ao longo da vida, pelo que, se as contas estiverem bem-feitas, encontrar-se-á o sentido da vida bem perto da morte. E aí, obrigado, mas já não preciso.

 

O sentido da vida é mais uma imbecilidade a juntar a todas as ilusões que alimentam a esperança de virmos a ter num futuro uma vida melhor, mais cheia, mais rica, mais saudável, mais qualquer coisa que nos encha de felicidade e alegria. Entra naquele leque de frases e palavras parvas que, no fim de contas, assume o significado que cada um lhe quiser atribuir. Falar de sentido da vida obriga a falar de escolhas, de decisões. Ou então de destinos ou fados. Cada um escolhe o seu ou está condenado a ter um, em função das suas crenças, convicções e influências. Se houver sentido na vida ele só fará sentido para aquele que o quiser ter. Doutra forma não passa de um vazio gelado.

- Ah e tal, mas a vida não fará sentido se não tiver um rumo!

Muito bem, nada contra o rumo. A vida deve ser levada com conta e medida. Pode até fazer-se e seguir-se um projecto de vida. Pode mesmo encaixar-se a vida nuns carris e acompanhar a linha com o mínimo de descarrilamentos. Pode fazer-se isso tudo, com mais ou menos disciplina, mas no fim pouco ou nada diremos acerca do sentido que tudo isso fez, porque, tal como a variedade de paisagens que o comboio atravessa, também a vida coleccionará todos os sentidos que for assumindo ao longo do percurso, do tempo, das idades, dos momentos, das efemérides, dos episódios, das necessidades, das vontades, de todas as estações e apeadeiros por onde passar.

- Ah e tal, e o sentimento, o amor, a felicidade e todas as coisas boas que dão sentido à vida?

Não sejas parvo!

 

Joel Cunha

 

27
Mai11

Agora, mais do que nunca (O sentido da vida – 4)

Publicado por Mil Razões...

 

Numa dimensão cósmica, sei que a minha existência tem uma razão de ser, embora não seja capaz de a perspectivar em toda a sua dimensão, na medida em que o meu campo de visão é apenas humano. Percebo somente que sou parte integrante de um sistema universal e que tenho uma missão a cumprir. Se me conseguir dedicar plenamente a esta tarefa, será a obra de uma vida.

Na minha perspectiva, o que dá sentido à minha vida são todos os pequenos momentos que constituem o meu dia-a-dia. Para mim é importante viver o momento presente, tirar partido deste momento. Se for um momento feliz quero sentir prazer em vivê-lo, numa circunstância infeliz será um desafio que tenho pela frente. Sei que sou um ser único e complexo, como cada um de nós, e como tal devo conhecê-lo e explorá-lo o máximo que puder, visto que esta é uma oportunidade única. Apesar dos mais diversos sofrimentos que a vida possa trazer, gosto do modo como encaro a minha vida, sinto-me bem com a forma como a vivo e, implicitamente, esta é a moeda de troca que encontro para agradecer tudo o que a vida me dá. Tive a sorte de ter nascido onde nasci e quando nasci, livre de ser quem sou… podia ter nascido no Paquistão ou na Somália, penso que em ambos os casos, neste momento, teria boas razões de queixa. Se tivesse nascido há cinquenta ou cem anos atrás, provavelmente não usufruiria um terço do conforto com que vivo actualmente; o que não impede de ouvir muitas histórias felizes dessa época...

 

Considero que é importante pensarmos duas vezes antes de nos queixarmos. É verdade que as injustiças existem e sempre existiram, não apenas na nossa rua, no nosso quarteirão ou no nosso país. Se este mundo fosse justo, não teriam já morrido à fome várias dezenas de pessoas (adultos e crianças), desde o momento em que comecei a escrever este texto. Esta é uma realidade crua que conhecemos, reconhecemos, mas que acaba por não nos afectar porque não incide no nosso dia-a-dia, simplesmente temos a sorte de nem sabermos verdadeiramente que realidade é essa. Obviamente não podemos mudar o mundo, mas podemos fazer a nossa parte, aquela que está ao nosso alcance, e que começa por dar à nossa vida o sentido que ela merece.

No país e na época em que vivo, na sociedade em que estou inserida, correndo o risco de destoar das correntes actuais, faço questão de hoje usufruir da minha liberdade e escrever publicamente que sou feliz aqui, no país onde vivo. Ultimamente, os meus hábitos podem ter mudado, os meus orçamentos reavaliados, mas não é por isso que o sentido que dou à minha vida se denegriu. Agora, mais do que nunca, tenho consciência do que é realmente importante e tenho vontade de lutar e trabalhar, agarrar-me à vida e às oportunidades que ela me oferece.

