5.12.16

OsCondenadosDeShawshank-Frank Darabont-CastleRockE

Foto: Os condenados de Shawshank - Frank Darabont - Castle Rock Entertainment (1994)

 

Andy: Há alguma coisa dentro de nós, que eles não podem tocar. É nosso!

Red: Do que estás a falar?

Andy: Esperança.

Red: Vou dizer-te uma coisa, meu amigo. A esperança é uma coisa perigosa. A esperança pode levar um homem à loucura.

 

Este é um dos diálogos de Andy (Tim Robbins) e Red (Morgan Freeman), duas personagens do filme “Os condenados de Shawshank”, de 1994.

 

Só para contextualizar: Andy Dufresne é um bancário de sucesso, que vê a sua vida dar uma reviravolta quando é condenado, injustamente, pela morte da esposa e do amante. Com pena de duas prisões perpétuas é, então, enviado para a prisão de Shawshank. Aí desenvolve uma inesperada e especial amizade com Red, outro preso. Além disso, durante a sua estadia, o diretor da prisão obriga Andy a entrar num esquema ilegal de lavagem de dinheiro. Apesar das constantes humilhações, das injustiças, da solidão e do isolamento, e do desespero, há algo que nunca abandona Andy, nas quase duas décadas na prisão: a esperança.

A esperança pode ser aquilo que resta. A esperança pode ser como que a rampa de lançamento. A esperança pode ser o impulso, a mola que nos faz saltar para outra coisa. Por si só, não chega, mas é o estímulo que nos leva a agir, a mudar, a ser paciente.

“Os condenados de Shawshank” fala-nos de esperança, de redenção, de paz interior. Mas fala-nos de algo ainda maior: do espírito humano. Daquilo que existe dentro de cada um de nós, que não é palpável ou explicável. É um poderoso grito de liberdade e salvação, quando tudo parece perdido. Faz-nos acreditar que a redenção e o perdão são possíveis e que há por aí um futuro melhor à espera de ser agarrado por nós. E, que se nós não acreditarmos nisso, há sempre alguém que nos pode fazer acreditar em algo melhor. Assim como sucedeu com Red, que duvidava das palavras de Andy, mas que achou o sentido daquelas palavras algures na sua vida.

O ex-bancário consegue, por fim, fugir da prisão. Deixa uma carta a Red, que este lê quando já se encontrava também em liberdade. Na missiva, diz:

“A esperança é uma coisa boa, talvez a melhor das coisas, e uma coisa boa nunca morre.”.

 

Sandra Sousa

 

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2.12.16

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Foto: Star – Fine Mayer

 

Naquele dia de desespero, em que detesto quem sou e a vida que tenho. Nesse dia em que ninguém me compreende, o amanhã parece ser negro. Não tenho sonhos, só pesadelos. Não espero nada. Tudo é negro. Tudo é nada. O silêncio é um barulho ensurdecedor. No barulho nada consigo escutar. Não estou bem em lugar conhecido nem desconhecido. Nesse dia, precisamente nesse dia, olho para o céu. Vejo lá no alto essa luz que brilha no escuro. Alguém chamou essa luz de Estrela. Mas o nome não interessa. É a sua luz que brilha no escuro que importa. Dizem que as estrelas orientam quem está perdido na escuridão. Então é para ela que vou olhar sempre que me sentir assim, no escuro, pois aquela pequena estrela lembra-me que afinal é na mais completa escuridão que se veem as luzes mais brilhantes. Então sorrio e sinto tranquilidade no meu Ser. Agora sei, agora tomo consciência que, no ponto em que a minha vida se encontra, uma luz brilhante vai conduzir- me na escuridão. Afinal, nada está perdido. Muito menos eu.

 

Sara Almeida

 

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30.11.16

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Foto: Woman – Enrique Meseguer

 

Minha amiga de uma vida inteira, escrevo-te agora, minutos depois da despedida no teu abraço. Trouxe no meu coração a tristeza que partilhamos, a incredulidade pela inconstância da vida, a dor de te sentir novamente magoada. Trouxe, na alma, tudo aquilo que não te pude dizer. Há menos de uma semana, abraçava-te, efusivamente, pela alegria que de ti transbordava. Em poucos dias, porém, tudo mudou. Oh, minha amiga, que desilusão… Ver-te feliz é das imagens mais lindas e contagiantes da existência, ver o teu coração sangrar é uma das mais duras. Sabes, tudo aquilo que diminui a tua luz, põe em causa a minha fé no mundo e nos outros. Relembra-me que a vida não é justa ou imparcial, por mais que eu ame viver.

