15.5.12

 

Nas notícias informam que a minha área (Informática) neste momento não está a sentir tanto a crise, como outras áreas (professores de línguas, história, contabilidade, enfermagem, psicologia, ...), contudo não existe só concorrência com pessoas com as mesmas competências que eu:

  • os empregadores escolhem técnicos com o 12º ano, recém-licenciados para estágios curriculares, IEFP ou profissionais
    • para pagar pouco e obrigá-los a trabalhar com mais exigência, para tentarem fazer o trabalho de um licenciado
    • colocam os colaboradores com mais experiência a orientá-los e a ensinar quase todos os processos de uma tarefa... O colaborador antigo fica assoberbado de trabalho porque além das suas tarefas também tem de orientar outra(s) pesssoa(s)
    • os empregadores que querem otimizar os processos também escolhem pessoas:
      • da área de matemática, matemática para a tecnologia para a otimização de cálculos
      • que a maioria das vezes não compreendem a funcionalidade das plataformas ou o básico de uma linguagem de programação
  • gestores ou economistas para a a gestão de projetos
    • a maioria não sabe a área de negócio, programar tarefas... propondo muitas vezes tempos irrealistas para um tarefa... e o trabalhador desgasta-se a tentar cumprir o exigido
    • quando algo acontece errado, não tenta perceber o processo da tarefa que ocorreu mal ou o porquê e coloca a culpa no colaborador abaixo
  • designers ou arquitetos para o desenvolvimento do site

Muitas vezes percebo a opção de escolher uma pessoa de outra área para enriquecer o projeto, mas a maioria das vezes, os empregadores não pensam:

  • no custo total do projeto ao contratarem pessoas menos qualificadas para a tarefa, pensando só, que de uma maneira ou outra vai ficar realizada. Nem que os novos colaboradores precisem de orientação e isso implica que outro(s) colaborador(es) tenha(m) de dar assistência
  • que 8h diárias é o tempo pago para um dia de trabalho
    • mais do que isso, deixa o trabalhador cansado, precisando de mais tempo para elaborar uma simples tarefa
    • a maioria dos empregadores não paga hora extras, mas sente-se na obrigação de as exigir gratuitamente, em tempo de crise
    • como é que uma pessoa pode tirar um curso para melhorar conhecimentos, se trabalha às vezes 14h a 16h por dia?
    • como é que uma pessoa pode ficar motivada, vendo o salário a baixar e a exigência a aumentar?
    • Por exemplo, a minha hora de saída num trabalho era às 18h e eu costumava sair sempre depois das 18h30 … 20h (habituei-os mal, eu sei) e um dia saí às 18h certas... o patrão veio logo perguntar, "Já vai?", e eu respondi "Sim, não tenho nenhuma tarefa pendente e estou na minha hora".... mas não foi bem visto
    • Também já me aconteceu sair sempre depois do meu horário de trabalho estipulado, e noutra empresa às 20h, o chefe (que chega e sai às horas que lhe apetece) veio perguntar-me "Então, já vai sair?". E eu respondi "Sim, e já vou tarde!"
    • Uma vez já estava a apanhar o transporte público, por volta das 21h, e recebo uma chamada, no meu telemóvel pessoal, a exigir que fosse terminar uma coisa, que não era muito importante, mas tinha sido um pedido de um amigo...

E com estes sacrifícios e ainda mais... fiquei desempregada.

 

Sousa

in Informação relevante


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11.5.12

 

“Estou desempregada. Não é a primeira vez que estou desempregada, mas nunca estive desempregada durante tanto tempo.

O que recebo como subsídio é muito pouco, não chega para pagar as contas do essencial, para sustentar a minha filha. Se não fossem os meus pais, não sei o que seria de nós. Mas atenção: eu não quero viver de subsídios! Quero é ter emprego, trabalhar e ganhar para viver, para vivermos. Por isso procuro emprego sem dar tréguas. Não reconheço grande valor ao facto de ter demasiado tempo para estar com a família e com os amigos e comigo mesma. Ter tempo para viver a minha vida é uma obrigação que devo cumprir todos os dias, não uma oportunidade para os tempos de menor ocupação. O trabalho desenvolve, dá dignidade, valoriza. Para mim, estar desempregada é mau!

Hoje em dia não é fácil procurar emprego, desde logo por rarearem as oportunidades, mas o pior é a forma como o desempregado é tratado quando procura emprego, quando luta pela vida, pela sobrevivência. É uma humilhação permanente, quase total. Desde o centro de emprego, onde é obrigado a ir com frequência e onde desperdiça imenso tempo em longas filas, até à atitude sobranceira, arrogante e despótica, de alguns empregadores ou dos seus agentes. O desempregado é tratado, por alguns, como se tivesse uma doença contagiosa. Curiosa é a natureza humana… Quando mais precisamos, quando a situação de todos nós é mais difícil, recebemos hostilidade dos nossos pares quando têm de nos encarar, reagindo assim, certamente, por medo de um dia estarem no lugar do mais fraco, neste caso, no lugar do desempregado. Rejeitam o outro, o que está onde eles têm medo de vir a estar.

Fico revoltada com aquelas pessoas que, nestes tempos difíceis, em cima da desgraça de tantas pessoas, vêm dizer que, se estou desempregada, a culpa é minha, por não ser pró-ativa nem inventar forma de, através do marketing e da estratégia, provar aos empregadores que o meu produto “eu trabalhador” é muito melhor que o mesmo produto de todos os meus companheiros de sala-de-espera. Peço desculpa, mas a culpa não é minha – eu esforço-me e luto e não dou tréguas, mas não consigo trabalho, só consigo ser humilhada enquanto perco dignidade! Bom emprego arranjaram essas pessoas…

Os nossos governantes recomendam que emigremos. E as pessoas alinham nessa ideia, desinvestem do país, desprezam Portugal, como se tudo fosse fácil lá fora. Eu não quero emigrar e sinto-me no direito de continuar no meu país, de querer viver aqui, de querer trabalhar e produzir para que seja uma terra digna, boa e desejada para viver. Por isso, enquanto não fecharem Portugal, terão de me aturar por aqui.”

 

Fernando Couto

 

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8.5.12

 

Os últimos dados apontam para 15,3% da população ativa portuguesa em situação de desemprego. São obviamente dados concretos e que fazem os títulos de qualquer matutino ou telejornal. Simpatizo também com a preocupação demonstrada pelo Sr. Presidente da República em relação aos valores de desemprego jovem que contribuem para o valor global acima referido. Mas o que esta estatística não expressa, é a eterna esperança e a falta dela, assim como a revolta que se vê nos rostos de quem desespera numa fila à porta de um qualquer centro de emprego deste país. Após duas horas de espera lá se consegue aceder à máquina e tirar o ticket para aguardar mais outro tanto! Estive lá, passei por isso no início deste ano… ouvi estórias de gente em situação bem complicada. Foram anos de malparado, com fatura bem pesada! Mas desde esse dia, atualizei e enviei CV e, dos cerca de vinte, recebi resposta de duas empresas, agradecendo pelo contacto e que contribui para a sua base de dados. Não é surpreendente tendo em conta o cenário atual. Apesar de licenciatura e, do garante que isso significava em finais dos anos 90 e inícios deste século, Portugal mudou, e curso superior em vez de facilitador, parece tornar-se cada vez mais num entrave para se voltar à vida profissional.

