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Mil Razões...

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

O quotidiano e a nossa saúde emocional e mental.

23
Fev18

Querida Maria (Abandono – 3)

Publicado por Mil Razões...

 

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Foto: Attractive - Pexels

 

“Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

a luz, a glória e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

e nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação.

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.”

Sophia de Mello Breyner

 

Espero que estejas bem. Sei que da última vez que te vi estavas um pouco fugidia e distante, parecia que me evitavas ou que não te sentias bem ao pé de mim. Achei-te com o cabelo em desalinho, olhar a vagar no fragor do horizonte, por dentro.

Acho que me disseste que tinhas ficado desiludida com alguém importante. Que essa falta estava marcada em ti, como se falássemos do recorte a tracejado das vítimas de séries de crime. Devia ser mesmo importante esse alguém, nunca mais disseste palavra sobre ele.

As marcas do que já passou ainda doem? Como passas os teus dias?

Ajuda partilhar com quem escute as lágrimas do sentimento ressequido e os gritos, sem interromper. Acho que a dor não se compraz com anúncios de dez em dez minutos, ainda que tenhamos de esperar, por vezes, por quem nos ouve com muito colo.

E a zanga Maria, o que é feito dela? Sei da tristeza que fica um tempo, ali sem nada, a hipnotizar-te. A rejeição também mas e a zanga? Ah sei, é fazer exercício físico, focar no trabalho e carregar no acelerador do carro. Mas sabes Maria, se vires da zanga manda-lhe um beijinho, gosto de a ver, mesmo quando ela é incómoda porque ela pá, ela sabe de coisas que nem eu nem tu desconfiamos.

Bem, esta carta já vai confusa mas era para te dizer que se precisares de alguma coisa diz, nem que seja ir tomar café ou ir para a fila das finanças.

Queria dizer-te que és importante para mim. Para tudo o resto, respiremos.

 

Maria João Enes

 

19
Fev18

Órfãos da humanidade (Abandono – 2)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Homeless - Leroy Skalstad

 

Do momento de luz ao expoente da criação, tornamo-nos corpo, mas também alma. Agregamos experiências, lições, erros, histórias, gostos e desagrados, na edificação de um “Eu” distinto. E é nessa passagem do tempo que alicerçamos as nossas raízes. Prendemo-nos ao meio que nos envolve, ao conforto construído, ao que e a quem nos faz bem.

Se as fundações se abalam, é o ser inteiro que ampara o golpe, carregando as marcas e as feridas pelo longo e turbulento caminho que se estenderá.

Assim é o desígnio dos espíritos jovens abandonados pela sorte. Dos que crescem nas ruas, sem mão que afague, que proteja. Sem poiso que lhes garanta a segurança do amanhã, porque o próprio presente já é uma incógnita. Será que virá? Será que a vida persistirá?

A inocência do sorriso e da crença é-lhes roubada à partida, sem possibilidade de resgate de uma infância sumida. Os ruídos beligerantes atravessam ritmadamente a atmosfera e é no vazio propiciado pelo silêncio que se expressam os clamores sofridos. Os que ecoam num cântico aflitivo e os que são abafados pela dormência de um ser que já não sente, um ser que já não quer sentir.

Dos gritos às barbáries, perderam-se nas debilidades do ser humano. Desvaneceu o seu encanto, a esperança, a alegria… Miragens de uma vida alternativa, de uma outra realidade que não a vigente.

 

São órfãos da humanidade, o produto das massas de gente oca que os abandonou em terras impronunciáveis, submergíveis face às superficialidades da contemporaneidade.

Não os esqueçamos. Não os abandonemos. Pela memória e ação se fará a diferença quanto aos que serão o nosso futuro, enquanto (se) sucede o agora. E aí seremos todos membros da família humana.

 

Sara Silva

 

16
Fev18

Espelho (Abandono – 1)

Publicado por Mil Razões...

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 Foto: Woman - 5776588

 

Hoje acordei e, antes mesmo de abrir os olhos, pensei que seria um bom dia pois a noite foi calma cá em casa, com sonos retemperadores e descansados.

