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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

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Destaque

Amigos do Ziki - Uma ferramenta para o pré-escolar.

31
Dez10

O Suicídio e a Tentativa de Suicídio na Adolescência

Publicado por Mil Razões...

 

Sampaio (1991), ao falar da adolescência afirma que esta é “uma fonte inesgotável de criatividade individual e familiar, um cenário de trocas afectivas intensas e onde a vida e a morte surgem constantemente. É neste quadro complexo que tantas vezes surge a tentativa de suicídio”.    

O suicídio é uma questão muito complexa, que desperta uma grande onda de angústia, na medida em que levanta a questão do nosso poder sobre a morte. Quando o suicídio surge na adolescência, a inquietação é ainda maior, levantando a questão de como é possível numa fase de descoberta e de encontro com o mundo, acontecer um tal desencontro, que leve a que a única alternativa perante o sofrimento, seja a procura da morte (Santos e Sampaio, 1997).

Tal como refere Shneidman, coexistem no gesto auto-destrutivo vários factores: uma pressão (interna ou externa) sobre o adolescente; uma dor psicológica insuportável (para a qual urge encontrar uma solução); e uma perturbação que pode assumir diversas formas psicopatológicas. Neste contexto, o gesto suicida surge como uma estratégia desesperada para pôr fim a uma tensão difícil de controlar, num individuo vulnerável devido a factores predisponentes, com dificuldades na evolução biográfica (abandonos, perdas, etc.) e perante o qual surgiram factores precipitantes que desencadearam o gesto suicida (conflitos, rupturas, insucessos, entre outros). A experiência clínica nos jovens mostra-nos que os comportamentos suicidários correspondem não só a momentos de crise individual, uma espécie de falência nas tarefas de desenvolvimento, mas também são uma forma de comunicação poderosa; um processo ambivalente e paradoxal de procurar uma mudança no contexto de vida. Existem inúmeros significados e motivações, e qualquer que seja o grau de intenção, ele exprime sempre dois desejos poderosos: acabar com aquilo que faz sofrer e restaurar a identidade (SPS, 2006).

Para Sampaio (1991), a tentativa de suicídio na adolescência surge então numa perspectiva tripartida, por um lado individual, relacionando-se com as vivências do adolescente; por outro lado familiar, no sentido de uma visão longitudinal da história natural da família, considerada na dimensão mais alargada; mas também numa perspectiva social, referente ao enquadramento social do jovem. A tentativa constitui-se como um triplo fracasso nestas vertentes, na sequência da falência de outras formas de resolução da crise. Para este autor, a tentativa de suicídio adolescente surge “após uma impossibilidade de reorganização estrutural, isto é, o processo de desenvolvimento não avança e há um bloqueio, uma situação de instabilidade a partir da qual se torna necessária a intervenção terapêutica”.

De facto, verifica-se que, de forma geral, as famílias de adolescentes suicidas revelam elevados padrões de rigidez, de hostilidade conflitualidade marcada, bem como de intolerância à crise.

Neste sentido, a intervenção terapêutica deverá passar, não só por uma abordagem individual com o jovem, como também uma intervenção junto da família ou rede de suporte do adolescente em questão. É pertinente salientar o papel da família, pois fornece o suporte afectivo que os adolescentes necessitam, quer para superar este período de tristeza, quer para os incentivar no processo terapêutico necessário.

 

Diana de Morais Ribeiro

(Articulista convidada)

 

28
Dez10

Elaborar um Testamento Vital, ou não assumir qualquer compromisso em relação a um eventual tratamento futuro?

Publicado por Mil Razões...

 

Em primeiro lugar, ninguém está obrigado a fazer uma Directiva Antecipada. E se acha que é daquelas pessoas que prefere deixar tudo entregue à “sorte”, ou que gostaria sempre de usufruir de todas as vantagens e não ser obrigado a abdicar de nada, é capaz de ser melhor não fazer uma Directiva. Tenha em atenção, porém, que o mais provável é, um dia, alguém ter de fazer essas opções por si, que não se quis pronunciar antecipadamente sobre elas, nem que fosse apenas pela designação de um/a Procurador/a de cuidados de saúde. Nessa altura, a não ser que a dita “sorte” o proteja muito, pode ter alguém a impor-lhe tratamentos a que, se pudesse falar nessa altura, não gostaria de estar sujeito.