No momento em que escrevo este texto não consigo ainda comungar da mesma desesperança que constatei no centro de emprego onde estou inscrito, talvez porque, após sensivelmente seis anos da mesma empresa, precisava de mudar e, como não tinha força para o fazer apesar de sentir que o devia, tive de ser empurrado. Não foi um choque mas acredito que para muitos o seja. Acatei essa decisão e não a questionei – tomei-a como uma oportunidade! Para passar mais tempo em casa e poder ver o miúdo crescer, respirar outros ares; essencialmente, colocar as ideias sobre a mesa e objetivar… Devo acrescentar que tenho direito a um fundo de desemprego que ronda o salário mínimo e que ainda me permite fazer o que fiz nestes últimos meses: um curso de formação de formadores, e planos para um outro – assim como encetar contactos para dar formação.

A palavra que falta aqui mencionar é controlo! Do meu tempo, do tempo disponível para quem me está mais próximo e tempo para fazer o que gosto e que ficou tudo em pausa quando aceitei um emprego em que não tinha horas e que constantemente constituiu uma invasão de privacidade, pois estava primeiro do qualquer outra coisa; todo o resto ficou meio perdido, a vida pessoal, o facto de não poder combinar nada com amigos, que se foram naturalmente distanciando… - ora estava em trabalho, ora de prevenção. Se foi divertido num dado momento, deixou de o ser no entretanto e já nos últimos meses do ano passado tinha-se transformado num fardo.

Tendo em conta o que escrevi, vejo o desemprego, melhor, o meu desemprego como uma oportunidade única de voltar a pôr a vida nos eixos e aculturar-me, através de cursos e contacto com pessoas diferentes do meio onde exerci atividade nestes últimos anos, assim como reativar laços e poder passar tempo com família e amigos. Pelo menos, tenho tempo para tal. Portanto só positividade neste tópico. Falamos daqui por ano?

 

Manuel Fernandes (articulista convidado)


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4.5.12

 

Kasl, Rodriguez, e Lasch (1998), numa revisão de estudos sobre as implicações do desemprego, tiram conclusões que parecem óbvias mas que muitas vezes esquecemos. Assim, o desemprego acompanha-se de um aumento de morbilidade por doença física, como úlceras, artrite, doenças do aparelho respiratório, cardiovascular, da visão, audição, dores de cabeça e dos dentes. Há um aumento dos riscos biológicos, proporcional ao tempo da situação de desemprego.

O desemprego tem também um impacto negativo sobre a saúde mental e no bem-estar do indivíduo. Os sintomas depressivos são os que se encontram mais frequentemente associados a esta situação social. As consequências na saúde mental do indivíduo parecem ser menores nas áreas rurais do que nas urbanas. Da mesma maneira, parece que quando estamos perante uma situação em que há privação primária (falta de alimentos, roupa) o impacto na saúde é mais grave do que quando estamos perante uma situação de privação secundária (férias, carro, …).

Há uma taxa de mortalidade associada ao desemprego, 20% a 30% superior à que se verifica para a população em geral, considerando as diferenças relacionadas com a idade e o estatuto socioeconómico.

 

Habitualmente esquecemo-nos que, nós que temos emprego, estamos numa situação privilegiada e eventualmente focamo-nos em pequenos “detalhes” que nos desmotivam.

 

Não nos referimos, é claro, a questões muito graves de por exemplo mobbing, que podemos numa explicação simples dizer que se trata de abuso/perseguição emocional no local de trabalho.

 

Terminemos de uma forma menos séria lembrando a origem da palavra trabalho - Tripalium. Vem do latim e era um instrumento que consistia em três paus fixados no chão em forma de pirâmide, no qual os agricultores batiam o trigo e as espigas de milho. Os romanos transformaram o tripalium num instrumento para torturar os escravos e os camponeses que não conseguiam pagar os impostos. Com o passar do tempo, a palavra passa a ser associada a realizar atividades com um certo grau de esforço. Curioso é que nessa época, o “trabalhador” era o carrasco que torturava os camponeses. Ao contrário, hoje em dia, os “torturados” somos nós, que nos matamos diariamente a trabalhar frente ao “todo-poderoso” que muitas vezes não tem a nossa nacionalidade e encontra-se a milhares de quilómetros de distância do nosso posto de trabalho. Enfim, inerências das TIC e da WWW.

 

Ana Teixeira

 

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1.5.12

 

Era uma vez a mesma lengalenga de sempre! “Isto está mau! É a crise!”. Expressões atrás de expressões, de um povo que nunca se endireita! E chegamos agora a níveis de desemprego escandalosos.

Para uns, o desemprego pode ser uma rampa de lançamento para o risco de sonhar com novas fronteiras, quebrando barreiras existentes até então e criando novas oportunidades. Para outros um submergir na nuvem do subsídio, que “do mal o menos” vai entrando, “por direito, claro está(!)”, mas que em vez de ser ponte, é subterfúgio. Outros há, e tantos, que não têm a mesma sorte, e só imagino o desespero das vozes internas perante as faturas que se atropelam na caixa do correio, as bocas sentadas à volta da mesa que de inocência clamam o comer, tantas vezes presos a doenças, e o silêncio de lágrimas escondidas, num “oh meu Deus que vai ser da nossa vida?”, que tantas vezes tumultuam a alma com pensamentos tenebrosos, viciantes e fraturantes do Ser.

O desemprego tem muitas caras, a pior será sempre a do desespero. Desespero, muitas vezes, partilhado no emprego. No “emprego” de quem trabalha, amarrado à obrigação e à falta de opção. Num emprego mal empregue, povoado de exigências absurdas, exploradoras, sufocantes. Empregados assediados, cansados, esgotados e desesperados com tanto stress, e sem alternativa à vista, que sucumbem, também por vezes, aos gritos do desespero.

Aflige-me que nesta coisa do empregado e do desempregado, a distribuição seja como a riqueza. Tanta competência por empregar, quando tantos postos estão empregues, e mal empregues, a muitos que não querem laborar e lá estão a usufruir da cadeira, que o pobre do competente pedincha de porta em porta. Empregados abandonados à frustração de fazer o que a vocação não lhes pede, deslocados para trabalhos da pseudo-salvação. Aflige-me que tantos se resignem a esta condição, e tantos outros dessem tudo por essa própria condição. Aflige-me a voz de um país com tanto emprego mal empregue e tanto bem feitor por empregar!