Hoje sei que não existem palavras suficientes para aliviar esse peso que carregas dentro do peito. Precisas de chorar, de estar triste, de estar apenas com quem queiras estar, de não explicar nada, de não perceber nada. Sento-me em silêncio ao teu lado porque é tudo o que precisas de ouvir de mim, neste momento. Não te vou dizer que vai passar, que já sobreviveste a tanta coisa, se calhar, muito pior que isto, que és linda de morrer, que o mundo está ceguinho e outros argumentos que, ainda que verdadeiros, te poderiam ferir agora. Hoje quero apenas que te sintas amada. Guardo tudo isto para mim, para to relembrar, com carinho e amor, quando a tua alma sorrir de novo, de coração aberto e sem chagas.

 

Hoje será assim, e se calhar amanhã também, e todos os dias mais de que precises; estarei contigo em todos eles, mas não te vou deixar construir lá casa. Não vou deixar que sucumbas à sombra do que te foi dado, te convenças de que isto é tudo o que mereces e te percas dentro de ti própria. Minha amiga, nesse lugar de dor, a vida é dura para toda a gente. Não permitas que, dentro de ti, viva alguém que não se identifica. Alguém que cruza o pátio, a medo, apenas para observar a lua e se lembrar que ainda existe. Alguém cuja voz nunca se ouve mas que mata todos os sonhos, um por um, sem apelo nem agravo. Sei que isto é mais facilmente dito do que feito, por isso, não te apresso na tua avalanche, não te sugiro, não te atropelo. Só tu conheces o tamanho da tua dor. Mas, amanhã, nesse amanhã que tu sentirás como o dia seguinte à tempestade, quando tudo isto já não doer em ti, não desistas daquilo que sempre quiseste, daquilo que sentes debaixo da pele, daquilo que te faz verdadeiramente feliz. Não percas a esperança da alegria, da cumplicidade, da honestidade. Não te acomodes a um guião onde vives pela metade. Não aceites menos do que dás na totalidade da tua alma.

Sei que te falham as palavras e a compreensão sobre ti própria, amiga da minha vida, mas não te sintas sozinha: na verdade, o que cada um de nós sabe de si próprio, e dos outros, não nos serena na nossa solidão. Quem grita em nós não encontra conforto nas palavras partilhadas com quem não as pode entender. Por isso andamos tão perdidos e desencontrados, num mundo concebido para o imediatismo e para a matéria. A vida parece ser exponencialmente multilingue mas, tristemente, continuamos tão iletrados no campo dos afetos. Contigo, todavia, e durante todos estes anos, nenhuma emoção permaneceu anónima ou ignorada, nenhum sentimento se desvaneceu. Como um farol no meio da tempestade, ter um amigo verdadeiro é manter viva a esperança de um porto de abrigo, de segurança, de compreensão. Não tenho poções mágicas para te dar ou garantias infalíveis de um dia melhor; tão pouco a minha vida pode atestar todas as coisas que agora te digo e em que ainda escolho acreditar. Mas sei que sempre te encontrei. Sempre. E tu a mim. Nas tempestades e nas alegrias.

 

Não sei quem vai caminhar contigo no futuro, quem vai encher o teu coração de amor e serenidade, quem vai encaixar em ti como uma luva, quem vai aos teus sonhos chamar “nossos” e voar contigo, sem medos nem reservas; mas só a esperança te pode colocar novamente nesse caminho. Agora, minha amiga, neste momento em que nada te faz sentido, deixa-me ser o teu farol, eu e todos os que te amamos. Deixa-me abraçar-te na dor, para que a sintas sair de ti, e mantém a cabeça à tona até voltares a sonhar e a respirar fundo. Um dia, acredita, vais sentir-te segura, amada e suficiente. E feliz, por mil razões mas, sobretudo, por teres enfrentado este momento com tanta coragem, apesar do medo e da tristeza. Nesse dia vais caminhar inteira, sem desejar nada do que ficou para trás.

Não percas a esperança, alma minha, não estás à deriva.

 

Alexandra Vaz

 

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28.11.16

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Foto: Smartphone – Gerd Altmann

 