 

Estefânia Sousa

 

24
Mai11

Vida com sentido (O sentido da vida – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

Sentou-se no sofá. Ainda tremia. Tudo parecia desmoronar. Maria não podia acreditar nas palavras do médico. Aquela doença. Ainda latejavam as palavras no seu cérebro: ”Senhora Maria, lamento informar, mas o tumor encontrado é maligno. A Senhora Maria tem cancro”. A partir dali deixara de ouvir. Fixara-se na sentença que o médico proferira.

- “Cancro???” – repetia aterrorizada. Como podia estar a acontecer-lhe a ela, que até tinha uma vida saudável.

- “Vou morrer” – desabafaram as lágrimas pelo seu rosto.

 

Maria fora sempre uma mulher enérgica. Tinha uma família da qual se orgulhava e a fazia sentir amada. Era realizada profissionalmente, adorava o que fazia. Maria, era uma pessoa contente com a sua vida. Sempre tudo tivera um rumo.

Após a faculdade, tinha arranjado trabalho na área. Conhecia já Francisco e pouco tempo depois acabariam por se casar, numa cerimónia magnífica, tal como ambos sonharam. Daí para frente a rotina tornou-se um clássico, mas ambos sempre gostaram de desafios e novos projectos, e por isso não tardou a terem filhos e sentirem-se abençoados pela vida. A vida que, num contratempo ou outro, os habituara a sorrir. Não era comum questionar a existência ou até o sentido da vida, já que sempre o destino se encarregara de lhe traçar bons trilhos. Viviam numa espécie de véu que os fazia sentir protegidos, com sentido, como se tudo se encaixasse perfeitamente.

 

Caíra como uma pedra num charco aquela notícia. Francisco nada sabia sobre a doença oncológica de Maria. Maria não queria preocupá-lo com algo que poderia ser nada. Quando ouviu o som metálico da chave na fechadura, Maria estremeceu.

- “E agora?” – pensava. “Como lhe vou dizer que vou morrer?”.

Francisco entrou. Como sempre, fez os gestos do costume, mergulhado no seu automatismo.

- “Amor, cheguei” – anunciou.

Maria manteve-se intacta. Francisco estranhou. Subitamente pressentiu algo.

- “Maria, está tudo bem?” – perguntou preocupado.

A face de Maria tinha as marcas das lágrimas escorridas.

- “Meu amor, que se passou?” – insistiu Francisco.

- “Tenho Cancro” – respondeu secamente Maria.

Francisco estarreceu. Sentiu-se quebrar. “Não faz sentido!! Cancro?”. O mundo desabara. Imediatamente Francisco pensou na morte. Abraçou a sua mulher. Maria em prantos gritava “Vou morrer, vou morrer!!”.

A noite chegara. Estavam ambos deitados na cama sem conseguir deixar de fixar o tecto. Maria sentia-se confusa. Estava amedrontada com a ideia que tudo poderia acabar. Nunca pensara propriamente na possibilidade de morrer assim. Sempre tivera uma vida sem dissabores. Nada daquilo fazia sentido para si. Como era possível, de um momento para o outro, tudo acabar? Simplesmente não fazia sentido. Porquê a ela? Porquê agora? Que sentido tinha ter vivido uma vida de sonho para agora acabar de uma maneira tão terrível? Que sentido tinha a vida afinal?

 

Levantou a cabeça cansada. Estava nauseada. Aquele ciclo tinha sido mais desgastante. Sentia-se fraca. Mas sabia que era normal. Dirigiu-se à cozinha para beber um gole de água. Sabia que Francisco estava a chegar. Queria muito estar no seu colo, com o amor da sua vida. Os braços de Francisco confortavam-lhe a alma e davam-lhe ânimo para combater o Cancro.

Algumas semanas tinham passado desde o choque da notícia. Maria começara a tentar viver um dia de cada vez, como tanto lhe diziam no hospital quando fazia os tratamentos. De certa forma, Maria estava mais desperta para a vida. Para os pormenores. Para quem estava a seu lado. Houve tempos em que nada fazia nexo. Após se confrontar com a morte, com o medo, após discutir com o universo, Maria começara a aprender a sua condição humana, a sua fragilidade. Aceitara o que o destino lhe colocara no caminho. Mas não se conformava em desistir. Francisco não deixaria.