 

Cecília Pinto


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27.4.12
 

Tememos o cancro, o enfarto de miocárdio, o acidente vascular cerebral, a escorregadela na casca de banana, os acidentes de viação, o atropelamento e fuga. Tememos pela segurança dos filhos, dos pais, dos amigos, pela exposição virtual, pela inevitabilidade da morte; tememos por antecipação e sofremos em réplicas sucessivas e massacrantes. Receamos uma série de inimigos. E como se já fossem poucos, juntamos-lhes mais um, com nome cínico e pomposo: desemprego (leia-se: desterro, dor, dúvida, desespero, drama).

Todos os dias ouvimos e lemos notícias a esse respeito. Todos os dias há alguém cuja vida se altera drasticamente pela perda do “ganha-pão”. Nos últimos tempos, em reuniões de amigos ou de família, tornou-se o assunto em cima da mesa. Há uma atração mórbida pelos temas nefastos. Há sempre alguém que conhece alguém, que conhece alguém, que está desempregado. Há sempre uma família que perde o seu chão em face do desemprego de um (ou mais) dos seus membros. Vive-se um estado de insegurança que aumentará exponencialmente. Não parece haver esperança suficiente que nos valha, o aconchego da mentira não existe em doses homeopatas.

O fantasma do desemprego materializa-se, entra pelas frestas da alma, e instala-se na vida de todos os dias, virando-a do avesso. Sofre o desempregado, a família do desempregado, os amigos do desempregado, os que temem vir a estar desempregados. Tememos todos o inimigo de colarinho negro e ar sisudo que ceifa qualquer um de nós, sem piedade. Uns matam-se, outros bebem, deprimem e/ou drogam-se, porém, outros ainda, veem nessa mudança imposta a oportunidade de começar de novo. De renascer das cinzas e descobrir novos caminhos.

No fim de tudo, da busca, do medo, da dúvida, emerge a ironia máxima das coisas: não interessa o que nos acontece na vida mas sim a forma como reagimos aos acontecimentos. Como os sentimos, pensamos, digerimos. É essa tríade – cognição, pensamento, ação – que pode mudar o dia de amanhã. Em doses suaves ou em golfadas repentinas.

 

Alexandra Vaz


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24.4.12

 

Não poderiam ler o que de seguida se apresenta sem a preciosa colaboração de um caro amigo, a quem agradeço profundamente o tempo despendido na partilha do que é, no fundo, a sua vida presente e futuro imediato.

 

1. Há quanto tempo estás desempregado?

1 ano e 6 meses.

 

2. Qual é a tua área de formação profissional?

Design de Comunicação.

 

3. Quantos anos tens de experiência na tua área de formação?

9 anos.

 

4. Tens obtido resposta às candidaturas que apresentas?

Ao longo de todo este tempo respondi a dezenas de ofertas de emprego, (na prática a todas as ofertas de emprego que encontrei na minha área de formação e na minha área de residência, tendo também respondidos a algumas ofertas que me obrigariam a deslocalizar), tendo obtido muito poucas respostas. Na maior parte dos casos não obtive sequer resposta, numa dezena de ocasiões recebi um muito obrigado pela candidatura não tendo no entanto sido selecionado para entrevista e em três (isso mesmo, apenas três) situações fui selecionado para uma entrevista, não tendo no entanto sido colocado.

 

5. Tens procurado como solução para o desemprego um trabalho fora do âmbito da tua formação?

Inicialmente tal situação não me passou sequer pela cabeça, porque mantenho o desejo legítimo de continuar a trabalhar na minha área de formação. No entanto nestes últimos meses comecei a procurar trabalho noutras áreas que não a minha, o que não é fácil sobretudo para um licenciado que sempre trabalhou na sua área.

 

6. O que sentes relativamente aos apoios que são concedidos no desemprego?

No meu caso particular o apoio na prática é igual a zero. Ao longo do meu percurso profissional trabalhei em três empresas e também como freelancer. Na empresa onde trabalhei mais tempo (por sinal um gigante nacional líder de mercado em tudo o que produz), trabalhei como Designer como qualquer outro colaborador daquela empresa, mas... a RECIBOS VERDES! Conclusão: como desempregado nunca me foi concedido o subsídio de desemprego, tendo apenas adquirido o direito a receber o subsídio social de desemprego (cujo cálculo se baseia numa percentagem do salário mínimo nacional e não numa percentagem do meu vencimento).

 

7. Os teus sentimentos em relação à situação que vives têm-se alterado com o decorrer do tempo?

Imenso. Sem me querer alongar, quando acabei a faculdade nunca imaginei que nove anos depois a minha situação profissional fosse esta. Como profissional qualificado que sou, estar desempregado há mais de um ano é uma enorme frustração e uma mistura de desalento e revolta, sentimentos muito negativos para com o que o futuro me reserva.

 

8. Até que ponto achas que o reverter da situação está dependente de ti?

Falando da minha área em particular (que é a que conheço), neste momento são “sete cães a um osso”, querendo isto dizer que a procura é muito maior que a oferta. Sei que sou um bom profissional, mas por sermos tantos à procura do mesmo, sei que não é fácil primar pela diferença. Tenho consciência que neste momento a cada oferta de emprego a que respondo, respondem mais cem (se não forem mais). Admito que poderia ser mais empreendedor e por exemplo tentar criar a minha própria empresa, mas a verdade é que não poderia escolher pior momento para o fazer... O país encontra-se num estado lastimável e como facilmente se compreende, a haver cortes de investimento, os primeiros são direcionados precisamente para a minha área, a área da comunicação e imagem.

 

9. Já consideraste procurar emprego fora do país?

Já. No entanto para quem sempre acreditou que poderia trilhar o seu percurso profissional no seu país e para quem gosta do sítio onde nasceu e onde por sinal já comprou casa, tudo se complica...

 

10. De que forma ocupas o teu tempo livre e quais as diferenças nesta gestão, desde o momento em que ficaste desempregado?

Um ano e meio é mesmo muito tempo! O tempo livre é tanto que a verdade é que eu deixei de ver o tempo como antes o via. Os minutos que uma hora tem passaram a ter outro significado de tempo... É óbvio que todos os dias dedico uma parte desse tempo na procura ativa de emprego e de vez em quando lá faço um ou outro trabalho como freelancer. Todo o restante tempo dou-o pura e simplesmente como perdido...

 

11. De que forma o desemprego alterou a tua vivência familiar?

A única coisa de positivo que poderei dizer no que a isto diz respeito, é que apenas para o meu cão a minha situação profissional é algo de fantástico que lhe permite passar quase todos os momentos de um dia com o seu dono...

 

12. Achas que o desemprego alterou de alguma forma a tua personalidade?

Todos os dias...