Olho-me ao espelho, já com a cara lavada com água fria e vejo que tudo está bem. Consigo escrever um e-mail de trabalho ainda a tomar o pequeno-almoço, adivinhando um dia produtivo.

De repente, cruzo olhares com o depois e a ideia de que tudo está bom sai a correr. Vejo-a fugir e fico em pânico. Começo a ficar mais nervosa, cada vez mais e mais nervosa e eis que tudo acontece. Tudo à minha volta é um caos, gritam comigo e tento não gritar, mas já vou perguntando “Porquê?”. Por que razão não há um dia em que a ideia de que será um bom dia não me abandona durante esse mesmo dia? Então, tudo acontece...

 

Se antes estava com boas energias, essas desaparecem e o meu pânico é maior pois convenço-me que nem sequer tinha direito de as ter tido em algum momento. Se conseguia suportar os gritos dos outros, esses mesmos gritos abandonam os seus corpos iniciais e passam todos para mim, sendo invadida por ataques de histeria louca, dos quais tenho consciência e abomino. Abomino-me a mim...

Se antes olhei para o espelho e tudo era bom, esse mesmo espelho mostra-me agora uma cara vermelha da própria raiva de existir, olhos a pedir para nunca mais serem vistos abertos por ninguém, lágrimas a pedir perdão por existir.

A alma quer sair do corpo, mas o racional não deixa. Estou presa em mim mesma, nesta minha neura, nesta minha existência medíocre. A pessoa que sou abandona-me e deixa-me à deriva com esta loucura.

Já consegui deixar todos à minha volta de olhos arregalados, mas que se dane! Sofram as consequências por conseguirem deixar-me assim.

Mas eu gosto tanto deles... Eu que já cá não estou. Eu que fui expulsa do meu próprio corpo para dar lugar à insanidade. Sinto ódio, abandono o amor, aquele que tanto acredito e desejo... Não é opção, mas é uma realidade. Uma estúpida realidade que só a mim diz respeito.

 

Sónia Abrantes

 

12
Fev18

Ângela (Beleza – 14)

Publicado por Mil Razões...

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Foto: Woman - Анастасия Гепп

 

O estrondo de um motor atraiu-lhe o olhar através da janela, instintivamente. Viu um carro que passava na rua lateral ao liceu. Tudo estava bem.

Quando Luís fez o olhar regressar ao interior da sala, a porta tinha sido aberta por uma rapariga que entrava, serenamente, com determinação educada. Todos olharam para ela; não podiam deixar de olhar, atraídos por ela, pelos cabelos castanhos a tocarem os ombros, pela pele clara mas precisamente bronzeada, pela beleza do rosto, pelos olhos magnéticos, pela elegância, pela suavidade dos gestos, pelo sorriso cativante, pelo vestido de verão a terminar pelo meio da coxa. O professor interrompeu o silêncio: “Por favor entre e sente-se, se ainda encontrar uma mesa e uma cadeira livres”. Reposto o silêncio, os olhares continuaram até ao fundo da sala, seguindo aquele corpo que flutuava harmonioso. Pousou na última cadeira, olhou o professor e mostrou de novo o sorriso, doce, que agora a todos dizia que estava tudo bem, que a aula podia continuar. Luís sentiu-se preso àquela rapariga tão bela como nunca imaginara possível, senhora de uma luz que criava todas as cores, que tudo harmonizava.

 

Naqueles dias a turma tinha crescido até ao limite do espaço da sala, com rapazes e raparigas regressados de uma África agora independente que os rejeitava, ou que eles rejeitavam. Todos tinham lá nascido e crescido, numa natureza diferente, numa cultura diferente, e por isso sentiam-se peixes fora de água, rejeitados, escorraçados, estigmatizados, a tentarem perceber onde estavam, com quem estavam, a tentarem aprender novos hábitos e a criar laços, referências, amizades. Pela forma como ela chegou, pelo seu jeito, só podia ser um deles – uma retornada.