Era como os passarinhos que todos os dias a acordavam. Nascera, crescera, dera à luz, e agora estava na luta pela vida que, um dia, naturalmente, acabaria. Como a de qualquer ser vivo. Maria, percebera que o sentido da vida era ter sentido. Um sentido seu. Percebeu que uma pessoa sem sentido já estava morta, mesmo que organicamente viva. Mas muita vida existia dentro de Maria. Tinha vontade de viver. Viver cada minuto que ainda tinha. Se um dia, por uma questão genética, ganhara vida por puro acaso, não pretendia desperdiçar nem um minuto dessa vida, que inevitavelmente, num certo minuto acabaria por findar. Assim, sem mais nem menos.

 

Cecília Pinto

 

20
Mai11

As páginas da existência (O sentido da vida – 2)

Publicado por Mil Razões...

 

 

O sentido da vida descobre-se nos momentos em que o coração quase pára. Breves segundos em que, após a batalha, se instala o silêncio que nos grita na alma, e tudo parece claro como água. “Dá-me tempo. Mais tempo. Mais vida.” Todavia, antes de avançar, há que dar sentido ao que ficou para trás.

Parar e olhar para trás é fazer um ponto da situação antes da caminhada em frente. É perceber que a vida tem de ser mais do que sobreviver, sob pena de se permanecer em estado bélico, o resto da existência. Sobrevive-se à violência física e psicológica. Sobrevive-se ao abuso camuflado e massacrante. Sobrevive-se ao terror da chantagem emocional. Sobrevive-se a doenças terríveis e dissimuladas, com nomes impronunciáveis. Sobrevive-se à falta de dinheiro, aos gritos, à dor. Sobrevive-se com mazelas, no corpo e na alma, mas sobrevive-se. Até ao dia em que cansa, apenas, sobreviver. Em que impera a necessidade de desmantelar as armas e deixar de temer sempre o pior. Em que urge assistir ao romper da aurora com alegria na alma, e esperança de que, a felicidade, seja o bálsamo de todas as dores. De batalha em batalha, pomo-nos à prova: cada vez que pensamos não poder mais, descobrimos que, afinal, ainda podemos. A força que vem de dentro parece crescer na mesma proporção do desafio. Podemos usá-la ou não… Podemos renunciar. Podemos baixar os braços e, simplesmente, desistir. Cansa lutar. Sem um sentido para as coisas, deixa de ter importância resgatar o dia seguinte. Se a vida, entretanto, nos ceifou a alma, o que caminha de nós é um invólucro vazio e putrefacto que, não sabendo para onde vai, qualquer caminho lhe serve. Segue ao acaso, alheio ao Sol que nasce todas as manhãs, alheio aos sorrisos e às maravilhas do mundo. Um pé atrás do outro. Sem directrizes.

 

Às vezes, no entanto, sem explicação racional, da maior das dores, emerge uma vontade incontrolável de viver em plenitude. De exorcizar esse sofrimento amando, sorrindo, abraçando, partilhando, cuidando; mesmo sabendo que não se foge ao inferno, ele passa é a viver dentro de nós. E, cada dia, se torna uma conquista que, de tão dura e acutilante, sabe mesmo bem vencer. Dizia Ortega y Gasset, “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”. As circunstâncias, raramente as escolhemos, mas podemos escolher a forma como as encaramos, como reagimos a elas. O sentido da vida é muito mais do que um conceito estéril e filosófico. É a bússola orientadora. É a razão de todas as coisas. É o que nos salva da loucura quando a força nos falta. Perceber o sentido da vida é como ter livro de instruções, ainda que com algumas folhas em branco e páginas encriptadas.

 

Alexandra Vaz

 

17
Mai11

A morte anunciada (O sentido da vida – 1)

Publicado por Mil Razões...

 

As crianças desconhecem-na, ingenuamente, por não terem consciência plena da condição humana. Os adolescentes ignoram-na, embriagados pela protecção ilusória que a juventude lhes proporciona. Os adultos vão-se vendo obrigados a ir lidando com ela sempre que os seus efeitos tropeçam nas suas vidas. E os idosos aprendem a ir aceitando, dia após dia, a sua inevitabilidade mais ou menos próxima. A morte é uma certeza cruel, fria, uma verdade que encerra um silêncio ensurdecedoramente infinito e que nos acompanha, sempre, ainda que a tentemos esconder, ainda que a tentemos atropelar com o ritmo frenético das nossas rotinas quotidianas. Como perceber, então, como aceitar, que seja esta mesma morte anunciada que garante a beleza única e singular à vida humana e que nos recorda, todos os dias, o privilégio que temos em acordar e em estar vivos?