 

David Barnard, professor de medicina e direito, em Living with Doubt (cf. Barnard, 2010: 27-28), ajuda-nos a reflectir melhor sobre o assunto.

Suponhamos, começa ele por nos dizer, que você se encontra num estado semi-comatoso numa Unidade de Cuidados intensivos, “ligado a um ventilador, seis dias depois de um AVC moderado”. Antes disso, a sua situação de saúde já não era boa, com deficiências físicas por causa de diabetes, e tinha de se submeter a diálise três dias por semana. Com a passagem dos dias, os médicos mostram-se cada vez mais pessimistas quanto às possibilidades de ser possível você recuperar algumas funções cognitivas e físicas. Imaginemos agora — e aqui começa a parte mais interessante do comentário de Barnard — que, por um passe de mágica, era possível você recuperar de repente todas as capacidades mentais e falar sem problemas com a sua família e médicos sobre a situação em que se encontra. Nessa altura, perguntam-lhe se, perante as perspectivas pessimistas, quer que se continuem a desenvolver todos os esforços para o manter em vida, ou se prefere que o deixem morrer com todo o conforto possível, ou seja, sem dores ou sensação de asfixia, desligando o ventilador e não lhe fazendo mais tratamentos de diálise. O que responderia?

Neste momento da narrativa, David Barnard toma o lugar dessa pessoa desconhecida: se essa pessoa fosse ele, diz, as primeiras palavras que lhe ocorreriam estariam longe de corresponder a uma decisão.  Muito provavelmente, seriam algo do género: “Hmmm. Depende. Podemos discutir isso por uns momentos?”. Mais ainda: “se você fosse como eu, pesando os pormenores e incertezas quanto ao seu futuro pós-AVC frente aos seus desejos simultâneos (e, por vezes, mutuamente exclusivos) de gozar a vida tanto quanto possível e de morrer com o menor tormento, ou a menor sensação de desamparo prolongado, no final ainda não estaria completamente seguro da sua preferência. O que quer que fosse que decidisse, provavelmente teria profundas dúvidas sobre se o que tinha escolhido era de facto o melhor para si”.

O que Barnard quer salientar com este caso é que, por vezes, mesmo podendo falar na altura dos acontecimentos, nem o próprio sabe o que seria melhor para ele, quanto mais uma Directiva Antecipada redigida no meio de grandes ambivalências, ou um/a Procurador/a de cuidados de saúde. Portanto, o que Barnard incentiva não é a criar condições para uma decisão, mas para conversas em que a pessoa vá falando dos seus desejos em relação a cuidados de saúde, posição que se pode facilmente criticar. De facto, o que se pretende actualmente é que essas decisões tomadas numa Directiva sejam já o reflexo de conversas que as pessoas vão tendo com familiares, pessoas amigas e pessoal de saúde, e que não surjam numa manhã cinzenta de amargura.

 

Mas David Barnard insiste: nenhuma Directiva poderá alguma vez sossegar-nos em relação ao nosso bom procedimento quanto a tê-la seguido ou quanto a termos falado adequadamente em nome do/a nosso/a amigo/a como seu/sua Procurador/a. Porquê? Fundamentalmente porque David Barnard parte aqui de uma posição que creio podermos caracterizar como sendo acima de tudo filosófica, mas só no final do texto nos possibilita acedermos a ela, quando nos confronta com extractos da última parte do livro de Simone de Beauvoir sobre a morte da sua própria mãe: “Sim, todos os homens são mortais: mas, para cada um deles, a sua própria morte é um acidente e, mesmo se a conhece e aceita, uma violência ilegítima” (Beauvoir, 2008: 125, segundo a tradução portuguesa; de notar que no artigo americano nos aparece violation e não violence). Por isso, Barnard já dissera considerar haver um abismo irredutível entre a “clausura artificial” de uma Directiva Antecipada e o momento aberto e ambivalente do encontro com a própria morte. De facto, se se parte do princípio de que a morte é sempre uma violência (ou violação?...) injustificável, como é que nós, os que continuamos vivos, havemos de ficar, como escreve Barnard, “inteiramente livres de dúvida e culpa”?

