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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

22
Jan18

A vida é (quase sempre) bela (Beleza – 8)

Publicado por Mil Razões...

Girl - Alexandr Ivanov.jpg

Foto: Girl - Alexandr Ivanov

 

A seguir ao almoço, Jorge anunciou uma surpresa: um vídeo de família que tinha deixado a gravar em casa.

- Vou lá num instante buscá-lo!! – disse, saindo à pressa, enquanto o resto da família se espreguiçava no sofá após a lauta refeição.

O “num instante” arrastou-se por mais de 40 minutos e Sofia, impaciente, resolveu ligar para o marido a saber o que se passava. “Tirlili-tirlili”, ouviu-se na prateleira do móvel da sala.

- O totó esqueceu-se do telemóvel! – exclamou Sofia num tom que misturava condescendência e irritação.

A D. Emília prontificou-se imediatamente a ir levar o telemóvel ao filho, o que causou um alarido de comentários: “Claro que não!”; “Que ideia!”. Mas é assim, a D. Emília, sempre disposta a dar a volta ao mundo para satisfazer os filhos, mesmo que às vezes ultrapassasse a barreira do aceitável e do normal.

 

Dez minutos volvidos e Jorge entrou esbaforido pela porta, um sorriso de orelha a orelha, com o DVD na mão. De volta do leitor de DVD do pai, o sorriso foi dando lugar a alguns sopros de impaciência e a frustração instalou-se quando se concluiu que não havia compatibilidade entre o ultrapassado aparelho e o recente LCD adquirido pelos patriarcas. Só que Jorge não se deu por vencido e, apesar de o tentarem demover, saiu novamente rumo a casa e regressou, desta vez rapidamente, com o portátil debaixo do braço e um cabo USB, não fosse o diabo tecê-las.

E foi assim que, finalmente, todos se reuniram pelo sofá e cadeiras em torno da televisão para assistirem ao vídeo que, afinal era uma apresentação de fotografias intitulada “A vida é bela, por Jorge Ribeiro”. À medida que as imagens iam passando, o grupo ia lançando comentários, risinhos, exclamações que traduziam a lembrança de um acontecimento passado. Naquelas fotografias, só momentos felizes de Jorge, Sofia e dos filhos, Miguel e Patrícia: férias, aniversários, passeios. Durante mais de 20 minutos, passaram pelos seus olhos todas aquelas imagens, algumas de anos já muito passados, uma espécie de história de família. E, no entanto, ali não aparecia a depressão do Miguel, da qual estava a recuperar quase a 100%, mas na qual estivera mergulhado no último ano e meio. E tão pouco as imagens deixaram transparecer a traição de Sofia que quase provocou a separação dela e de Jorge, ou a tentativa de suicídio que daí adviera. O “vídeo” apenas focava os bons momentos, como uma espécie de balanço de uma vida quase sempre bela.

 

No fim, todos bateram palmas. D. Emília chorava (de alegria?), emocionada. Só a pequena Luana não aparentava grande satisfação; a sobrinha de Jorge não conseguia compreender porque aparecia tão pouco naquelas fotografias. Todos se riram e explicaram-lhe que era por ser a benjamim da família; não podia, por isso, ter um grande historial de fotos de família. O que ninguém lhe disse (mas talvez tenham pensado) foi que os acontecimentos passados destruíram o convívio e os laços que haviam existido entre todos e que, apesar da alegria que ali parecia reinar, havia uma barreira erguida entre Jorge, Sofia e os filhos, face à restante família – de ressentimento, mágoa, remorso, egoísmo – que haviam reduzido os encontros ao mínimo indispensável.

Mas hoje estavam ali. E sorriam. Como uma família feliz.

 

Sandrapep

 

19
Jan18

Fecha os olhos (Beleza – 7)

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Pretty - Deedee86.jpg

Foto: Pretty - Deedee86

 

O primeiro conceito que me ocorre é o de luz, brilho. Só com boa iluminação, conseguimos, naturalmente, ver. Só vendo, apreciamos.