 

A morte e a sua natureza fatalista provocam no Homem um desequilíbrio constante que deriva da angústia de se conhecer o seu fim inevitável e nada poder fazer para o alterar ou evitar. Mas se o Início já faz parte do nosso passado, quando dele tomamos consciência, e o Final espera-nos irremediavelmente, caberá a cada um nós, enquanto indivíduos, definir e escolher aquele que será o seu “Durante”. Mais do que descobrir o sentido da vida como se de um segredo guarado a sete chaves se tratasse, talvez o Homem deva concentrar-se no caminho que decide ir desenhando na calçada do seu trajecto de vida. Um caminho que assuma sem reservas a tragédia da própria condição humana e que, com a mesma determinação e coragem, consiga reconhecer ao Amor, à Alegria e às emoções positivas, o poder de se restabelecer o equilíbrio existencial. Durante a construção desse percurso, acredito que poderemos contar com a companhia de uma outra grande certeza: a de que “nunca nos sentiremos sozinhos desde que a nossa preocupação seja o bem-estar dos outros” (António Damásio).

 

Liliana Jesus

 

10
Mai11

A casa grande (Idade Maior – 12)

Publicado por Mil Razões...

 

- Quem é aquele senhor que te trouxe à escola?

- É o meu avô.

- Ele traz-te todos os dias?

- Traz. Mas às vezes traz o meu pai. Noutros dias, a minha mãe. Mas é quase sempre o meu avô.

- E gostas de vir com o teu avô?

- Gosto. E gosto de ajudar o meu avô a fazer coisas em casa. Tu também ajudas o teu avô?

- Eu não tenho avô; só tenho avó.

- E ela traz-te à escola?

- Não. Ela agora vive numa casa grande, com muitos avós.

- E porque é que não vive contigo?

- Não sei. O meu pai disse que não podia tomar conta dela, a minha mãe abanou que sim com a cabeça e levaram-na para aquela casa grande.

- E nunca estás com ela?

- Só às vezes, quando vou lá.

- E quando vais, ela brinca contigo?

- Não. Está lá sentada a ver televisão, ou anda a passear.

- E tu não brincas com ela?

- Não, ela está sempre triste. E eu não gosto de lá ir. Os avós estão sempre tristes e cheira mal.

- Se levasses a tua avó para casa, achas que ela ficaria contente e brincaria contigo?

- Não sei. Mas o meu pai não deixa que ela vá.

- O teu pai não gosta da tua avó?

E ficaram em silêncio, à espera da professora.

 

Fernando Couto

 

06
Mai11

Os nossos mais velhos (Idade Maior – 11)

Publicado por Mil Razões...

 

Não é muito valorizada a idade na nossa sociedade, pelo contrário, todos os dias cientistas e investigadores trabalham no sentido de encontrar uma “cura” para o envelhecimento, um retardador potente. Os nossos mais velhos são, demasiadas vezes, encostados a um canto e é desvalorizada a sua opinião, por se achar que não têm mais nada para oferecer.

Aprendi com esta sociedade que chegar a uma certa idade é desprestigiante e que, por muito conhecimento que tivermos para transmitir, não seremos levados a sério devido à nossa idade. Tantas vezes em jovem ouvi adultos a comentar, acerca de pessoas mais velhas, que se arrastavam pelas ruas, “olha para isto, que figura, para isso prefiro não chegar àquela idade”. E com este tipo de afirmações, estive na iminência de ter uma opinião semelhante e de viver para sempre assustada com o inevitável avançar da minha idade. Só não vivo assustada hoje, graças a todas as conversas que tive com a minha avó (que, com muita pena minha, já não se encontra entre nós).

 

Uma das histórias que a minha avó me contou e que passo a partilhar, aconteceu quando ela era muito nova, devia ter os seus 7 ou 8 anos. Nessa altura, ela costumava visitar, com as amiguitas, uma vizinha velhinha que estava acamada e que tinha ficado cega há já alguns anos. Todos os dias, as jovens faziam uma visita à velhinha que lhes contava as suas peripécias do passado, partilhava com elas as suas crenças e pontos de vista. E tanto a minha avó como as amigas tinham muita pena da velhinha pela sua condição limitada. Um dia, uma das amigas da minha avó decidiu partilhar a sua opinião com a velhinha dizendo-lhe com carinho: “coitadinha de si, viver nestas condições, só espero que Deus a leve depressa”. A velhinha não gostou nada de ouvir estas palavras e reagiu muito mal dizendo “que Deus te leve a ti, pois eu ainda não estou pronta! Ainda tenho muitos passarinhos para ouvir cantar à janela, muitas histórias para partilhar com as pessoas, muita cor e brilho para imaginar. Fala por ti que eu não quero ir já! Não venhas para aqui desejar-me a morte!”. As jovens ficaram muito admiradas com a resposta da velhinha, de tal forma que a minha avó nunca mais esqueceu aquelas palavras, mesmo passados muitos anos, quando ela chegou à mesma idade da velhinha.