 

Tornou-se muito longo e vazio o tempo até ao intervalo. Com o toque saíram da sala e, como sempre, caminharam até ao salão polivalente. Luís, sempre tímido, sempre reservado, sobretudo com as raparigas, não tirou os olhos dela. Sem entender como, atreveu-se a abordá-la quando todos a olhavam à distância, disfarçando mal a surpresa, o espanto, a fixação. Aproximou-se. Ao perto ainda era mais bela; era muito diferente de todas as outras raparigas. Atreveu-se e disse-lhe que se chamava Luís, que vinham da mesma sala. Ela respondeu-lhe com um sorriso terno, meigo, carinhoso, irresistível, e continuou: “Chamo-me Ângela. Cheguei ontem de Lourenço Marques e estou aqui hoje, o meu primeiro dia neste liceu. Nunca tinha vindo a Portugal continental”.

Luís não entendia a razão, mas com a Ângela sentia-se à vontade, completamente relaxado, sem medo de ser como era, sem medo de falar. Conversaram todo o intervalo grande e regressaram juntos à sala.

Quando as aulas terminaram - terminavam pela hora de almoço, Luís acompanhou Ângela a casa. Ela, o irmão mais novo e os pais, estavam a viver com os avós que acabara de conhecer. Ficaram a conversar mais um pouco junto ao portão da avó. E depois separam-se até à manhã seguinte quando, bem cedo, Luís chegou ao portão para acompanhar Ângela até ao liceu. O mundo estava todo coberto de cores vivas, de beleza, o ar cheirava bem e tudo era harmonia.

 

E foi assim durante um mês. Ângela e Luís, Luís e Ângela, sempre juntos, por todo o lado. Nunca ele se sentira assim, tão bem, tão sereno, tão seguro, apaixonado. Adorava tudo em Ângela – a imagem, a voz, o cheiro, a serenidade, o sorriso, o jeito, a beleza. Durante aquele tempo experimentou algo que nunca imaginara ser possível – quando caminhavam pela rua, todos os homens olhavam surpreendidos e invejosos. E sim, era ele que ali estava, ao lado de Ângela, era a ele que eles invejavam.

 

E uma sexta-feira, quando regressavam a casa, Ângela disse a Luís que era o último dia em que estariam juntos. Na segunda-feira viajaria de volta a Lourenço Marques, perdão – a Maputo, o pai já tinha tratado de tudo e Moçambique era o país deles, queriam voltar e lá continuar a viver. Luís não conseguiu escolher uma palavra das tantas que queria dizer. Não queria o seu mundo sem Ângela. Queria dizer-lhe o quanto ela era bela, o quanto estava apaixonado, o quanto a desejava, o quanto precisava dela. Mas nada conseguiu dizer.

Não voltou a vê-la, nada soube dela. Regressaram a timidez e as dificuldades com as raparigas. O mundo perdeu luz, cor e harmonia.

 

Alguns anos depois tornou-se adulto e foi mitigando a timidez. Encontrou outras mulheres, encontrou o seu amor. Mas a imagem adolescente da Ângela, a serenidade, a beleza, o amor, ficou para sempre dentro dele, despertando de quando em vez apenas para dizer que está lá, para não ser esquecida, para o encher de ternura.

 

Fernando Couto

 

09
Fev18

Olhos verdes são traição (Beleza – 13)

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Foto: Man - Silvia & Frank

 

No momento em que os seus olhos, escondidos nos óculos “fundo de garrafa”, se cruzaram com o verde dos olhos dele, ela sorriu e corou.

Quando, dias depois, entraram no mesmo elevador, cada um soube onde poderia encontrar o outro. Mas não se procuraram. A vida, sozinha, faria com que os seus caminhos coincidissem de novo.

 

Os olhos dele procuraram mais vezes o sorriso dela, naquela multidão que se atropelava, a cada manhã, no percurso até ao trabalho. O primeiro “Olá!” mostrou que os olhos verde-água tinham voz de Tritão. E o convite para um café fê-la tremer – primeiro por dentro, e depois nas mãos.

No seu coração de menina, sempre sonhou com um homem assim: loiro e de olhos claros, como nos filmes e nas histórias de encantar. Sempre idealizou um príncipe a entrar no seu castelo. E estava a chegar o momento em que ele se tornava real.