Não perder a esperança significa ganhar mais vida. Sim, mais vida para acreditar no futuro. É no acreditar que é possível, que mora a esperança; no acreditar em algo de positivo ou negativo, tão desejado por alguém, que pode acontecer, para gáudio de quem sempre acreditou. A esperança pode constituir uma força inspiradora e motivadora para quem confia no futuro, proporcionando uma sensação de segurança e estabilidade no plano das ideias, ao mesmo tempo que, pela sua função animadora, pode evitar o desespero, a frustração e o esmorecimento. Saibamos, por isso, aproveitar essa fonte de energia que poderá ser mantida com a força de vontade, perseverança e, sobretudo, no crer que algo é possível mesmo quando, porventura, surjam contrariedades. Nunca deixar cair a esperança, nunca a perder, parece ser a máxima da nossa vida a que devemos fazer jus. Perdê-la, impede-nos de encontrar o rumo certo, o sentido que nos ajuda a orientar a nossa vida, em busca do que tanto se deseja ou não. Embora o sentimento de esperança possa, de algum modo, confundir-se com um sentimento de bem-estar, na medida da confiança que lhe é transmitida durante o seu estádio de expetativa, em relação ao que se pretende realizar ou alcançar - mas sempre será um bem-estar instável, já que à esperança está sempre associada a dúvida do resultado - a verdade é que a sua energia é já por si suficiente para manter bem acesa a chama da vida na procura do que se deseja.

 

De resto, a sábia crença popular nunca deixa de recomendar e mesmo aconselhar: tenha esperança, não perca a esperança. É o aforismo popular tão vulgarmente usado pelo comum dos mortais perante o infortúnio e as vicissitudes da vida.  

 

José Azevedo

 

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25.11.16

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Foto: Prague – Sara Vaccari

 

É com uma revolta algo embaraçosa que confesso que perdi a fé na Humanidade. E, não conhecendo mais do que uma ínfima parte desta, sinto-me à vontade para generalizar essa amostra. As pessoas perderam o básico, a essência do que é ser humano. Perderam ou simplesmente têm preguiça de ser aquilo que deveriam ser, não sei bem.

E mesmo que não sejam todas, são em número suficiente para arrancarem às outras a esperança de uma sociedade em que se cultive a verdadeira amizade, convívio, solidariedade, partilha. Porque, se exige esforço, se implica compromisso, se pressupõe alguma responsabilidade, já não cativa, nem motiva. E é assim que, aos poucos, as pessoas desistem das pessoas.

 

Em face desta constatação, dou por mim a olhar para além do céu e a desejar que haja vida para além do planeta Terra e que outras civilizações nos venham ensinar aquilo que nós parecemos ter esquecido.

 

Sandrapep

 

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23.11.16

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Foto: Food - Katerina

 

Palavra singular. Verde, como eu tanto gosto!

Singular, sim, o seu plural é outra coisa, todo um outro mundo. Esperanças, belíssima, preciosíssima, graciosíssima, forma de estar!

Voltemos ao singular.

Haverá expressão mais positiva do que a esperança? Haverá algo mais motivador do que a esperança?

Dum spiro spero - enquanto se respira pode haver esperança. Enquanto à vida, …

Como recentemente li algures, qualquer coisa como isto: a sorte é uma coisa muito boa, convém é que nos apanhe a trabalhar!

Pois é.

A esperança é um excelente ponto de partida. Nem que seja só um ponto de partida. Aquele pedacinho que nos faz agir, mover montanhas, ultrapassar dificuldades, sofrer por algo recompensador, querer conquistar. Sem isso não diria que nada, mas andará lá perto.

 

[sofre mais aquele que sempre espera do que aquele que nunca esperou nada? - Pablo Neruda]

 

Se me ficar pela esperança até ao final do dia, amanhã estarei na mesma, com esperança, menos, um bocadinho que seja, certamente. E depois de amanhã?

Recorrendo à matemática, no limite, se não se passar da esperança, estaticamente digamos, caminharemos, e não é uma contradição, mais ou menos rapidamente ou mais ou menos lentamente, à escolha, para a raiva, o desespero.

Mau conselheiro.

Deixemos então a matemática, para tantos de nós território árido. Passemos para a gastronomia, mais apetitoso. A esperança será uma doçura, mas, só por si, tanto açúcar pode levar ao enjoo, à náusea. Precisamos de juntar algo de ácido ou de salgado para equilibrar ou mesmo realçar os sabores. Assim, a melhor receita talvez seja a de pensar que a esperança, per se, não obtém resultados, haverá que juntar algum pessimismo, relevar possíveis dificuldades, fazer com que este ingrediente nos faça perseverar e ficar mais bem preparados para qualquer eventualidade.

Logo, matematicamente, de novo, pensar negativo, mas agir positivo, deixa-nos aparelhados para concretizar a esperança. Mesmo que seja um restinho.

Chegar lá.

q.e.d.

 

Jorge Saraiva

 

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21.11.16

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Foto: Chest - Alexandra

 

Diz-se que hoje em dia se vende de tudo.

Será que se vende esperança? De preferência em caixinhas, para ser mais fácil utilizar conforme vai sendo necessário.

Quer dizer… Necessário parece ser sempre!

Em caixinhas de tamanhos personalizados conforme os assuntos a que cada dose deve dizer respeito.