Assim, por exemplo, não sabemos, não conhecemos, olhando a partir daqui do pedaço, como é o outro lado da lua, o lado não iluminado. E sim, parece-me que está certo, com luz vejo, com luz aprecio.

Mas não chega, completando. Não é apenas o que entra pelos olhos dentro, quase como que se impondo, que eu consigo apreciar. Então, se quiser e for caso de passar de uma (mera?) primeira impressão, vou além de ver e junto-lhe o sentir, algo de interior que, na realidade, não se vê, [mais do que ver, sei, sinto; talvez careça de mais tempo, disponibilidade, do que uma rápida vista de olhos proporciona, não desfazendo no conceito de “primeira impressão”] que está no interior, que não tem luz. Aliás quando sou alagado, emocionado, arrepiado por algo de belo, e o belo pode ser qualquer coisa de imenso, incomensurável, é natural que eu feche os olhos. Para perceber, sentir melhor. Interiorizar.

 

A luz dá-me imagens, permite-me compreensão, para além de mil palavras, mas a beleza, mesmo que só física, e pode ser muito mais que isso, percebo-a, ilumina-me completamente se fechar os olhos e tentar contê-la, apoderando-me dela, assim, dentro de mim. Extraordinário, maravilhoso, como a mais pequena coisa, gesto, dito, ato - muito pequena mesmo, (quase) impercetível, para quem (es)tiver com menos disposição, sensibilidade - pode ser imensa, envolver-nos, encher-nos, quase a ponto de não nos contermos e transbordarmos, tornar-nos maiores!

A vida pode ser bela.

 

Jorge Saraiva

 

15
Jan18

O belo na tela de fundo negro (Beleza – 6)

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Joy - Erge.jpg

Foto: Joy - Erge

 

Mariam Vattalil era feliz a trabalhar com os pobres e oprimidos de Indore, na Índia. Vertia essa felicidade num sorriso fácil, do tamanho do mundo e à medida de cada um. A irmã Sorriso, assim era conhecida, balsamizava a dor dos sofridos, ajudava os desfavorecidos e integrava os expulsos da sociedade que ninguém queria. Chegavam-lhe desvalidos, vítimas da calhordice de seres abjetos que roubavam a dignidade aos pequenos agricultores, despojando-os das terras e obrigando-os a trabalhar no que já fora deles, a troco de salários vergonhosos.

Às vítimas, instava-as a lutar, aos dominadores, tentava sensibilizar. Ensinava aos pobres métodos agrícolas mais modernos de  forma a rentabilizarem o esforço despendido. Mostrava-lhes as vantagens de saber ler e escrever, e sensibilizava-os para que enviassem os filhos à escola. Com as mulheres promovia grupos de autoajuda, transmitia-lhes noções básicas de educação, saúde e higiene. Incentivava-as a constituir pequenas poupanças, criar e gerir micronegócios. Mariam Vattalil era o rosto da esperança que faltava naquele ambiente de miséria.

 

Aos oprimidos não lhes é reconhecido o direito a ter esperança – se lhes fossem reconhecidos direitos não eram oprimidos – e a esperança deles era um perigo para a ordem instituída e para a paz podre que a sustentava, por isso, a comunidade Hindu e os proprietários locais que enriqueciam com a pobreza dos desfavorecidos, sentiam-se ameaçados. Primeiro tentaram convencer a jovem a deixar o lugar e a deixar de intervir, mas ela, determinada a cumprir a missão para a qual sentia que tinha sido escolhida, não obedeceu e continuou a fazer o seu trabalho junto dos mais necessitados. Convencidos de que não conseguiriam demovê-la, resolveram encomendar a morte de Vattalil. Samunder Singh aceitou fazer o serviço. Muniu-se de uma faca e, no autocarro em que Vattalil viajava para Indore, desferiu-lhe 54 facadas roubando-lhe a vida. Samunder foi julgado e a sentença ditou prisão perpétua.

 

Um horror difícil de descrever, muito pouco consentâneo com o tema proposto – beleza. Mas se o horror está presente nesta história, também é nele que a bondade do ser humano foi mestra e pincelou um quadro de rara beleza.

