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30
Abr13

O dia em que o Sol se esqueceu de acordar (Violência – 9)

Publicado por Mil Razões...

 

Amaldiçoo o dia em que te conheci. Parecias um parolinho da aldeia, não partias um prato. Até casarmos, a coisa bem foi, mas depois de nascer a Maria parece que foste atingido por um raio e mudaste completamente. Tornaste-te azedo, violento. Eras tão bom cliente da Tasca do Tio João que, ao fim de poucos anos, parecias um barril com pernas. As três miúdas vieram quase de seguida. Na assistência técnica nunca quiseste falhar e televisão via-se pouco. O bruto com quem dormia era suportável até ao dia em que a Maria entrou para a primária. A Clarinha e a Marta eram ainda pequeninas mas a forma como disseste que elas iam ser umas bonitas raparigas e o quanto ansiavas que crescessem um bocadinho, aquilo arrepiou-me a alma…. Nunca te privei do sexo embora a partir daí me custasse mais do que tudo na vida, mas pensei que, talvez se eu nunca te dissesse que não, deixasses de olhar para as miúdas daquela maneira ordinária. Mordia-me toda, fechava os olhos, esperava que aquilo acabasse depressa e saísses de cima de mim, com o teu bafo a bagaço e a tua pele suada.

Um dia cheguei da mercearia da Tia Lurdinhas e encontrei a Clara e a Marta sozinhas na sala. Chamei pela Maria e nada. De repente senti a força falhar-me nas pernas e fui procurá-la no quarto. Quando abri a porta vi-te deitado na cama com a nossa filha. Tinhas despido a Maria da cintura para baixo e tocavas-lhe de forma ordinária. A Maria chorava e pedia-te que parasses. Estavas tão excitado quanto eu estava enojada. Gritei o mais alto que pude, arranquei-te a Maria dos braços e corri para a rua com as três miúdas. Vieste atrás de mim e juraste que, se eu não voltasse e contasse a alguém o que tinha acontecido, matavas as miúdas. Venceu-me o medo e a vergonha e voltámos para casa contigo. Nessa noite deste-me a tareia da minha vida mas não tocaste mais na Maria. Daí em diante nunca mais tive um segundo de paz. Tinha medo da minha própria sombra. Mesmo quando dormias como um porco, eu acordava sobressaltada e com a cabeça cheia de pensamentos terríveis. Durante algum tempo achei que as coisas iam mudar: bebias menos, batias-me em dias alternados e não ligavas às pequenas. No dia em que a Maria fez 7 anos, voltaste à carga. Chegaste a casa bêbedo e afirmaste, alto e bom som, que a primeira vez das nossas filhas seria contigo, não com um qualquer parvalhão. Afirmaste, com um ar convicto, que era o que te competia como pai. Perguntei-te se o paizinho também te havia iniciado a ti. Custou-me quatro costelas fraturadas, o nariz partido, tímpanos perfurados à chapada e mais equimoses do que eu conseguia contar. Apesar disso, nada do que me fizeste me podia doer mais do que o medo pelas minhas filhas. Nada. Eu soube nesse momento que nunca as protegeria daquela coisa que eu lhes havia dado como pai.

No dia seguinte, depois de deixar as meninas na escola, fui à Tia Lurdinhas fazer as compras, como era habitual. Mas, nesse dia, para além da mercearia, trouxe um veneno para ratos. “É para uma ratazana que tenho lá em casa, Ti Lurdinhas”. Fiz a minha rotina como era habitual. Preparei o jantar em silêncio e esperei que chegasses a casa. “Cheira bem, mulher. Põe o jantar na mesa que tenho fome”. E eu pus. Servi-te o melhor jantar da tua vida. Comeste como uma besta e nem tiveste tempo para arrotar no fim. Caíste com a cara no prato, a espumares-te todo. Tive medo que não morresses e percebesses que eu te tinha envenenado a comida. Mas não, estavas morto, mortinho da silva.

 

Fui presa e aqui me encontro a cumprir pena. Perguntou-me o juiz se tinha noção da violência do que havia feito. Tive um ataque de riso tão grande que fui retirada do tribunal em braços; nem tive tempo de lhe dizer que não estava arrependida, que aquele porco não merecia qualquer compaixão. Que só tinha pena de não o ter feito mais cedo e ter poupado a Maria a coisas que nunca mais esquecerá. Disso é que eu me arrependo. As miúdas vivem desde então com a minha irmã e vêm ver-me com frequência. O que me mantém viva é pensar que um dia vou sair daqui, ser feliz com as meninas e esquecer aquela besta que nos fez tanto mal. Dizem-me que aos olhos de Deus pequei, mas eu era capaz de jurar que Deus estava comigo no dia em que pus fim à tua vil existência. Estou-me nas tintas para quem me julga com leviandade. Só Deus me julgará e paz terei se a Maria um dia me perdoar. Nesse dia, pode ser que o Sol volte a nascer nas nossas vidas.

 

Alexandra Vaz


Porto | PORTUGAL

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