 

13. A tua situação de desemprego, em conjunto com a situação global em Portugal, redefiniram a tua visão do país e das suas políticas internas?

Pura e simplesmente deixei de acreditar num país de que me orgulhava...

 

14. Que expetativas tens do futuro próximo?

Portugal, é o que os portugueses são... Todos somos culpados (ainda que uns bem mais do que outros)! A minha expetativa é a de que os portugueses com valor e com valores ganhem o futuro aos outros... E então tudo será melhor!

 

Rui Duarte e M.

 

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20.4.12

 

O despertador toca… Esse é o início normal de mais um dia de trabalho… Está tão frio! E com os olhos ainda meio fechados retorna onde tudo começou…

Leonor acabara o seu curso superior e o primeiro emprego tardava em chegar… Talvez por não saber procurar, talvez por não procurar nos lugares certos, ou até porque tudo até então tinha sido tão fácil que não estava habituada a ter que fazer pela vida.

A primeira oportunidade surgiu, não perfeita e não como sonhara, mas não disse que não. Fazia 50 km para ir, 50 km para voltar e apenas recebia subsídio de alimentação. “Melhores dias virão”, acreditava Leonor. E sendo a melhor profissional que podia, deu sempre tudo por tudo para demonstrar o seu valor.

O seu trabalho era, principalmente, procurar pessoas para trabalhar. Empresas contactavam-na com ofertas de emprego e ela tinha que responder a esses pedidos encontrando perfis adequados à função. Rapidamente percebeu que o ideal “Pessoa certa para a função certa”, na maioria dos casos era utópico. Depois de 15 ou 20 chamadas, o desespero aumentava... “Mas será que ninguém quer trabalhar?” E as desculpas choviam e variavam… O maior inimigo do trabalho: o subsídio de desemprego… “Raios, mas será que o governo não vê que está a deseducar essa gente?”…

Passados 3 contratos Leonor efetivou. “Afinal o bom profissionalismo compensa!”

A luta diária é a mesma: fazer com que as pessoas queiram trabalhar.

Leonor ainda acredita que melhores dias virão… sempre e para todos aqueles que querem e aceitam trabalhar.

 

Ana Lua

 

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17.4.12

 

Poderemos dizer que estar desempregado é muito mau, mas se pensarmos bem, tem mais vantagens do que desvantagens! Sim, ao escrever isto também me soa a brincadeira... Porém, o que vivo hoje não é brincadeira, mas sim um desemprego que só o é porque recebo o subsídio de desemprego, porque entro nas estatísticas dos milhares de desempregados, porque tenho muitas horas vagas para fazer muita coisa que não seja ir para um emprego com horário pré-estabelecido.

Desde Agosto de 2010 estou desempregada, de facto por opção, mas também porque a vida assim o desenhou. Antes de o ser pensava “Como poderei sobreviver dia a dia sem ter o que fazer, acordar sem objetivos diários como ir para o local de trabalho e desempenhar as funções que alguém espera de mim?”, ou seja, “como ficar acordada se não serei útil para ninguém durante um dia inteiro?” O problema era só esse e não o dinheiro, pois quem trabalha o suficiente para ter direito ao subsídio de desemprego, tem problemas maiores com o desemprego do que meros euros no final do mês, principalmente depois de uma década a trabalhar naquilo que se gosta.

Foram esses problemas que me deixaram a pensar o que seria de mim... Até que me lembrei dos tempos em que procurava o primeiro emprego, quando tudo era um campo novo por explorar, quando a adolescência dava lugar à juventude e o mundo era “meu”. Peguei nesse espírito e imaginei algo que gostaria mesmo de fazer. Era agora ou nunca! E foi!

Sem compromissos com instituições a nível de presença física, apenas com compromissos financeiros e pessoais que podiam ser adaptados, parti para outro país numa missão humanitária. Se não fosse quando estava desempregada, quando poderia ser? Até ir, continuei a fazer a procura mensal de emprego, obrigatória por lei, mesmo sabendo que passado alguns meses iria partir. Como as coisas acontecem quando menos esperamos, foram algumas as respostas positivas à candidatura e, por ironia do destino, tive que recusar, pois uma nova missão esperava por mim.

Fui para África e voltei, recomeçando desde o primeiro dia a procura de emprego, desta vez, mais a sério, sem ser apenas por obrigação legal. Claro está que as respostas positivas escassearam, ou então eram propostas não compensatórias face ao subsídio. A velha história “Mais vale ficar em casa quieta e não gastar do que pagar para trabalhar.” Isto é muito inteligente financeiramente mas não psicologicamente. Qual a solução para fazer face a este conflito, viável financeira, pessoal, profissional e psicologicamente? É aqui que vejo a grande vantagem do desemprego: temos muito tempo para pensar e refletir. Depois de muitos dias a inventar o que fazer, parei e fiquei realmente desempregada.

Finalmente acordei, já com objetivos traçados e, por surpresa, chegaram também as respostas positivas a candidaturas de emprego, tendo até a possibilidade de ser desempregada a part-time. Trabalhar a part-time, no que gosto de fazer e para o qual estudei, e ainda continuar a ser subsidiada como desempregada, na legalidade.

Hoje, já com 1 ano e 8 meses de desemprego, percebo que isso não passa de um rótulo, pois o nosso estado de espírito comanda as nossas ações e se continuarmos a mexer, a pensar, a inventar, a traçar objetivos, estamos sempre com a mente empregue em alguma coisa muito nossa, que não depende de subsídios ou patrões. E, melhor ainda, ao optar pelo não pacifismo, não sei que força é ativada, mas as respostas positivas a candidaturas de emprego e a projetos por nós pensados começam a surgir, e o desemprego deixa de ser a palavra certa para nos caraterizar.

 

Sónia Abrantes (articulista convidada)


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13.4.12

 

Sentado à sua frente, numa posição descontraída e ligeiramente inclinado para ela, escuta-a e encoraja-a a falar. Ela vai ganhando confiança. Talvez seja desta...

Desde que se licenciou que a sua prioridade tem sido arranjar emprego. O seu dia começa cedo, consulta os anúncios de emprego nos jornais, navega pelas bolsas de emprego na Internet, envia o curriculum, vai a entrevistas. Começou por selecionar as ofertas dentro da sua área de formação, rapidamente se deixou de ideologias - o emprego já não é um meio para o seu desenvolvimento pessoal e profissional, é muito mais do que isso, é a única forma de sobrevivência. Percebeu que tem mais hipóteses se for a todas.

Preparou esta entrevista ao pormenor. Seguiu à risca as “dicas” do guia sobre como arranjar emprego. Apresenta-se de vestido azul, para inspirar confiança e seriedade. Senta-se muito direita na ponta da cadeira. Controla o ímpeto de falar muito e depressa, termina as frases numa entoação correta.