Samunder, depois de preso, foi abandonado por todos. A família, envergonhada, não quis saber dele e os que lhe encomendaram a morte de Vattalil, esqueceram-no. A privação de liberdade não o reeducou, transformou-se num ser vingativo, vivia atormentado com um único pensamento: fazer justiça pelas próprias mãos sobre aqueles que o enganaram e abandonaram.

Um dia, inesperadamente uma irmã da vítima Vattalil, visitou-o na prisão. Estava dada a primeira pincelada de bondade na negritude de uma tela que haveria de concluir-se colorida e de uma beleza impressionante. Com uma simples mas imensurável frase, o horror foi-se esbatendo. Frente a frente com o carrasco da irmã, ela abraçou-o e chamou-lhe irmão. A ação da família que tinha perdido um dos seus, de forma tão bárbara e violenta, não se ficou por esse gesto e continuou a surpreender-nos. Moveram influências, fizeram pedidos e conseguiram que a sentença fosse reduzida para onze anos.

 

Quando cumpriu a pena e foi libertado, Samunder procurou-os para agradecer tudo o que fizeram por ele. E com este gesto a tela ganhou novos tons, sobre ela caiu o vermelho sangue, diluído em lágrimas de uma mãe em sofrimento, mas ainda assim, com a grandeza que a individualizou, beijou as mãos do assassino porque sobre elas estava o sangue da sua filha.

Numa cerimónia recente dedicada a Vattalil, ele lá estava, na primeira fila, para a homenagear; mas a mais bela e reconhecida homenagem que ele lhe presta, ainda hoje, é a continuidade do trabalho que ela começou junto dos desfavorecidos de Indore.

Vidas que me inspiram e me aproximam desta tela colorida onde, em traço muito incerto, é certo, lanço o verde da esperança na humanidade.

 

Cidália Carvalho

 

12
Jan18

Sentido da vida (Beleza – 5)

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Foto: Old-people - Claudia Peters

 

Neste mundo tão materialista e consumista em que vivemos, tudo parece gravitar na órbita do desejo de beleza, reduzida esta unicamente à sua natureza estética e orientada apenas para uma realidade virtual e superficial que nos absorve e que só alegra os olhos e muito raramente o coração. Dir-se-ia que, para alguns, é esse o desejo que inspira o sentido da vida. Será assim? Não, seguramente!

 

A beleza não pode ter esse efeito tão redutor da vida. Sabemos quanto ela motiva e entusiasma tanta gente ligada às artes e à literatura como grande fonte de inspiração que é, sem a qual jamais a arte seria concebível sequer. Contudo, mesmo para lá da beleza natural que nos rodeia: do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas, há uma outra beleza mais profunda, mais verdadeira, mais generosa, que muitas vezes é invisível ou está escondida. Trata-se da beleza interior que deve existir em cada um de nós, a única que não precisa de maquiagem e permanece incólume toda a vida, ao invés da exterior e “fabricada” que se esvai com o tempo. Revelada essa beleza interior, ela pode ser o esplendor da verdade, da generosidade e do humanismo sublime, constituindo um autêntico manancial de virtudes por desvendar. É essa sublimada beleza, de glória e de virtudes, que deve ser procurada. Devemos pensá-la assim mesmo, como uma necessidade e como princípio orientador de educação, de fraternidade, de solidariedade e de alegria.

 

Saber trabalhar e cultivar a beleza interior pode ser o começo para suportar e aceitar com naturalidade o fim da beleza exterior, para mais tarde, no auge da velhice, se sentir feliz e realizado. É assim que, percorrendo esse caminho de virtudes, a vida tem sentido.   

 

José Azevedo

 

08
Jan18

És o meu amor... (Beleza – 4)

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Foto: Hand - Sabine van Erp

 

Um evento crítico leva-o ao hospital com 89 anos, faltavam uns dias para os 90. Regressa a casa na madrugada do dia seguinte. Apresenta, agora, limitações que o deixam com alguma dependência para o autocuidado. Durante algum tempo tenta-se de tudo para manter todo o conforto que merece e a que tem direito. Todos os dias corre-se para junto dele.