Desta forma, a minha avó mostrou-me que, independentemente da idade e das limitações que nos podem surgir com a mesma, estamos sempre a tempo de aproveitar o que acontece à nossa volta, sempre a tempo de ser felizes com o pouco que temos. E aprendi também que as lições mais sábias não vêm só dos professores e dos estudiosos, mas também daqueles que reúnem muitos anos de vida.

 

Ana Gomes

 

03
Mai11

O jardim dos namorados (Idade Maior – 10)

Publicado por Mil Razões...

 

Caminham em silêncio, de mãos dadas. Um silêncio povoado de afectos que elas não querem quebrar. De vez em quando as mãos apertam-se para se sentirem mais próximas, para avalizarem o carinho que as une.

Sentam-se no único banco livre, bem no centro do jardim, junto ao lago onde patos e cisnes deslizam por entre os nenúfares que cobrem as águas sujas e esverdeadas. Coabitam com os peixes avermelhados que só são visíveis nas águas turvas quando iluminados pelos raios de sol que atravessam a folhagem das árvores e vão dar vida ao lago. O velho plátano, hoje como há muitos anos, serve-lhes de guarda-sol. Os seus ramos, numa dança incessante, de cá para lá, de baixo para cima, tocam-nas, envolvem-nas e oferecem-lhes um presente da sua própria criação – depositam no regaço da mulher mais idosa uma folha.

As mãos separam-se.

A mulher pega a folha e fá-la rodopiar nos dedos desenhando círculos no ar. Observa-a! Primeiro de um lado, deixa-se impressionar com a cor intensa do verde, depois vira-a e o verde-claro, tão claro que mais parece branco, intriga-a, o mesmo ser com duas cores, duas faces. Observa-lhe o pé, o elemento que a prendia à vida mas que faliu e a deixou à deriva. Cumpriu o seu ciclo, caiu. Mas, terá mesmo cumprido o seu ciclo? Será aquele o seu fim?

 

O seu pensamento salta de pergunta em pergunta, confunde-se com a folha e as interrogações que a invadem são já sobre a sua própria existência. 

Mexe-se no banco para afastar o incómodo que a invade. Sacode o regaço. A folha cai abandonada no chão. Arrepende-se do gesto irreflectido e quer apanhá-la de novo. Esgota-se a tentar resgatá-la ao vento que, brincalhão, a sopra para perto, para de seguida a afastar para mais longe. Desiste, já não se sente com forças para brincar com a força do vento.  

Lamenta o quanto não terá perdido pela vida fora por gestos repentinos e impensados. Assalta-a um desejo penoso -  ter vinte anos e saber o que sabe hoje! É um desejo incompreendido, ninguém lhe pergunta o que é que apreendeu, ninguém quer saber se ela tem alguma coisa para ensinar. E no entanto aprendeu tanta coisa que poderia partilhar!...

Aprendeu que não existem relacionamentos sem respeito, que a felicidade se sustenta em laços apertados de afectividade, que a compaixão aproxima, que todas as pessoas vivem no desejo de serem compreendidas, aceites, amadas.

Aprendeu a viver como ser livre que é.

 

A jovem sentada ao seu lado brinca com as suas mãos. Aperta-lhe ligeiramente a pele e observa as pregas que se vão formando. A ausência de poros dá-lhe um aspecto plastificado. Ainda se lembra de as ver com os dedos pontiagudos, finos e bem torneados, de pele branca, quase transparente. Já não são como antigamente, porém ricas de experiência. As pregas e as manchas contam uma história, a história da sua vida.

 

Finalmente o silêncio é cortado.

- Foi aqui neste jardim, que o teu avô me pediu em casamento. No meu tempo este era o jardim dos namorados.

A neta olha-a com tristeza.

- Sabes avó, gostaria que sentisses que este também é o teu tempo.

 

Cidália Carvalho

 

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