Sim, desta vez está a correr bem. O entrevistador parece impressionado. Mostra interesse em saber mais sobre ela. O interesse dele não a intimida; vai ganhando mais confiança. Exibe o diploma da licenciatura, os certificados das pós-graduação, fala da facilidade com que se adapta à mudança, do gosto pelas novas tecnologias, da sua ambição. Sim, desta vez vai pintar.

 

Não deu pelo tempo passar. Olhou o relógio já sentada no pequeno café em frente ao edifício que acabara de deixar e onde entra para se refazer da frustração que a invade. Mais uma hora perdida. Tempo é coisa que não lhe falta. Não é a sensação de tempo perdido que está a destruí-la por dentro. O que lhe dói, é que não sirva para aquele emprego por ser demasiado qualificada. Já foi rejeitada por tudo e por nada, nunca a tinham rejeitado por ser demasiado boa para o lugar.

 

O café está vazio, ninguém para testemunhar a sua frustração. O empregado encostado ao balcão não repara nela, a notícia que passa na televisão chama-lhe a atenção, põe o som mais alto, o locutor anuncia: Na Grécia, um homem de 50 anos, desempregado, suicidou-se em frente ao parlamento...

Paga a água que bebeu e sai para a rua. Não sabe que direção tomar, a notícia que acabou de ouvir bate dentro da sua cabeça. Está desorientada...

 

Cidália Carvalho


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10.4.12

 

Procurar gatos pretos em quartos pretos onde não há gatos pretos… E encontrá-los!

 

Uma palestra de Miguel Gonçalves em Braga, no TEDx Youth@Braga, em 19 de Novembro de 2011.

 

Meia hora de pura inspiração…

 

 

Joel Cunha


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6.4.12

 

Desde que escolhi artes cênicas sempre teve alguém para me dizer: Mas quando vai arranjar um emprego?

Eu trabalhava em produção teatral, mas isso para os outros não era emprego. Dedicava meus dias e minhas noites, não tinha fins-de-semana, mas ninguém acreditava que isso era um meio de vida.

O que é emprego? Um lugar onde se trabalha e se ganha para isso. Gosto da parte de ganhar, como todo mundo, mas quero mais do que um emprego. Quero ser feliz, quero me realizar neste planeta.

E logo me dizem, mas quando acabar a peça você vai ficar desempregada! É verdade. Mas isso poderia acontecer com qualquer um.

Os tempos mudaram, os empregos também. Hoje exigem mais e dão menos. A vida é mais cara, a cidade mais longe, o custo das coisas triplicou. Temos mais coisas que comprar e por isso parece tudo mais difícil. No meio de tanta crise pessoas aceitam todo o tipo de emprego, as empresas sabem e exploram isso.

Emprego ideal não existe. Na produção de teatro ganhava pouco e não havia plano de carreira nem direitos trabalhistas. Mas eu era feliz, gostava de fazer aquilo. Tive que procurar outros meios, já que não fui educada para ser feliz, mas sim para ter um bom emprego e jamais ficar desempregada. Meu avô sonhava em me ver trabalhando em um banco, ou pelo menos alguma de suas netas. Todas tiveram asas grandes. Foram para a cozinha, pintura, teatro, profissões conhecidas por não serem empregos fixos.

Apesar de tudo reconheço que meu avô tinha uma certa razão. Até para ser feliz precisamos de um pouco de paz, coisa essa que o dinheiro e a estabilidade trazem.

Mas emprego e desemprego não definem a vida de ninguém, são coisas que temos na vida, perdemos e logo recomeçamos. Somos mais do que um trabalho remunerado, nossa passagem no planeta é maior do que isso e podemos ir além.

No meio da crise mundial todos sabemos da importância de ter um bom emprego, principalmente aqueles que são chefes de família. Mas não existe meios de saber que tão estável é nosso emprego, então melhor ficar nele sem pensar muito, caso a corda arrebente, bom, começamos do zero novamente. É outro dia, outra oportunidade de melhorar, nunca sabemos quando será nosso dia de sorte. Mas ele chega, e chega mais rápido se esperamos ele com alegria e certeza que um dia estamos bem, mas podemos estar melhor, e perder o emprego não significa morrer, é apenas ter que recomeçar. Mas não é isso que fazemos todos os dias?

 

Iara De Dupont (articulista convidada)

 

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3.4.12

 

Passamos muitas horas do nosso dia no trabalho e são essas horas que sustentam todas as restantes da nossa vida. São horas de atividade, de produção, frequentemente de ansiedade e de pressão, por vezes também de alegria e de conquista, em alguns casos de desespero e até de histeria. São horas longas ou curtas para mostrarmos o que valemos, somos valorizados (ou não) por aquilo que fazemos, se somos pontuais, assíduos, empenhados, respeitadores dos códigos impostos, se desempenhamos bem as nossas funções e de preferência mais alguma coisa. Os desafios nas tarefas e nas relações profissionais, ao ritmo das quais os jogos de cintura se vão sucedendo, obrigam-nos cada dia a estar mais atentos. Ter como qualidade o dom de adivinhar é certamente uma mais-valia muito útil para saber de antemão qual será o humor do chefe, antecipar que o colega se vai esquecer de fazer aquilo que pedimos, ou perceber que o nosso interlocutor afinal não entendeu nada daquilo que acabámos de dizer, apesar de querer parecer o contrário. Sucedem-se por e-mail as expressões “com muita urgência” ou “p. f. leia esta informação com a maior atenção” que de tão gastas se apagam no olhar do nosso leitor. Os incontornáveis “a.s.a.p.” (*) e “f.y.i.” (**) lembram-nos que não podemos perder tempo com pormenores supérfluos, porquê escrever tudo quando a mensagem já passou? Existe igualmente a expressão, não tanto usada por escrito: “isto não é comigo” que taxativamente significa: “não sei se houve asneira, mas se por ventura houve, não fui eu que fiz! E na eventualidade de haver no futuro, também não terei sido eu!”. Essas horas desafiam os mais elevados graus de paciência quando temos que repetir dez vezes a mesma informação à mesma pessoa que, para manter a postura, faz aquele ar de quem está a ouvir tudo pela primeira vez. Nestas alturas respiramos fundo e, das duas uma: ou nos visualizamos a dar uma valente tareia a esta personagem que está à nossa frente (o que poderá suscitar em nós uma certa vontade de rir que nem sempre será bem interpretada pelo outro lado); ou resolvemos acenar lentamente com a cabeça com o ar pensativo de quem acabou de fazer uma grande revelação ao mundo. E continuamos a desempenhar as nossas tarefas, às vezes melhor outras pior, como sabemos, como podemos, como nos deixam.