Um desses dias parece mais prostrado e refere uma dor. A ideia era levá-lo novamente ao hospital (e foi o que aconteceu). Numa aproximação muito terna, uma filha aproxima-se dele e pergunta-lhe: quem sou eu? Ele responde: és o meu amor! Haverá algo mais belo que esta resposta?

O amor pelos pais e pelos filhos é indescritível e reflete momentos que transmitem uma grande ternura carregada de beleza profunda. São estes momentos que ficam para toda a vida e que tornam esse amor eternamente belo.

 

Ermelinda Macedo

 

05
Jan18

Em cada esquina (Beleza – 3)

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Foto: Altoadige - Giampaolo Mastro

 

Ela está em cada esquina, sempre pronta a ser contemplada, nós é que parecemos não ver. Está no sorriso de cada criança. Em todos os dias, à hora em que o sol nasce e à hora em que se põe. Existe apenas porque é bela, não para nos alegrar. É, por isso, egoísta. Não se esconde, porque gosta de partilhar com todos o que tem de melhor. É, por isso, generosa. Nós é que teimamos em olhar apenas para a frente, para aquilo que pensamos ser importante, sem dar relevância aos pequenos detalhes que tornam tudo mais belo.

 

Sim, a vida pode ser bela se olharmos com atenção, mesmo que tudo pareça negro. Há quem goste do negro... Transmite calma e serenidade, reflexão e introspeção. Há quem goste de cores, muitas cores, que parecem saltar de alegria. A beleza é assim, aparece quando queremos, desaparece quando não a queremos ver. Por vezes não é fácil comandar a nossa vontade para onde deveria ir, mas é possível. Basta deixarmos que os nossos olhos vejam beleza em alguma coisa. Basta... Mas continua a não ser fácil. Então, resta-nos acreditar que sim e nessa fé também poderemos encontrá-la, a beleza das coisas.

 

Sónia Abrantes

 

03
Jan18

A verdade no humor (Beleza - 2)

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Femininity - Parda Leone.jpg

Foto: Femininity - Parda Leone

 

Dizem que as pessoas do litoral são feias.

E porquê? Porque a beleza está no interior.

 

Uma pequena graça que contém parte da verdade. Não, não é que as pessoas do litoral sejam feias, longe disso, mas sim que a essência da beleza reside no interior de cada um de nós, evidenciando-se à sua maneira. Ela transparece por meio de um sorriso, um gesto afável, uma palavra carinhosa. Parte do âmago da alma e da pureza que nela reside, iluminando os demais em seu redor.

Ainda assim, nesses atos e evidências, o corpo não é descurado. A aparência assume uma importância inegável em vários campos da vida, mas como a palavra o denuncia, não é nela que está contida a verdade. E a verdade é que do litoral ao interior, de norte a sul, todos temos a nossa própria beleza. Parta ela donde parta, está e estará sempre presente, com os seus contornos característicos.

 

Sara Silva

 

01
Jan18

A mão (Beleza – 1)

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Italy - Jacques Savoye.jpg

Foto: Italy - Jacques Savoye

 

A última vez em que me deparei com uma beleza cujo impacto me fez parar e ver, foi num museu. O museu, esse espaço onde ninguém lá mora mas em que guardamos a superação de um qualquer viver humano, permite-me passear pelos temas, cores e texturas de modo lúdico, sendo as regras do jogo: “Vê lá se me prendes.”, ou “O que tens tu para me mostrar hoje?”.

À minha espera, encontrava-se a “Pietà”, de Michelangelo – réplica – numa exposição de Madonnas (iconografia da Virgem Maria como Mãe), numa sala mais ou menos escura, como se o visitante mais incauto levasse o seu tempo a chegar lá e pudesse ser também surpreendido pela sua presença, numa atmosfera mais intimista. Imensa gente, ler a legenda, fazer tempo e sentar. Acerquei-me do banco em frente, quase a pedir desculpa aos séculos por só agora ter chegado ao pé dela e aguardar. Pelo quê, não sabia bem e deixei-me ficar.