Aliás, se nos desprendermos do artigo americano e recuarmos um pouco no livro de Simone de Beauvoir, encontramos o seguinte: “Quando alguém que nos é querido desaparece, pagamos com mil remorsos dilacerantes o sentimento de culpa por lhe sobrevivermos” (ibid.: 112). Mais: a sensação de que a morte constitui uma violação injusta encontra-se presente na própria epígrafe de Dylan Thomas que abre o livro de Beauvoir: Do not go gentle into that good night. / Old age should rave and burn at close of day; / Rage, rage against the dying of the light... (“Não entres docilmente nessa noite fria. / A velhice deveria arder de raiva ao anoitecer; / Revolta-te, revolta-te contra a escuridão”; cf. Beauvoir, 2008).

 

Perante estas considerações do autor, resta-me uma última conclusão: se, mesmo com uma Directiva Antecipada bem reflectida e elaborada, mais a designação de um/a Procurador/a de cuidados de saúde, nós, os decisores, poderemos ficar ainda com sensações de dúvida e culpa em relação àquela pessoa inconsciente cujas vontades tentámos seguir o melhor possível, atendendo às informações que nos deixou e às conversas que teve connosco, pior ainda se ela não nos tiver deixado nenhum fio condutor que nos ajude a interpretar as suas vontades. Mesmo que, afinal, também estejamos convencidos de que a morte é sempre, no fundo, uma violação, profanação ou violência injustificáveis.

 

BARNARD, David (2010). Living with Doubt. American Journal of Bioethics, 10 (4), 27-28.

BEAUVOIR, Simone de (2008). Uma morte Suave. Trad. de Bénédicte Houart, Lisboa: Cotovia. 

 

Laura Ferreira dos Santos

(Articulista convidada)

Universidade do Minho e Comissão de Ética para a Saúde da ARSN; autora de “Testamento Vital. O que é? Como elaborá-lo?” Lisboa: Sextante, Janeiro 2011.


27
Dez10

Testamento Vital

Publicado por Mil Razões...

 

Aproveitando estar o Testamento Vital em análise na Assembleia da República, e estar agendado, para Janeiro de 2011, o lançamento do novo livro da Professora Doutora Laura Ferreira dos Santos sobre o tema, pela Sextante Editora, publicaremos amanhã um artigo desta autora. Não perca.

 

Mil Razões…


24
Dez10

643 (Depois da tentativa – 12)

Publicado por Mil Razões...

 

 

O carro parou. Pelos movimentos dos seus colegas de viagem percebeu que já tinham chegado ao destino. Uns segundos depois ouviu o pesado portão subir, lentamente. Fixou aquele som. O carro avançou para voltar a parar um pouco mais à frente, para a habitual verificação e troca de papéis. Recomeçou a marcha para vencer o lanço final, até ao pátio.

A porta abriu-se e a luz forte do Sol do início da tarde foi de imediato ter com ele, envolveu-o, querendo aquecê-lo.

- Regressaste a casa. Vamos lá, desce.

Ergueu-se lentamente. Doíam-lhe as entranhas, doía-lhe o corpo, sentia-se virado do avesso, como se a sonda ao sair tivesse trazido tudo agarrado a si. E aquele sabor horrível na boca. Doía-lhe o coração, doía-lhe o espírito, doía-lhe a alma.

Desceu. Rapidamente a porta do carro celular foi fechada e o guarda pegou-lhe no braço. Sentiu carinho naquela ajuda para caminhar.

- Para onde vou?

- Para já vais para a enfermaria. Depois eles lá te dirão se ficas lá, se voltas para o teu “quarto”.