No final do dia, com o sentimento de um comprido dever cumprido não percebemos por que razão nos parece termos sido atropelados por um camião, quando nem sequer saímos da cadeira. Ficamos tão moídos pelas longas horas que pensamos então no euromilhões que temos absolutamente de registar. Apesar de tudo, sabemos que são estas horas que, felizmente, sustentam todas as restantes horas da nossa vida.

 

Estefânia Sousa

 

(*) - as soon as possible

(**) - for your information

 

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30.3.12

 

Elisabete, Elis para a família, nasceu há quarenta e cinco anos numa aldeia alentejana. Filha única de um coronel do exército, foi educada com muitos cuidados e carinhos pelos pais, pelos avós e pelas tias, irmãs de seu pai, todas solteiras. O monte, com os seus muitos hectares, onde em criança começou a descobrir o mundo, chegou até à sua posse por herança, a partir dos pais de sua mãe. Mas do monte se afastou ao ir para Lisboa, para estudar, para casar, para viver o dia-a-dia, até hoje. E sempre ao monte voltou, pelas tias, pela terra, pela aldeia, por se sentir parte integrante de tudo aquilo, por querer continuar, sempre, a ser dali, vivendo o compromisso de cuidar de tudo aquilo que recebeu.

 

Em Lisboa as coisas não lhe correram tão bem como desejou, como sonhou. Do casamento sobra-lhe uma criatura com o título de marido, odiado, que Elis quer ver e sentir como um estranho que a maltrata, que teima em continuar ali em casa, ao pé dela, a cuidar de tudo, sempre a viver à conta dela. O ódio invade Elis. Sobra-lhe também a descendência: três filhos, os dois mais velhos fora de casa, esforçando-se para ignorar Elis, o mais novo ainda em casa, à espera da sua oportunidade para imitar os irmãos e distanciar-se. Onde errou? Os cuidados de Elis e o seu amor pelos moços, lavrado em medos, em ansiedades e em inúmeras horas sem dormir, estão agora convertidos em silêncios, em fugas, em distância e alheamento, para Elis agravados pela proximidade ao pai, pela cumplicidade com ele. O ciúme invade Elis.

 

Elis sofre por viver assim, sofre por viver com um homem do qual já nem tem memória de gostar, sofre por não conseguir aproximar-se dos filhos e não entender porquê. Já lhe falaram em mudar de vida, em separação, em divórcio, em procurar os filhos mas vendo-os e respeitando-os como adultos, procurando redescobri-los. Mas nada disto tem sentido para Elis. Elis precisa de sentir que tem o comando, que é respeitada, incontestada e adorada como era em criança, tratada como uma princesa, no seu principado intocável, do qual não abdica.

 

Tomada pelo ódio e pelo ciúme, presa num passado que não mais se repetirá, está disposta a sofrer para além dos limites. Recusa-se a mudar. Mudança é palavra que não existe no seu dicionário.

 

Fernando Couto

 

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27.3.12

 

Começo pelo final: estou feliz. Demorei a chegar aqui, tive estádios intermédios, tive momentos muito, muito maus. Mas hoje, agora, estou feliz. E este foi o caminho que percorri…

 

Desde que terminei o meu curso superior trabalhei sempre na mesma área: comunicação, marketing, publicidade. Em onze anos de vida profissional estive desempregada três semanas. Andei por várias agências de comunicação até que, há seis anos, cheguei à agência onde trabalho. Quando comecei a trabalhar aqui era uma miúda solteira, sem filhos e sem responsabilidades de maior. Tinha tempo, estava cheia de vontade de aprender, de trabalhar e de evoluir. Dois anos depois engravidei e tive uma filha. Deixei de ser responsável apenas por mim para passar a ser responsável por uma bebé e por uma famíliaem formação. Aprendia multiplicar minutos e a fazer esticar as horas. Continuei a trabalhar como sempre, a fazer viagens ao estrangeiro (a trabalho), a levar trabalho para casa. Continuei a adorar o que faço e a empresa onde trabalho.

 

Mas trabalho num mercado que foi muito afetado pela crise e a empresa começou a ressentir-se disso. Entretanto tive mais um filho e, durante a licença de maternidade, aprendi a costurar: comecei a fazer peças, a vendê-las e a ter muitas, muitas encomendas. Quando regressei ao trabalho senti que precisava de mais estabilidade financeira e fui à procura dela. Encontrei outro emprego muito rapidamente. Mudei de empresa mas não de funções (continuei a fazer o mesmo que fazia antes, num universo completamente diferente). Correu pessimamente: encontrei um ambiente de trabalho péssimo, uma filosofia empresarial carnívora e não gostei do que vi. Não me adaptei, andei tristíssima durante o tempo que lá estive. Mas como acredito que quem está mal muda-se, saí desta nova empresa ao fim de apenas 15 dias de trabalho. Falei com os meus ex-patrões e voltei à empresa, mas num regime diferente: teletrabalho, em part-time. Ganho muito menos dinheiro, mas trabalhoem casa. Não tenho horários, não tenho que gastar horas em trajetos e trabalho no sítio mais confortável do mundo.

 

Mas não é fácil. Obriga a muita disciplina e força de vontade porque as solicitações extra-trabalho são imensas. Tenho que ser extremamente organizada para conseguir chegar a todo o lado e fazer tudo o que me proponho fazer. Mas é ótimo poder estar onde quero, ser dona do meu tempo e fazer as coisas ao meu ritmo. Tem um lado mau: a solidão que por vezes se instala, mas que é fácil de combater com uma pausa para café.

 

Portanto, passei de uma vida com muita correria para estar em muitos sítios, para uma vida de muita correria para conseguir fazer tudo o que quero. Deixei de trabalhar só para terceiros e passei a ter um negócio meu, com tudo o que isso implica. O saldo é claramente positivo: sinto-me realizada enquanto mãe, mulher e profissional. E isso é tudo o que posso querer!

 

Marianne (articulista convidada)

 

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23.3.12

 

Há muitos aspetos associados ao desenvolvimento e à mudança durante a infância, adolescência e idade adulta. A quem devemos atribuir responsabilidades? À natureza ou ao ambiente? Apesar da grande variabilidade individual, das circunstâncias ambientais e das realizações pessoais, as questões fundamentais parecem mover-se sempre em torno dos

fatores BioPsicoSocial e Espiritual.


De fato a adaptação, a mudança e o desenvolvimento verificam-se ao longo da vida e, de modo algum para quando atingimos a idade adulta.

 

Prossigamos agora com um exercício bastante conhecido. Independentemente da sua idade imagine-se daqui a dez anos. Terá a sua vida progredido? Terá atingido os seus objetivos? Qual será o estado do seu corpo e como se sentirá dentro dele? Onde estará a viver e com quem? Será que as suas capacidades cognitivas e laborais terão melhorado ou ter-se-ão “lentificado”? E financeiramente qual será a sua situação? Como estarão a ser ocupados os seus tempos livres? Ter-se-á adaptado a novas responsabilidades, por exemplo no trabalho ou em casa? Perspetiva mudanças ao nível de como os outros o percecionam ou tratam? Como se sentirá emocionalmente? Terá ainda consigo todos aqueles que ama?  