 

As primeiras impressões, dizem-nos, levam cerca de 7 segundos a aparecerem, se nos atrai ou se nos afasta. Gostei logo da imensidão da estátua, a sua alvura quase intocável e a sua dimensão que dizia “Eu vim cá para me mostrar!”, sem pudor nem modéstia. E o que me mostrava ela? O que me tocava? No toque, as mãos que percorrem e experimentam são muito importantes. No passe-bem e nas palmadas nas costas. Estas mãos traziam o seu filho, uma mão que o prendia para sempre. A outra mão que se estendia para o céu ou para nós, para um qualquer benemérito que pudesse deixar lá qualquer coisa, essa outra mão pedia-me algo. Nem palavras, nem som, nem nada podia ser dado a essa mão a não ser toda a atenção.

A beleza nesta obra surgiu-me do impacto dos seus contrastes: uma estátua disforme e o desespero de uma figura materna, pequena para tão imensa injustiça; a sua fisicalidade imponente para o silêncio tão íntimo que o grito mudo nos pede, ali a ecoar para sempre. A surpresa do encontro naquela hora tardia trouxe-me o mais belo e o mais terrível. Conversarmos com o nosso belo e com o nosso terrível leva tempo e muitas pautas até se harmonizarem os temperos. Já só queria ficar ali, a conversar com a estátua. Agora, sabia-o bem, iriamos ser amigas e confidentes para sempre.

 

Podemos encontrar a beleza em pequenas e grandes imagens e, naquele momento, a exposição ou prostração da sua vulnerabilidade foi de uma dádiva infinda. Na obra que para mim se tornou bela, senti algo próximo do que aquela mão afinal me pedia e eu nem pressentia o que tinha para dar: um caminho para a redenção.

 

Maria João Enes

 

29
Dez17

Cérebro: 2% do peso corporal (Mistérios – 15)

Publicado por Mil Razões...

Nerves - Gerd Altmann.jpg

Foto: Nerves - Gerd Altmann

 

O cérebro humano, também denominado por córtex cerebral, constitui a maior porção do encéfalo (parte do sistema nervoso que está contido no crânio) e pesa cerca de 1,300 kg. É aqui que encontramos os centros nervosos que regulam as atividades sensoriais (olfato, visão, audição, gosto...), motoras (movimentos dos olhos, expressões faciais, movimentos dos ombros...), bem como as atividades intelectuais (memória, inteligência...). Este é um dos mais complexos, desafiantes e misteriosos órgãos humanos para toda a Comunidade Científica e até mesmo Humanidade!!!

 

Eis três, dos inúmeros, misteriosos exemplos, que nos fazem tocar, levemente, na complexidade da dinâmica que o cérebro representa e na sua extrema importância para fazer de nós, aquilo que somos:

 

- Personalidade: podemos definir muito resumidamente a personalidade como um conjunto individual de pensar, agir e sentir que definem a nossa identidade como pessoa. Atualmente, e embora a Ciência já tenha descoberto que certas zonas específicas do nosso cérebro estão relacionadas com funções físicas particulares, a localização da personalidade continua a ser um mistério, quer seja considerada globalmente ou mesmo no seus diferentes traços e/ou funções;

 

- Consciência: este é um tema de inúmeras discussões quanto à sua definição. Uma das questões mais fortemente debatidas é se a consciência humana representa, ou não, um atributo não-científico e inatingível que transcende o conhecimento científico. Categorizando assim o “cérebro” como algo quantitativo e mensurável pela Ciência e a “mente” como uma entidade distinta de componente qualitativa.

 

- Sem descanso: apesar de todos as noites dormirmos, independentemente da qualidade do nosso sono, a verdade é que o nosso cérebro nunca descansa. Pelo contrário, os cientistas descobriram que o nosso cérebro fervilha de atividade durante o sono. O modo como o cérebro funciona durante o sono permanece ainda um mistério, apesar dos cientistas terem já descoberto os cinco estágios de evolução do mesmo.

 

Miriam Pacheco

 

25
Dez17

Ó xenti, Dona Milu (Mistérios – 14)

Publicado por Mil Razões...