 

 Entrou na enfermaria e sentou-se. Mas logo o enfermeiro chamou.

- Então, foste lavar as tripas? Gostaste da experiência? Mas o que foi que te deu para comeres vidro e detergente?

António - o 643, permanecia em silêncio.

- Ao menos foste passear. O passeio é que foi curto e rápido. E deixaste-nos muito preocupados, sabes? Mas já estás de volta. Agora temos é de tratar de ti.

António pousou a cabeça entre as mãos. E perguntou para si mesmo: - Porque não me deixaram morrer?

- Para já ficas aqui na enfermaria. Vais ficar aqui ao lado, com o 317. Dás-te bem com ele?

António acenou que sim, sem separar a cabeça das mãos, sempre a olhar os joelhos. A cabeça latejava-lhe. Quase sem forças perguntou:

- E quando volto para a ala?

- Não sei. – Respondeu o enfermeiro. E continuou logo depois:

- Daqui a pouco o médico vem falar contigo, ver como estás, e depois ele decidirá.

- Não quero voltar à ala! Eles vão dar cabo de mim.

- Tens muitas dívidas, é? Tens mais dívidas que juízo.

 

António conseguiu deitar-se. Luís - o 317, fixou o olhar em António, em silêncio, desde que este passou a porta.

Estendido, António pensou no que se passara no gabinete do médico, que o observara com muita atenção e cuidado. Disse-lhe que iria ficar bem, que dali a uns quatro dias estaria em forma. Pediu-lhe que falasse com o psiquiatra, que viria na manhã seguinte. Deu-lhe um cartão com um número de telefone, gratuito, da Voz de Apoio – para ligar se quisesse falar com alguém, alguém fora do estabelecimento prisional. Talvez ligasse.

Mas para já o que o preocupava era o regresso à ala. Não tinha como pagar as dívidas e sabia o que lhe estava destinado. Iriam continuar a usá-lo, sexualmente. Sentia medo, muito medo – mas não podia exprimi-lo, não podia mostrá-lo. E sentia culpa, muita culpa, por tudo o que consigo se passava. Sentia-se um ser miserável, repugnante, merecedor de todas as sevícias. Não aguentava uma vida assim, dois anos de sofrimento, sem ninguém cá fora que fosse um objectivo, que lhe desse força para aguentar.

 

Se tivesse morrido, estaria tudo resolvido. Ou talvez não estivesse. Estava muito confuso e cada vez com mais dúvidas.

Mas não queria voltar para a ala – eles estariam à sua espera. E não fora essa a pena a que o juiz o condenara.

Se ao menos conseguisse dormir um pouco… Afinal era noite de Natal, não de morrer.

 

Fernando Couto

 

21
Dez10

Era mais um dia… (Depois da tentativa – 11)

Publicado por Mil Razões...

 

Era mais um dia…

Um dia normal de trabalho no Serviço de Urgência…

Doentes e mais doentes (Uns mais doentes que outros!), muitos velhos e alguns novos, em macas e em cadeira-de-rodas… tantos que a certa altura já se torna impossível chamá-los a todos pelo nome!

Era Inverno… (São as gripes e as Pneumonias, é assim nesta altura!)

Era mais um dia…

Era mais um doente…

Tinham ligado a avisar: Ia chegar um doente à Sala de Emergência: uma tentativa de suicídio por enforcamento, um homem novo, disseram, vinha com os bombeiros.

Estávamos à espera.

E a sala tocou… Deixámos tudo o que estávamos a fazer e corremos à Sala de Emergência… (O que iria encontrar? De onde vinha? O que o levaria a fazer isto?)

Entrei.

Lá estava ele, um corpo inerte, frio, gelado como o ar que vinha lá de fora… (Não há nada a fazer!... Faleceu.)