 

No dia e hora combinados, ali estavam, cada um com as suas motivações e expectativas. Ela, de coração num trampolim e bochechas que só podiam sorrir. Ele nos seus olhos verdes, de conquistar qualquer mulher.

Ela que (aos olhos dele) de bonito tinha apenas o nome – Maria – fez cair por terra, num piscar de olhos, a aposta que o levara àquele café.

Ele estava agora rendido à voz doce de Maria. Hipnotizado pelo canto de sereia do relato das suas aventuras, em viagens pelo mundo fora.

Só que ela, mais do que viajar por países, tinha feito muitos percursos interiores, conhecia bem o seu coração… e percebeu, no primeiro momento, que o trampolim se deteve, ao suspeitar a aproximação de um homem vazio.

 

Foi a primeira vez que uns olhos bonitos levaram os dela a tomar café. Foi a primeira vez que os olhos dele se deixaram cativar por um brilho que não estava visível a olho nu.

 

Maria abriu um precedente na vida destes olhos, que viram que há muito mais beleza do que aquela que eles podiam alcançar.

O seu sonho de menina morreu naquele dia. Mas fez nascer a certeza de que, o azul celeste do seu coração, não seria nublado por uma qualquer cor de olhos bonitos.

 

HTR

 

05
Fev18

O nosso céu particular (Beleza – 12)

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Foto: Smile - Jessica

 

Beleza. Chega-nos pelo ar. Um som, uma imagem, um pormenor. A covinha do teu sorriso quando me vês chegar. E assim te chegas a mim. Passas a ser parte minha porque, de algum modo, te toquei, mesmo que nem um dedo tenha mexido. Os meus olhos iluminam-se quando te vejo. Incendeias a minha alma. Amor lindo. A melhor escolha da minha vida. Para sempre.

Há pessoas que nascem para isso: ajudarem-nos, apoiarem-nos, crescerem connosco e amarem-nos incondicionalmente. Beleza rara. Serem humanos e tocarem-nos a alma. Até mesmo aquilo que nunca ousamos, ou sabíamos mudar. O nosso céu particular.

 

Quando penso em ti e fecho os olhos, vejo sempre um sol brilhante num céu imensamente azul e branco, e muitas flores de todas as cores. Sorrio. A vida dá tantas voltas.

Eu agradeço-lhe por isso. Às vezes o céu é bem cinzento e escuro, mas quando olhamos em volta e vemos a normalidade da vida, a rotina do dia-a-dia, as árvores sempre prontas a serem admiradas, o mar sempre recetivo a um mergulho, a música à espera de ser ouvida, o corpo pronto a ser sentido e vivido. E a gente esquece o que passou.

 

Miriam Pacheco

 

02
Fev18

A beleza da fealdade (Beleza – 11)

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Foto: Portrait - Subham Shome

 

Andei dias a fio a pensar como iria abordar o tema proposto. Nunca gostei de pensar e falar em beleza, ou no belo, apesar de conseguir, evidentemente, reconhecer e categorizar o que, para mim, é belo. Em certa medida, acho o tema tão ambíguo, que cai por terra qualquer validade pretensamente conclusiva. E eu tenho tendência para chegar a conclusões.

Pensei na fotografia, que capta o belo. Na arte, que cria o belo. Na música, que eleva o belo. No amor, que se quer belo. E repudiei a ideia de pensar sobre o tema quando me lembrei das pessoas. Quão falsa relação pode ser a junção dessas duas palavras: beleza e pessoas.

A beleza está repleta de lugares comuns, tendências e manipulações. Invade de forma direta ou insidiosa o nosso pensar, o nosso escolher e o nosso comportamento. É politicamente correta, tornando-se assim, em confidências, rotundamente falsa. Os seus padrões (atuais) incomodam-me, mas, no entanto, vaidosamente arranjo-me de manhã e frequento o ginásio de tarde. Sim, somos maioritariamente hipócritas no que toca ao tema. A verdadeira beleza vem de dentro, dizem-nos. Mas o que sentiríamos nós se tivéssemos filhos indiscutivelmente feios?

Será que a beleza está nos olhos de quem a vê? Talvez. Acredito, contudo, que na forma como a sociedade evoluiu, cada vez mais vemos todos a mesma coisa. Estamos a ficar cegos para a beleza da fealdade...