Dream - 366308.jpg

Foto: Dream - 366308

 

Há uns anos atrás, nem eu gosto de pensar quantos, a nossa televisão e, naquele tempo, a nossa vida foram invadidas por uma telenovela épica, de seu nome Tieta. Épica porque, como na altura (pasmem-se!) passava apenas uma novela de cada vez, todas as atenções estavam voltadas para o desenrolar daquela história passada na cidade fictícia de Santana do Agreste, sobre a exuberante Tieta. Para além da protagonista e de todas as outras personagens marcantes pela beleza e pelo desempenho, nessa trama existia uma personagem muito engraçada e carismática chamada Dona Milú (interpretação de Miriam Pires), que juntamente com a sua filha Carmosina, abria as cartas chegadas para os habitantes da cidade, com a ajuda do bico da chaleira da água a ferver. Esta personagem tinha uma expressão deliciosa, que ficou na lembrança de muita gente: olhava fixa para o ecrã e dizia “Mistéeeerio”. Só de recordar essa expressão, sorrio. De entre aventuras e desventuras, havia dois grandes mistérios a resolver na história, o que será que Perpétua (irmã de Tieta) guardava tão carinhosamente numa caixa, e quem seria a “Mulher de Branco”, que atacava os homens na calada da noite? Como seria de esperar, esses mistérios foram arrastados até ao fim da história: descobriu-se quem era mulher de branco, uma respeitável senhora da sociedade santanense, diga-se, e quanto à famosa caixa, nunca foi revelado ao público o que continha, mas ficou no ar uma divertida hipótese do que seria (para quem não viu esta novela: diz-se que o que estava guardado na caixa seria o órgão genital do falecido marido...).

 

Tal como nesta história da Tieta, na vida existem mistérios maus e mistérios bons. Os mistérios maus são acontecimentos ruins e catastróficos que nunca foram resolvidos: assassinatos, desaparecimentos de pessoas, quedas de aviões, navios naufragados… Não gosto mesmo nada! Arrepiam-me e incomodam-me. Por isso, gosto de séries e filmes policiais e de investigação, porque invariavelmente no final se dissolve o mistério e quando isso não acontece num episódio significa que a história continua no próximo. E quem nunca se deliciou com o traquejo de Hercule Poirot, com o seu sotaque francês e métodos sui generis, ou com a fabulosa Miss Fisher?

Mistérios bons, para mim, são aqueles que não têm uma explicação lógica e que por isso são tão interessantes e encantadores. Haverá delícia melhor do que o mistério chamado Amor? Qual a ciência ou razão lógica que aproxima duas pessoas, dois corpos? Como é possível que duas pessoas saibam através de um olhar que estão destinadas uma para a outra? Sente-se, pronto! É essa a beleza do amor e de todos os sentimentos que nos comprazem.

 

E refletindo sobre o mistério da vida… Como será que tudo começou realmente? Adão e Eva, ou desenvolvimento de espécies? Será que me interessa realmente essa reflexão? Nem por isso… estou cá, nasci, cresci, vivo. Quem fala do mistério da vida, fala dos mistérios de Deus. Será que é apenas uma ideia que o Homem foi desenhando à sua imagem? Será que os eventos narrados na Bíblia aconteceram mesmo? O Mar Vermelho abriu-se mesmo para Moisés? Jesus multiplicou mesmo os peixes? Transformou mesmo a água em vinho nas bodas de Canaã? Ou será que, no fim das contas, tudo não passa de uma mistura de eventos e conveniências por parte dos líderes religiosos? E no fundo, para que me interessa essa explicação lógica, essa certeza, se me sinto em paz e acolhida, parte de algo, quando assisto a uma missa com os meus padres de eleição, quando entro numa Igreja e aprecio as imagens dos santos, quando olho com carinho para o meu São José? São mistérios que aprecio e me alimentam a alma. Dizem os entendidos que são mistérios da Fé.

 

Para além destes mistérios, bons e maus que abordo e exemplifico, gosto muito, mas mesmo muito daqueles mistérios que nos permitem dar largas à imaginação: cá, entre nós, o que será que estava realmente guardado naquela caixa de papelão da viúva Perpétua? Mistéeeerio!!!

 

Ana Bessa Martins

 

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