Não trazia identificação. Fora encontrado em casa pelo rapaz do café que todos os dias lhe ia levar o tabaco. Devia ter entre os 35 e os 40 anos, mas a roupa suja e a barba por fazer faziam-no parecer mais velho. Era alto e bem constituído, apesar do aspecto emagrecido. Tinha o corpo tatuado e num dos braços a frase – Haverá sempre um amanhã! Percebi que tinha um tumor da laringe localmente avançado, que o impedia de se alimentar a não ser por uma sonda, que o impedia de falar e de respirar sem ajuda de uma traqueotomia. Estava preso quando a doença lhe foi diagnosticada, foi operado, mas a doença progrediu rapidamente. Recusou quimio e radioterapia. Pediu para morrer em casa, na velha casa onde tinha passado a infância com a mãe, antes de esta o deixar sozinho no mundo (provavelmente a única altura da vida em que tinha sido feliz e tinha feito alguém feliz!).

 

Joana Gonçalves


17
Dez10

Tudo fica mais claro (Depois da tentativa – 10)

Publicado por Mil Razões...

 

Ele costumava chegar a casa do trabalho à hora de jantar, embora o horário de saída fosse às 17 horas. Nesse dia, a hora do jantar passou e, para estranheza da família, ele não chegou... A preocupação surgiu entre todos, mas como o telemóvel ainda não era uma realidade, foram jantando sem ele, sempre na esperança de o ouvir chegar.

Jantaram com calma, arrumaram a cozinha (deixando um prato limpo na mesa e a comida no tacho) e reuniram-se em frente à televisão, como era costume. Tudo isto e ele sem chegar. "Mãe, onde está o pai?", diz a mais nova, estranhando a ausência inesperada, "deve estar a chegar", diz a mãe enquanto se tenta mentalizar de que nada está a acontecer. No entanto, a hora de dormir chega e dele, nada.

Os dois filhos deitaram-se e, com a ajuda das palavras de conforto da mãe, acabaram por adormecer. A mãe, no entanto, preparou-se para uma noite acordada, de vigília, à espera de notícias, de alguma informação, de qualquer coisa que a ajudasse a perceber o que se estava a passar. Em silêncio, passou a noite de janela em janela, com o pensamento a ser bombardeado por um turbilhão de ideias aterrorizadoras.

As horas passaram e o dia nasceu sem que o telefone tenha tocado uma única vez, sem uma única pista ou indicador. Toda a família desesperou... De certeza que aconteceu alguma coisa, mas o quê? Foi feita uma chamada para o trabalho dele, "ele ontem a que horas saiu daí?", pergunta a mãe, "ele ontem não veio trabalhar", respondem do outro lado... "Ele ontem não foi trabalhar", repete a mãe aos dois filhos, “ele ontem não foi trabalhar”... “Temos que o ir procurar”.

 

Não demorou muito até o filho o encontrar na garagem. Mas já não havia nada a fazer... Restava a tristeza, o desespero e a raiva... A incerteza do amanhã, a escuridão que rapidamente preencheu o dia-a-dia desta família.

Nos anos que se seguiram, completamente bloqueados pelo acontecimento, reviveram os últimos momentos juntos, as últimas frases, a forma como tudo funcionava, antes. E, desse bloqueio, foi-se tornando claro que todos tinham sido avisados. Todos eles recordaram as ameaças feitas ("isto um dia acaba de vez"), os comportamentos estranhos, o mal-estar generalizado e o afastamento da família. Mas nessa altura, já era tarde demais.

 

Ana Gomes

 

14
Dez10

A última viagem (Depois da tentativa – 9)

Publicado por Mil Razões...

 

Não reconhece o lugar onde está mas o desconhecido não lhe causa qualquer medo ou ansiedade. Não ter medo do desconhecido alimentou-lhe a certeza de ser capaz de concretizar o plano, o seu plano, que começou por ser uma vaga ideia. Não a quis partilhar com ninguém, e sozinho, amadureceu-a, deu-lhe um meio, marcou uma data. Talvez tenha sido esse o único plano que conseguiu elaborar para a sua vida -  o da sua morte.

Quer mexer-se mas o seu corpo não obedece. Está confuso. Sente-se cansado, muito cansado. As pálpebras pesam-lhe, abre-as mas desiste do esforço para as manter abertas, deixa-as descair para as abrir não sabe quanto tempo depois. Sombras e imagens difusas. Os olhos baços fixam-se no tecto e repousam naquela suavidade que o branco sempre transmite.