 

Se ao refletirmos nas mudanças em dez anos já parece ser um exercício algo difícil imagine-se daqui por 20 ou 30 anos.


Mas até que ponto é que as mudanças ao longo da vida se devem a modificações intrínsecas, fundamentais no organismo, a acumulação de experiências em ambientes complexos, ou a pressões sociais e comunitárias? Será que as mudanças são contínuas e graduais, ou são marcadas por etapas principais?

 

Parece claro e evidente que quando pensamos no nosso próprio futuro a mudança aparece de forma inevitável.

 

O percurso da sua vida é organizado e planeado, e será que segue esse plano de forma intrépida, ou vê-o como aberto às decisões de outros, ou à mercê do acaso? Anseia pela mudança, pela maturidade inerente à idade, ou essa perspetiva causa-lhe ansiedade e assusta-o? E, finalmente, será que considera estes aspetos importantes o suficiente para delinear, agora, alguns objetivos de vida?

 

Ana Teixeira

 

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20.3.12

 

O céu parecia-lhe diferente enquanto olhava pela janela num misto de tristeza e emoção. Era, contudo, diferente aquele céu, aquelas gentes, aquelas árvores.

Pela casa soavam as passadas apressadas de uma criança que descobre em cada recanto de um novo lar, a magia de um esconderijo.

- Ó mãe, já viste lá fora?! – Gritava.

- Há vaquinhas lá ao fundo!

Era uma aventura para aquela criança urbana, a quietude do campo. Sua mãe trazia um rosto carregado, de quem traz às costas, ao peito, à cabeça, no coração, um enorme baú de emoções reprimidas, memórias insanas, toda uma vida arrastada por correntes aos pés. Porém, naquele novo céu, que lhe parecia maior, porque prédios não o emolduravam mais, sentiu que poderia haver alguma esperança.

- Filha, vem ajudar a mãe a arrumar as malas – pediu.

 

Assentaram que nem uma luva na casa nova que as acolhera. A criança descobria todos os dias uma nova coisa que a Natureza tinha para lhe mostrar. Descobria também que o dia-a-dia, tinha mais calmaria, mais risos, gargalhadas, menos confusões naquele sítio.

A mãe acordava por vezes sobressaltada à noite, por um ruído. Havia tantos novos ruídos. Ruídos diferentes, porém. Ao início custava-lhe a adormecer. O baú das memórias assustava-a. Sabia que não estava desamparada, não estava só. Tinha gente por perto. Gente boa. Mas aquelas memórias enfiavam-se-lhe nos sonhos. Malditas!

- Maldito! – Pensou, enquanto rangia os dentes.

Recordava tantas vezes o dia em que decidira não mais voltar. Não voltar mais àquela vida de dor, sofrimento, vergonha. Vida de medo. Tinha sido precisa tanta coragem para deixar tudo para trás. Todos. Todas as suas coisas.

- Que vida injusta, Senhor. Eu! Eu é que tenho de mudar!!?? Nada fiz de mal, e aqui estou eu refugiada de todo o meu mundo de outrora – revoltava-se.

Perdera tanto. Mas não perdera a vida, tantas vezes ameaçada, nem perdera a filha, que sentia mais feliz.

- Desgraçado! – Sussurrava por entre lágrimas. E ainda pensei, que mudarias! – Pensou para si.

 

Os dias foram passando debaixo do céu novo. Os ruídos tornaram-se naturais, já não assustavam.

A criança brincava na erva, debaixo do castanheiro, como se sempre tivesse sido ali a sua casa.

Brincava com os seus amigos imaginários, podia ser tudo o que quisesse!

Viu a mãe a aproximar-se, chamou-a, para ao pé de si e disse:

- Mamã, quando for grande vou ser bonita como tu! E vou ter um namorado! – Exclamou!

- Ah, sim? – Retorquiu a mãe.

- Sim! Vai ser bonito também! – Apressou-se a afirmar.

- E que mais? – Espicaçou a mãe.

- Não vai ser como o pai – disse a criança enquanto passava os olhos pela relva verdejante.

A mãe sorriu, sem conseguir disfarçar a lágrima que se evadia.

 

Cecília Pinto

 

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16.3.12

 

Já ninguém quer apostar na continuidade. A palavra de ordem é mudar, mudar a todo o custo. Nem nos perguntamos se estamos bem como estamos, o que conta é que já estamos assim há demasiado tempo e está na altura de mudar.

Mudamos de guarda-roupa em cada estação, mudamos o corte de cabelo, mudamos de namorado, mudamos de casa, de carro, de ginásio e de dieta. Mudamos de governo, de emprego e de amigos do café. Mudamos de perfume e de gel de banho. Mudamos de supermercado e de lugar de estacionamento. Se pudéssemos, mudávamos também de família, por algum tempo que fosse, apenas para ver que diferente seria.

Mudamos de operador de telemóvel, mudamos a marca de detergente para a máquina, tentamos o descafeinado para logo voltar ao café. Não estamos bem, precisamos de mudar. Mudamos tudo, menos nós próprios. Nós continuamos exactamente iguais, na procura incessante da mudança.

Só não mudamos de planeta, porque ainda não possuímos a tecnologia. Mas em contrapartida mudámos o planeta e agora queremos mudá-lo de novo.

A sorte é que a lua vai mudando de fase e a primavera vai sucedendo ao inverno. Mas seria talvez mais divertido se pudéssemos mudar a alternância das estações do ano. Pôr o inverno logo a seguir ao verão, sem passar pelo outono.

“Já há muito tempo que não chove”, lamentam-se alguns. “Já chove há três dias. Já ninguém aguenta a chuva.”

Já ninguém aguenta nada. Já não nos aguentamos a nós próprios.

 

Teresa Moura (articulista convidada)

 

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13.3.12

 

Não ando bem. As últimas notícias que recebi trazem-me uma apreensão tal que me desgasta. Nestas últimas catorze noites durmo, promiscuamente, com duas companhias pesadas e negativas: o medo e a ansiedade. Combato-as todas as manhãs, e durante o dia, quase nem as sinto por perto mas, assim que me deito, sinto-as aninharem-se em mim e perturbarem-me irremediavelmente o sono. Será que há um limite de influência negativa que posso sofrer? Quero pensar com clareza, lembrar-me onde guardei o escafandro antes da submersão total mas, não dormir, não tem ajudado nadinha. Afasto-me daqueles que amo para não os afetar com esta negatividade que se abateu sobre mim, não consigo suportar a tristeza nos seus olhos, o ar aflito. Choro muito, mais do que pensava poder chorar. Canso-me de mim própria e deste meu estado depressivo, não me reconheço neste semblante sempre molhado. Evito as perguntas diretas, evito o sorriso que me penetre a alma e a desnude. Perguntam-me, “Como estás?”. Se tudo corre bem, a pergunta assume um caráter retórico e, quem mo perguntou, não fica tempo suficiente para que eu responda. Respiro de alívio e sigo o meu caminho. Mas outras vezes, quem pergunta quer realmente saber como estou. Respondo, regra geral, “estou bem”. Dizer que não estou, significaria explicar porquê e não me apetece nada desfiar o rosário das minhas lamentações. Não posso fazê-lo sem sucumbir às lágrimas e, nesse processo, sentir-me a coisinha mais frágil do mundo.

