Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

05
Abr11

Fios de sabedoria (Idade Maior – 2)

Publicado por Mil Razões...

 

Entrei e sentei-me no último banco. Esperava ver a igreja vazia mas fiquei surpreendida pela quantidade de pessoas que já lá estava. Claro, que tonta, estavam a chegar para a homilia da manhã. Fiquei contrariada, não queria ver gente na igreja, queria entrar nela vazia. Respirei lenta e profundamente e olhei à minha volta.

 

Reparei que todas as cabeças que estavam à minha frente eram brancas ou cinzentas. Deviam estar umas quinze pessoas e todas elas já com idade avançada. Eu tinha entrado naquela igreja por impulso mas pareceu-me que todos os que lá estavam cumpriam uma rotina quotidiana. O esforço que faziam nos seus movimentos lentos e silenciosos deu-me ideia que este era um momento solene no dia deles. Numa fase já cansada da sua vida, estes velhinhos levantavam-se cedo de manhã para orar, conversar com Deus, quem sabe, encará-lo. Tive vontade de ir ter com eles, questioná-los, ter uma resposta imediata sobre tudo o que já sabiam, a que conclusões tinham chegado. Já tinham sido jovens, já tinham corrido, pulado, esperneado, já se tinham sentido fortes, poderosos, já tinham festejado as suas conquistas e inevitavelmente tinham tido desgostos. Queria perceber como é que depois disso tudo conseguiam estar ali tão serenos. Senti que teria tanto para aprender com eles, certamente já tinham atravessado experiências como a minha naquele momento. E depois? Quando tudo passa? Como se fica? Talvez nos riamos das nossas tontices, dos nossos dramas apocalípticos que em suma, resumem-se a experiências de vida, com o passar dos anos até podem parecer anedotas. Certamente estas pessoas não tinham entrado na igreja pelo mesmo motivo que eu. Eu estava perdida, prestes a lançar um ultimato, à procura de uma luz, de uma inspiração, de um milagre, de preferência repentino! Estes velhinhos não me pareciam estar perdidos. Eram frágeis e fortes ao mesmo tempo, andavam curvados mas com um olhar pausado, de quem já sabe muito e também sabe a dimensão do desconhecido. A sua debilidade física dissolvia-se no sussurrar das suas orações, na serenidade que transmitiam. Estes cabelos brancos e prateados que me enfrentavam eram como um desafio. Tinham tido toda a vida para acreditar, questionar, duvidar e até negar. Por fim, todas as equações resultavam em crer, mais do que tudo naquilo que é inexplicável. Contas feitas, depois de ter vivido momentos tão intensos e tão urgentes, tudo passa, com o tempo as importâncias desvanecem e permanece a consciência da condição humana, frágil e irreversível. A vida resume-se ao essencial porque já não se tem tempo para desperdiçar com urgências e precipitações.

 

Saí da igreja mais tranquila. Tinha bebido da sabedoria de quem estava bem mais à minha frente. Os meus problemas permaneciam idênticos mas eu já me posicionava de forma diferente em relação a eles. Aqueles fios prateados com quem tinha partilhado aquela paz tinham-me apontado a fórmula para continuar: paciência. Difícil era pô-la em prática. Percebi que devia aprender com o tempo e dar tempo ao tempo para que me ensinasse a viver. As respostas não são forçadas, elas vêm ter connosco apenas quando estamos preparados para as receber e quando lhes damos espaço para chegar a nós, hoje, amanhã, daqui a quarenta ou sessenta anos.

Desde esse dia, sempre que entro numa igreja reparo inevitavelmente nos cabelos brancos e prateados, silenciosos fios de sabedoria que me mostram o quanto tenho para caminhar.

 

Estefânia Sousa

 

Porto | PORTUGAL

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Equipa

Alexandra Vaz

Ana Martins

Cidália Carvalho

Ermelinda Macedo

Fernando Couto

Jorge Saraiva

José Azevedo

Landa Cortez

Leticia Silva

Rui Duarte

Sandra Pinto

Sandra Sousa

Sara Almeida

Sara Silva

Sónia Abrantes

Tayhta Visinho

Teresa Teixeira

Calendário

Abril 2011

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Comentários recentes

  • Anónimo

    estou me sentido muito mal com td isso parece que ...

  • Fernando Couto

    Como se não nos bastassem os pesadelos criados pel...

  • marta

    ...e o pesadelo continua...

  • marta

    Uma pintura para a compaixão que este texto merece...

  • marta

    Um texto verdadeiramente Verdade...obrigada....e e...

Links

Amigos do Mil Razões...

Apoio emocional

Promoção da saúde