- Onde estou? - Pensou que não tivesse feito a pergunta mas o som quase inaudível aproximou do seu, um rosto triste, angustiado, nas rugas agora mais fundas, um medo mal disfarçado. Reconhece-a e é então que tudo faz sentido. Quis morrer mas não resistiu ao desejo de a ouvir pela última vez. Oferecer-lhe os últimos momentos da sua vida ajudá-la-ia a despenalizar-se. Telefonou-lhe. Ouviu chorar desesperadamente, chorou com ela. Depois, tudo se apagou.

Não aguenta ver tanta dor, quer fugir daquele olhar interrogativo que espera saber as razões para acto tão tresloucado. Razões? Mas será que ela, ou alguém, o poderá compreender? Tentou uma ou outra vez abrir o seu coração, falar dos seus tormentos, mas quê, apontavam-lhe a sua juventude, os recursos académicos e a folgada situação financeira que lhe permitiam ter um futuro risonho. Que forma tão simplista para um problema tão grande como era o seu! Como se sentia sozinho e incompreendido nesses momentos! 

- Tome o remédio!

Não diz o que realmente pensa, olha-a simplesmente e obedece, segura o remédio sem a convicção da enfermeira, como é que ela pode achar que aquele é o seu remédio? Se ao menos tomasse muito daquilo e de uma só vez, sim, poderia ser o seu remédio.

 

Tomei conhecimento do que aconteceu porque a irmã, extremosa, nos pediu que no regresso ao emprego o acolhêssemos sem constrangimento nem julgamento.

Quando voltou não nos pareceu diferente. Reservado como sempre mas simpático e sempre, sempre muito educado. Mostrámos compreensão e disponibilizámo-nos para ajudar. Negou o acontecido. Desvalorizou o internamento: a mãe e a irmã assustaram-se porque ele dormia há muito tempo, e levaram-no ao hospital.

 

Não sei precisar quanto tempo depois mas não terão passado mais do que dois meses quando, num Domingo à noite, no café com os amigos, agitado olhou o relógio: 23 h 45 min.. Apressou-se a sair. Já na porta ainda ouviu um amigo a perguntar qual era a pressa, se ia apanhar o comboio da meia-noite. Virou-se e sorriu...

 

Cidália Carvalho

 

10
Dez10

Diz-me que gostas de mim (Depois da tentativa – 8)

Publicado por Mil Razões...

 

- Gosto muito de ti.

 

A frase, dita à mesa do café, tão difícil de pronunciar entre portugueses adultos, carrega um peso tal que nos faz questionar intenções, intensidades e consequências. A quem a ouve, mas igualmente a quem a diz.

 

Fácil – tão fácil!- é dirigir as mesmas palavras a um gato, a uma criança, ou colocá-las na boca de qualquer personagem de romance. Porque nestes casos, quem a ouve ou lê não questiona, pelo menos directamente, não questionando portanto quem a diz ou escreve.

 

“Gosto muito de ti”. Demorei alguns segundos a responder.


- Eu também tenho uma grande estima por ti.

Propositadamente formal e defensiva, a resposta pretendia baixar intensidades, balizar intenções e prevenir consequências.

 

Tudo isto se passou há muitos anos, mais de 40, quando a manifestação de um sentimento tão forte entre adolescentes era difícil. Entre adolescentes do mesmo sexo era impensável. E era “proibida” se fossem do sexo masculino.

 

Se acontecesse hoje, passados mais de 40 anos, seria diferente?

 

L. matou-se. Não cometeu um acto desesperado e, muito menos, tresloucado. Não pôs termo à vida. Não se suicidou. Não. L. matou-se. Rebentou com os miolos e fez parar um coração a transbordar de sentimentos e desamores. M A T O U - S E.

Que do tempo das respostas propositadamente formais e defensivas me arrependo eu.

 

L. matou-se porque era homossexual num pequeno mundo faz-de-conta, no qual todos os homens eram machos e todas as mulheres eram fêmeas.