 

Rui Duarte

 

29
Jan18

Com poesia ou com saudade (Beleza – 10)

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Foto: Plane - ionutscripcaru

 

Beleza é um conceito, dizem. E que está apenas nos olhos de quem vê. Pode ser. Mas depois há aqueles momentos em que o que vemos nos esgota a capacidade de olhar, e nos obriga à sujeição de todos os sentidos e à reverência a coisas inexplicáveis: é aí que nasce a Poesia.

 

Cheguei hoje de uma curta viagem para fora do meu país, Portugal. Anoitecia quando o deixei, há duas semanas, num dia de céu limpo. Virei a norte, voando, e a linha de fogo que demarcava o horizonte líquido era de uma nitidez afiada e longa, que me cortava a respiração. Subjetividade? Sim, talvez – a minha pele é, confesso, extremamente vulnerável a golpes de luz, e a minha respiração a cortes de espanto, quase susto. Nem pensei em beleza, ou qualquer outro adjetivo – apenas vi. Juro que vi.

Depois, o céu cresceu, debruado a lume esmaecendo, e a terra foi ficando preciosa, lá no fundo. Sei lá, ou talvez fossem os meus olhos, que já não olhavam, apenas me enriqueciam de filigrana delicada e faiscante – sei lá, ou talvez fossem as luzes da cidade a iludir-me... Talvez. Mas era belo! Belo, o trabalho de ourives, em arabescos, caprichos, flores, corações estilizados. Teias de fios dourados, desenhando joias espalhadas no veludo negro das povoações namoradas do mar. E juro que não ficou tudo pelos olhos, por isso, comecei a duvidar, desde então, nessa máxima de que “a beleza está nos olhos de quem vê”.

 

Como já disse, voltei hoje a Portugal, vinda de norte, pelo ar. Era de dia. E não sei se foi saudade, se foi poema – só sei que, descendo, a minha terra se me revelou, outra vez, de uma beleza que me abanou por dentro... Deve ter chovido, porque os prados, ponteados de casas e bordejados por pequenas manchas de árvores, eram de um verde vivo e liso. Deve ter chovido, porque os meus olhos se humedeceram, deixaram, outra vez, de saber olhar, e puderam sentir a recendência das ervas recém-cortadas, o cheiro dos pinheiros mansos, o conforto sensitivo de uma bela manta de retalhos, carinhosamente criada por mãos que sabem da beleza, sem saber que o sabem. E juro que, desta vez, senti por dentro que “a beleza está na alma de quem ama”. Com poesia ou com saudade. Ou com ambas.

 

Teresa Teixeira

 

26
Jan18

A rua onde o tempo para (Beleza – 9)

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Foto: Elderly - d4lma

 

A Rua das Camélias é a minha rua favorita da cidade. Tem um lindo nome e, só por este facto, seria capaz de a adorar mas, na verdade, não foi por esta razão que me enamorei dela: aqui vivem os protagonistas da mais bela história de amor que habita na minha memória. Há mais de quatro décadas que tive o privilégio de conhecer o Sr. Artur e a D.ª Aurora, duas pessoas adoráveis que me enchem a alma. Na altura em que eu era gaiata, a D.ª Aurora era a melhor modista da cidade. Vinha gente de todo o lado, até gente das revistas, da política e da banca, procurar os serviços das suas mãos abençoadas. Contavam as minhas tias que, décadas antes de eu nascer, já as mulheres se sentiam rainhas vestidas por aquela doce senhora de olhos muito azuis, sorriso sereno e pele de porcelana. O Sr. Artur era joalheiro, arte herdada do pai e do avô, e mantinha uma rotina de trabalho que lhe permitia esperar a sua Aurora, ao final da jornada, sem falhar um dia que fosse. Quando a D.ª Aurora fechava o atelier, já o Sr. Artur a mirava com um sorriso de orelha a orelha, como se a visse, sempre, pela primeira vez. Foram muitas as vezes em que estive sentada no banco do jardim, do outro lado da rua, a apreciar esta cena, invadida por sentimentos paradoxais: por um lado, fascinada pelo fenómeno de uma história de amor que recomeçava a cada dia, por outro lado, incapaz de perceber que a disfuncionalidade da minha família não me permitia, ainda, entender aquela entrega. Na realidade demorei muito tempo a compreender que aquilo é que era, realmente, amor. E que, nesse espaço sagrado, não podiam viver a dor, o medo, a raiva, a tristeza e a angústia (sentimentos e emoções que, no quotidiano da minha família, significavam afeto, carinho e preocupação), subjugados em mim pelos sorrisos, pela cumplicidade daquele casal, pela intensidade dos seus abraços. O Sr. Artur e a D.ª Aurora eram, aos meus olhos, as pessoas mais poderosas do universo: tinham o dom de fazer parar o tempo e de me inundar dos melhores sentimentos do mundo.