Ontem, um dia de sombra velada na alma, fui visitada por dois primos que têm sido amigos na jornada da vida. Não há barreiras na transparência da amizade genuína. Não há filtro que me permita fingir o que não sinto. Chorei, falei um pouco, baixei a guarda. Ousei mostrar-me como estava. Inevitavelmente, pela manifestação incomum de sofrimento, quem professa uma determinada fé, tende a evangelizar-nos. A minha irritabilidade apoquentou-me, desejei o silêncio da minha toca, o lamber das minhas feridas, o escuro da alma em devaneio. Falaram-me de Deus, disseram-me o quanto eu precisava dele e eu, retorcendo as mãos, lá fui dizendo que vivo com Ele diariamente. Que vejo Deus nas pequenas coisas de todos os dias, que vivo se calhar de uma forma mais cristã que muitos auto-proclamados cristão que eu conheço. Não me vinculo a nenhuma religião mas o meu espírito vive bem consciente da alma que é. Disse isto, disse aquilo, fui dizendo umas coisas. Todavia, sentia a pressão, o “Vem, estás mesmo a precisar… Médico? Não precisas de médico nenhum… precisas é de ouvir a palavra do Senhor. Acreditas em milagres?”. E tal e tal. Aproveitei o “Claro que não se deve coagir ninguém a…” para ruminar um “Concordo. Eu, por exemplo, não gosto de ser coagida a nada. Não gosto mesmo, fico doida. Reajo muito mal…” Mau? Muito mau mesmo… Quase tão mau como ter-me apetecido levantar, virar as costas e desandar. Quando me preparava para amotinar o meu corpo, dei-me conta de que há mais de um ano que os meus primos não tinham um dia livre. Um dia, uma tarde, uma manhã, nada. Um momento, sem a mãe para tratar, num processo de senilidade progressiva, sem o pai para lavar, a vida para gerir, na presença constante da doença e da preocupação. No entanto, no primeiro momento livre que tiveram, vieram ver-me. Foi em mim que pensaram para essa tarde. Imediatamente, senti-me serenar. A tensão, que me encrespava o corpo e a alma, deu lugar a uma calma que me transcendeu. Deixei de me sentir claustrofóbica e irritada. Senti-me tão estupidamente envergonhada quanto agradecida por alguém gostar tanto de mim a ponto de partilhar comigo o melhor de si: a sua força, a sua fé, o seu sorriso, o seu abraço. Abri a minha mão cerrada, cheia de raiva contida, e deixei-a ser tocada. Chorei muito, um choro sem defesas, daqueles que lavam a alma e nos fazem levitar. Aquele pensamento, soprado por um qualquer vento de mudança, trouxe-nos a todos uma paz indescritível. E, no fim, não fui obrigada a nada. Ninguém me bateu nem levou de rastos por uma qualquer igreja redentora adentro. Ficou o convite e o desejo de que eu, um dia, quisesse visitar a sua igreja. Sem grilhões, sem obrigações. Ficou o abraço dado com amor, a alma com mais cor, a amizade mais cúmplice.

Pensar antes de agir, salvou-me da estupidez egoísta que nenhum estado depressivo deveria ostentar e que nos leva a ferir, sem piedade, quem connosco se preocupa: os que nos amam. Os que amamos. Afinal, eu não estava certa, apenas cega pela minha própria dor. Abrir-me aos outros lembrou-me que o mundo não gira em torno do meu umbigo e que não parará jamais para eu carpir as minhas mágoas. Mas também me lembrou que não caminho sozinha, que não tenho sempre de ser forte, que devo estender a mão quando preciso com a mesma facilidade com que o faço com quem precisa. Na verdade, não quero uma mão cheia de nada. Adoro o calor de outra mão na minha.

 

Alexandra Vaz

 

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9.3.12

 

Mudança é a palavra de ordem.

Muda-se por tudo e por coisa nenhuma; muda-se porque se quer, porque se pode, porque a isso se obrigam ou nos obrigam, muda-se para ser diferente, muda-se não se sabe bem porquê, muda-se porque sim. As alterações sucedem-se a um ritmo tal que ponho em causa a capacidade de nos adaptarmos a tanta novidade. Ainda mal o nosso cérebro processou um novo software e eis que nos lançam novos desafios, novos cursos de formação para outros mais avançados. 

Nas empresas, o modo como se fazia deixou de ser, passa a fazer-se de forma diferente, muitas vezes formas já anteriormente experimentadas, mas que importa? Importante mesmo, é mudar. Os ativos humanos, como agora se chamam às pessoas nas empresas, são avaliados por esta capacidade de adaptação à mudança.

Mudam-se os hábitos. O que se come, o que se veste, o que se diz e como se diz, os gestos, as entoações, tudo entra ou sai de moda.

A necessidade de mudança está tão presente que se muda o que naturalmente o tempo vai mudando. Em nome de um pretenso bem-estar, da busca do belo e do perfeito, e reivindicando o direito a isso, contraria-se o efeito que o passar dos anos impõe aos nossos corpos. Num frente-a-frente, a vontade de mudar e a não aceitação da pessoa tal como é, quase sempre a primeira leva a melhor. Parte-se então, para uma nova fase da vida. Hoje, põe-se aqui, tira-se ali, corta-se o excesso, amanhã poderá ter de ser o contrário, a moda o dirá. É estonteante!

É minha convicção que muitas mudanças se processam longe do que entendo ser a verdadeira identidade humana, e não são mais do que formas de cada um procurar o seu verdadeiro “eu”.

Também sinto necessidade de mudar, mas estou longe de conseguir a mudança que procuro. É uma mudança lenta que precisa de tempo para se processar. Esforço-me para que a vida, a minha vida, chegue e sirva o meu objetivo de mudança. Como digo, estou longe de conseguir mas sinto-me a mudar e quero chegar ao ponto de não confundir o meu semelhante com os atos que ele pratica, não o valorizando pelo que tem ou faz, mas respeitando-o e amando-o por, simplesmente, ser pessoa.

O tempo dirá se, com este entendimento, não serei também eu uma peça descartável por estar fora de moda...

 

Cidália Carvalho

 

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