 

Antes de se matar – soube-o mais tarde – L. procurou os amigos e a todos disse a frase “proibida”. Com o passar dos anos, torna-se cada vez mais claro para mim que a frase não estava completa. “Gosto muito de ti. Diz-me que gostas de mim.” era a frase que eu deveria ter lido nos olhos do meu amigo.


E se eu, acobardado na resposta propositadamente formal e defensiva, lhe tivesse lido o olhar? E se eu lhe tivesse dito, porque era verdade: “ Também eu gosto muito de ti”?

 

José Quelhas Lima


07
Dez10

Até amanhã (Depois da tentativa – 7)

Publicado por Mil Razões...

 

Até amanhã, bom fim-de-semana!

E se eu não quisesse que amanhã chegasse? Se eu não conseguisse ter um bom fim-de-semana, há semanas, há meses.

Se só por acordar ficasse horrorizada, em pânico, como se acordasse sempre de um pesadelo e forçasse os olhos a fechar para continuar a dormir, quisesse que o corpo fosse pesado como uma maciça parede de betão, imobilizado, sem mexer. Se conseguisse ficar quieta, sem querer sequer ouvir a minha própria respiração. Para que os dias passassem e ficasse ali entorpecida,parada eternamente naquele momento único em que nem damos conta que adormecemos para logo de volta, sem darmos conta, infelizmente, acordar.

Só para conseguir que parasse, para deixar de sentir aquela dor. Tal e qual como aquele arrepio pelo corpo todo quando nos dão más notícias que parece que nos pára o sangue, aquela sensação de queda, de vazio, de desamparo. Poder parar tudo, a confusão que vai na cabeça, a desorientação, aquele estado de embriaguez.

 

Quero ficar aqui, não me quero mexer. Deixem-me. Ninguém vai dar conta. A semana passa, a vida contínua, somos tantos, ninguém vai dar conta.

Eu, um dia, vou conseguir não acordar.

 

Graça Silva

 

03
Dez10

Usurpação (Depois da tentativa – 6)

Publicado por Mil Razões...

 

Nunca senti medo de envelhecer estando contigo. Casámos em segundas núpcias, com meio século de vida. Tu tinhas estado casada, há muitos anos atrás, com um homem que te abandonou, sem uma palavra, poucas semanas depois do vosso matrimónio. Eu tinha vivido tranquilamente, quase duas décadas, com a mãe do meu único filho, mas a morte reclamou-a cedo demais. Temos sido felizes, eu e tu. Tomas conta de mim e, nessa dádiva, fazes-me sentir importante e amado. És uma força da natureza! Não paras por um instante, levas o mundo à tua frente, com força e amor.

 

Já temos mais de setenta anos. Estou quase surdo. Vivo com um cancro na próstata há mais de dez anos, que parece coabitar no meu corpo, sem pressa de me levar. Tu começaste a cair em todo o lado, sem razão aparente. Corremos médicos, ouvimos opiniões e diferentes diagnósticos. Vi-te piorar de dia para dia, assustada, e eu incapaz de te sossegar… Não me lembro que nome esquisito o especialista proferiu mas, trocando-o por miúdos, disse que tinhas a doença do neurónio motor. Lembro-me de ter pensado que não devia ser assim tão grave. Afinal, se temos milhões de neurónios, que mal poderia causar apenas um? Lenta e gradualmente, deixaste de andar, de falar, de mexer parte do teu corpo. Lá em casa, deixamos de poder atender o telefone: eu não o ouvia e tu já quase não falavas… O meu filho, que sempre me excluiu da sua vida, aproximou-se novamente. Fiquei feliz, sabes? Durante anos, supliquei tanto para poder vê-lo e às minhas netas e agora, achei que em face do que atravessamos, ele tivesse mudado. Acreditei que neste momento, particularmente difícil, a família unir-se-ia. E eu precisava tanto, tanto de apoio…. À medida que pioraste, fui percebendo que não tinha força para cuidar de ti. O meu filho e a minha nora sugeriram um Lar… um sítio onde fosses bem cuidada e eu pudesse estar ao teu lado. Não aceitei a ideia com facilidade. Não queria sair da nossa casa, não queria que te sentisses perdida e usurpada… O meu filho libertou-me do peso de algumas decisões; assumiu-as e fez tudo o que podia: pediu-me que assinasse alguns papéis que o tornassem meu representante, para eu poder estar contigo sempre que possível. Visitamos alguns lares, não gostei de nada do que vi: desumanos, caríssimos, destituídos de carinho e dignidade. Não te queria num sítio assim…. Depois de uma busca incessante, e por sugestão da minha nora, fomos para Gaia. Segundo ela, não havia melhor do que aquilo. Pediram-nos tanto dinheiro…. Felizmente, fomos poupados e tínhamo-lo.