 

Um belo dia, a sair do atelier, onde insistia em trabalhar diariamente apesar da idade avançada, a D.ª Aurora deu uma aparatosa queda, mais rápida do que o Sr. Artur conseguiu pestanejar. Estendida ao comprido rebentou num pranto convulsivo, enquanto balbuciava que não tinha partido nada, a não ser o orgulho, e que a deixassem ficar ali até a vergonha a consumir. As pessoas que passavam iam parando, incertas sobre se deviam intervir ou não, quando, subitamente, o Sr. Artur se deixou cair no chão numa acrobacia digna do “Cirque du Soleil” e rebolou até à D.ª Aurora, sem proferir uma só palavra. Esta, incrédula, tinha esquecido as lágrimas e a vergonha e observava aquele homem, caído a seu lado, cujo ombro encostado ao seu a fazia sentir em casa. Foi ele quem, gentilmente, quebrou o silêncio:

- Queres ficar aqui estendida, meu amor, muito bem, ficamos. Já sabes que onde estiveres é onde eu estou. Só espero que não chova… e olha, Aurora, minha amada, lembra-te que já não vamos para novos… se calhar, daqui a vinte anos, experimenta encostar-te a um muro ou a uma árvore, estás a ver a ideia? Estas sestas no passeio, no meio do povo a passar, só porque sim, são capazes de nos matar, Aurora. Mas hoje, meu amor, estamos aqui. Dá cá a mão, isso, aperta. Vês? Está tudo bem. Quer dizer, se não partiste mesmo nada… Se partiste, Aurora, pelo amor de Deus, diz-me, meu amor, que temos de correr já para o hospital! Correr… rastejar! Assim que eu conseguir virar esta carapaça ao contrário…

Depois disto, a D.ª Aurora agitou-se num riso que a sacudiu inteira e o Sr. Artur permaneceu ao seu lado, fascinado com cada gargalhada que lhe inundava os sentidos. Lentamente, foram-se elevando e quando estavam, finalmente em pé, frente a frente, ele tomou-lhe a face entre as mãos e beijou-a ternamente. Naquele momento mágico todas as preocupações da D.ª Aurora se desvaneceram. Pude ver a tensão abandoná-la e o seu corpo sucumbir, seguro, no abraço do Sr. Artur. De olhos fechados – estou certa que viam mais do que todos nós com eles bem abertos –, ficaram unidos naquele beijo terno, enlaçados, esquecidos do mundo e dos demais. Nada, absolutamente nada, podia ser mais belo do que o que eu presenciava e sentia. Ainda que o futuro fosse uma incógnita na minha cabeça, ainda que aquele Amor Maior pudesse nunca encontrar o seu caminho até mim, eu soube, naquele momento, que era real. Que pessoas de carne e osso o tornavam genuíno, visível, único. Aquele episódio mudou a minha vida. Tornou-se a bússola da minha alma nos assuntos do coração, guiando-me em muitas tempestades violentas, lembrando-me de nunca viver (voluntariamente) pela metade: o amor era precioso demais para ser tratado como um sentimento de segunda.