 

Disse ao meu filho que ia manter a nossa casa. Que me saberia bem ir lá com frequência, cuidar do jardim, cheirar as nossas coisas…. E que, se não te desses bem no lar, te trazia para casa novamente e arranjava apoio domiciliário. Mereces o melhor. Fizemos a mudança. Instalamo-nos no lar, nós e o inferno…. Não pudemos ficar juntos. Adormecemos e acordamos juntos durante mais de vinte anos, mas ali fomos impedidos de o fazer… Custou-me tanto e sei que a ti também… Tentei arduamente adaptar-me mas cada dia que passava era pior do que o anterior. Tu choravas angustiada, detestavas aquilo. Entrei em colapso….Tomei a decisão de voltar para casa. Afinal, ainda tínhamos dinheiro suficiente para eu poder cuidar de nós, com ajuda. Para te poder devolver a dignidade que merecias até ao fim da tua vida. Pedi ao meu filho os papéis das nossas contas bancárias, os documentos e tudo que ele havia guardado. Ele evitava atender o telefone, recusava-se a estar comigo. Ficou muito chateado quando lhe comuniquei a nossa decisão de sair do lar… Fui ao banco. Não temos um cêntimo…. A minha nora encarregou-se de deixar as contas a zero, “para ajudar os velhinhos” que nunca viram esse dinheiro… Fui a nossa casa, está vazia…. Segundo os vizinhos, no mesmo dia em que nos deixaram no lar, o meu filho, a sua mulher e as suas filhas, esvaziaram-nos a casa, levando tudo o que lhes interessou. Não temos nada, mulher, nada. Tantas vezes me avisaste. Tantas vezes me pediste que tivesse cuidado, que resguardasse o meu coração, porque o meu filho e a minha nora me iriam magoar sempre que eu deixasse…. Sabes o que me custa mais? Ter deixado que te magoassem a ti também.

 

Estive contigo ainda há pouco. Já não dizes nada, já mal te mexes. A mobilidade que ainda te resta de um braço, permite-te – tentar -  escrever, devagarinho… Disse-me o médico que vais perder o controlo completo do teu corpo, até ficares presa, absolutamente consciente, dentro desse corpo que não te obedece, até ao fim… Não fui capaz de te dizer que não tínhamos um cêntimo nem em que estado estava a nossa casa… não fui capaz de te dizer que sempre tiveste razão… que me amaste de uma forma pura e humana e eu retribuí, falhando contigo tremendamente… Dei-te um beijo e deixei-te a dormir. Andei desnorteado pelas ruas, dei por mim aqui, nesta ponte nova, mais uma que une Gaia ao Porto. Sinto-me um farrapo humano… Já nada me resta e não suporto a ideia de te perder também. Perdoa-me por não ter sido capaz de cuidar de ti como cuidaste de mim, até a saúde te faltar… Brevemente, estaremos juntos, num lugar onde te verei apenas sorrir e ser feliz. Sem dor, sem doença. Espero lá por ti, sou demasiado cobarde para ser o último a partir. Por isso agora, sucumbo. Vou mergulhar no Douro e deixar que a água me leve e lave todos os meus pecados…

 

Alexandra Vaz

 

Porto | PORTUGAL

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