 

Deixei de os ver durante muito tempo, ou de passar na Rua das Camélias e, lentamente, a sua memória tornou-se distante e difusa. Contudo, ao longo da minha vida, quando precisei de sair de histórias caóticas, feitas de dor e de engano, eram eles que me ancoravam e me davam forças para me resgatar a tudo que não fosse, realmente, amor. Na verdade, o amor não pode ser chamado de tal sem um lugar seguro onde se cresce a dois, soube-o com eles. Nenhum amor sobrevive uma vida inteira pela metade, nem o amor-próprio consegue tal proeza. E as minhas células recusaram esquecê-lo, mesmo quando a memória o atirou para uma gaveta perra e (quase) esquecida.

 

Esta semana voltei à cidade. Já cá não vivia há muito tempo e soube bem voltar a casa. Perdida em mil pensamentos, dei por mim a calcorrear as ruas que há muito não trilhava, guardadas na pele e na memória. Quando percebi onde estava, tive um baque! Naquela varanda florida à minha frente, assomava em tempos a D.ª Aurora para descansar os olhos da costura. Como era bela, altiva, serena! Aqui, mesmo ao meu lado, aconteceu o trambolhão monumental da D.ª Aurora e a queda por solidariedade do Sr. Artur. Hoje, terão os dois mais de noventa anos. Sorrio, com o coração derretido e, ao mesmo tempo, apertado: é perfeitamente plausível que nenhum dos dois esteja vivo e entristece-me este pensamento. Não quero ir embora, ainda não estou capaz de os deixar partir em mim. Sento-me em frente à varanda, tomo um café e saboreio cada pormenor daquela história, como se tudo se tivesse passado ontem. Décadas de detalhes saltam na minha mente, sinto o coração expandir só por lembrar. Posso sentir de novo o aroma do perfume da D.ª Aurora, posso escutar a sua gargalhada e a voz quente do Sr. Artur! Posso lembrar a dança dos seus movimentos, a linguagem dos seus corpos, a força do seu olhar! Sinto-me em estado de graça enquanto viajo na sua história e a registo em mim, mais uma vez, na esperança de que nunca morra.

Depois de um tempo que não sei precisar, perscruto o local em busca do empregado de mesa. Duas mesas ao lado, uma gargalhada desperta a minha atenção e os meus olhos detêm-se num par de olhos azuis que sorri enquanto, docemente, duas mãos aproximam um rosto do seu e beijam os seus lábios. É quando esses olhos, finalmente, se fecham, que reconheço aqueles dois belos nonagenários. Não os teria reconhecido, todavia, se caminhasse, por ali, distraída… O que eu teria perdido! Estou perplexa! Sinto-me tão grata por este momento… Constato, maravilhada, que o tempo se encarrega de nos tornar magníficos, se tivermos o privilégio de viver longos anos; porém, hábil e determinado, brinca com os nossos traços, ornamenta-os de rugas e torna-nos uns jovens camuflados em fatos decíduos. Enquanto uns amargam, outros transcendem, mas todos, inevitavelmente, envelhecem. Contudo, os olhos da D.ª Aurora não envelheceram um único dia. Alheios ao passar dos anos, continuam majestosos, imensos, felizes, cheios de amor. Não lhes falei mas bebi da sua presença, da sua energia. Deixei-me abraçar pela magia daquele amor de uma vida inteira e pelo sorriso que ainda partilham, tão cúmplice, pleno e sereno. Fui inteira também, naquele momento, naquela esplanada, naquela brisa suave que me trouxe o perfume da D.ª Aurora e a fascinação do Sr. Artur por aquela bela dama por quem, claramente, se apaixonava todos os dias, há mais de setenta anos. Quase duas décadas depois daquele momento que mudou a minha vida, volto a sentir que nada, absolutamente nada, pode ser mais belo do que aquele amor. Na rua onde o tempo para, renasço na certeza de que só poderei viver algo igualmente grandioso se nunca esquecer que, no que toca aos assuntos da alma e do coração, menos que tudo é nada.

 

Hoje, não sobra espaço nesta cama gigante onde durmo todas as noites. Transbordo amor, sinto o meu corpo repousar, tranquilo, imenso. Sinto a alma em casa, dentro de mim. Sou inteira, aqui, agora, em mim própria – sempre fui, na realidade, mesmo quando não o sabia. Sei que já não tenho muitas décadas para crescer e envelhecer com um companheiro, nas curvas do corpo, nos desafios da psique, nas rugas da pele; mas serei inteira numa vida plena vivida a dois, durante o tempo que me for concedido. O meu “Artur” (que já deve vir um pouco sénior) não precisa de se atirar para o chão quando me der o fanico mas, no mínimo, deve ser alguém inteiro também, que não precise de mim para nada mas que me escolha, todos os dias. Enquanto não chega, sei que a Aurora, o Artur, a plenitude e o amor incondicional existem. Sempre saberei. E basta-me. 

 

Alexandra Vaz

 

22
Jan18

A vida é (quase sempre) bela (Beleza – 8)

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Foto: Girl - Alexandr Ivanov

 

A seguir ao almoço, Jorge anunciou uma surpresa: um vídeo de família que tinha deixado a gravar em casa.

- Vou lá num instante buscá-lo!! – disse, saindo à pressa, enquanto o resto da família se espreguiçava no sofá após a lauta refeição.

O “num instante” arrastou-se por mais de 40 minutos e Sofia, impaciente, resolveu ligar para o marido a saber o que se passava. “Tirlili-tirlili”, ouviu-se na prateleira do móvel da sala.

- O totó esqueceu-se do telemóvel! – exclamou Sofia num tom que misturava condescendência e irritação.

A D. Emília prontificou-se imediatamente a ir levar o telemóvel ao filho, o que causou um alarido de comentários: “Claro que não!”; “Que ideia!”. Mas é assim, a D. Emília, sempre disposta a dar a volta ao mundo para satisfazer os filhos, mesmo que às vezes ultrapassasse a barreira do aceitável e do normal.

 

Dez minutos volvidos e Jorge entrou esbaforido pela porta, um sorriso de orelha a orelha, com o DVD na mão. De volta do leitor de DVD do pai, o sorriso foi dando lugar a alguns sopros de impaciência e a frustração instalou-se quando se concluiu que não havia compatibilidade entre o ultrapassado aparelho e o recente LCD adquirido pelos patriarcas. Só que Jorge não se deu por vencido e, apesar de o tentarem demover, saiu novamente rumo a casa e regressou, desta vez rapidamente, com o portátil debaixo do braço e um cabo USB, não fosse o diabo tecê-las.

E foi assim que, finalmente, todos se reuniram pelo sofá e cadeiras em torno da televisão para assistirem ao vídeo que, afinal era uma apresentação de fotografias intitulada “A vida é bela, por Jorge Ribeiro”. À medida que as imagens iam passando, o grupo ia lançando comentários, risinhos, exclamações que traduziam a lembrança de um acontecimento passado. Naquelas fotografias, só momentos felizes de Jorge, Sofia e dos filhos, Miguel e Patrícia: férias, aniversários, passeios. Durante mais de 20 minutos, passaram pelos seus olhos todas aquelas imagens, algumas de anos já muito passados, uma espécie de história de família. E, no entanto, ali não aparecia a depressão do Miguel, da qual estava a recuperar quase a 100%, mas na qual estivera mergulhado no último ano e meio. E tão pouco as imagens deixaram transparecer a traição de Sofia que quase provocou a separação dela e de Jorge, ou a tentativa de suicídio que daí adviera. O “vídeo” apenas focava os bons momentos, como uma espécie de balanço de uma vida quase sempre bela.

 

No fim, todos bateram palmas. D. Emília chorava (de alegria?), emocionada. Só a pequena Luana não aparentava grande satisfação; a sobrinha de Jorge não conseguia compreender porque aparecia tão pouco naquelas fotografias. Todos se riram e explicaram-lhe que era por ser a benjamim da família; não podia, por isso, ter um grande historial de fotos de família. O que ninguém lhe disse (mas talvez tenham pensado) foi que os acontecimentos passados destruíram o convívio e os laços que haviam existido entre todos e que, apesar da alegria que ali parecia reinar, havia uma barreira erguida entre Jorge, Sofia e os filhos, face à restante família – de ressentimento, mágoa, remorso, egoísmo – que haviam reduzido os encontros ao mínimo indispensável.

Mas hoje estavam ali. E sorriam. Como uma família feliz.

 

Sandrapep

 

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