Eu cá já não tenho caixinhas, quase. O que vou tendo é réstias de esperança que em tempos transbordaram das imensas caixas, caixinhas e caixotes que tinha. Agora utilizo essa esperança espalhada e reaproveito-a para as mais caricatas situações, de onde eu nunca pensei precisar ter esperança.

Se calhar o mal foi esse: depositei tanta esperança em tanta coisa que fiquei quase a zeros.

Mas, mesmo no final da minha capacidade de esperança, acredito, de alguma forma acredito em tudo o que é bom e simples, descomplicado.

Por vezes complico na tentativa de descomplicar.

Muitas vezes crio algo complexo, para tornar tudo mais simples.

Infelizmente também digo e faço coisas menos boas, para chegar a um fim melhor para mais pessoas.

Afinal, se calhar preciso deixar de ter esperança para voltar a tê-la no que realmente importa.

 

Sónia Abrantes

 

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18.11.16

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Foto: Embrace - Mariekekoene

 

Virá um dia em que nada será como hoje. Um de nós não estará ao lado do outro, onde sempre esteve. Gritaremos os nossos nomes e o silêncio será a resposta. Apelaremos à nossa memória e fugazmente ouviremos as nossas vozes, veremos os nossos sorrisos, sentiremos os nossos cheiros e as nossas carícias, mas as nossas presenças esfumar-se-ão com o passar do tempo. Faltar-nos-á o chão e sentir-nos-emos afundar. Estaremos de mãos dadas com a dor e andaremos por onde ela nos levar. Vazios, não teremos outras vontades que não sejam a de viver essa dor. Mas então, quando tudo parecer terminado, uma certeza nos dará novo alento, a de nos voltarmos a encontrar!

Voltaremos a encontrarmo-nos!

Nada sei desse novo encontro. Não sei quando, o momento não depende de nós, nem como, nem onde, não determinamos as circunstâncias, mas sei que voltaremos a encontrarmo-nos porque esse é o nosso desejo.

Tu ou eu estará à espera na chegada. Eu ou tu estará à espera da partida.

E, só por que temos esta certeza, eu não morrerei contigo, e tu não morrerás comigo, viveremos na esperança do reencontro.

 

Cidália Carvalho

 

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16.11.16

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 Foto: Girl – Mihai Paraschiv

 

Um dia (que dia!) senti-me estranhamente triste e angustiada (penso que todos nós temos dias em que a tristeza nos visita, sem percebermos muito bem o que se está a passar), a angústia incomodava, empurrava-me para trás, não me deixava seguir com os passos no caminho que eu pretendia. Pensei em pegar em mim ao colo. Foi isso que fiz. Peguei em mim ao colo e pedi ajuda, na “esperança” que a pessoa a quem pensei pedir ajuda me ajudasse mesmo, e na “esperança” que no outro dia conseguisse seguir com os meus passos para o caminho que pretendia. A nortear todo este processo o que existia: anedonia, astenia… enfim um conjunto de “estranhos” (sim, para mim eram estranhos) sintomas. Mas, quando pegava em mim ao colo (sim, porque peguei várias vezes), existia um movimento que me dizia que valia a pena. Era difícil, muito difícil! Sentia o meu peso nos meus braços, não tinha muito sucesso em adormecer-me nem a alimentar-me, mas eu sentia que valia a pena insistir, porque o movimento que eu fazia nestas tarefas era acompanhado de “qualquer coisa viva”. Eu penso que era um sentimento de esperança, não sei.

 

Pouco a pouco deixei de pegar em mim ao colo e passei a andar sozinha. Bem sei que foi um processo lento, bem sei que com pequenos avanços, bem sei que de vez em quando tinha de voltar a pegar em mim ao colo, mas aquele sentimento (o de esperança, penso eu) nunca me abandonou.

A vida deve (tem?) de ser vivida com este sentimento e, nos momentos mais difíceis, ele deve (tem?) de estar presente. Comigo resultou. Não sei se um dia voltará a resultar, mas tenho esperança.

 

Ermelinda Macedo

 

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14.11.16

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 Foto: Smile – Nicolás Borie Williams

 

Rodrigo já recebeu diversas heranças, ao longo da vida. Herdou de várias pessoas: de vários tios e tias, dos seus pais, de uma irmã. Considera-se por isso um homem rico, já que valoriza muito o legado recebido, pela sua qualidade. Aquilo que é hoje, sabe-o, é o resultado do estar com eles e do que deles herdou, o ser e o estar, as atitudes e os comportamentos, uma boa parte da sua visão do mundo, a forma como se relaciona com o mundo e com as pessoas.

Heranças teve que não foram fáceis. Hoje percebe-as como heranças, como boas heranças, mas tempos houve em que a inquietação foi grande, por conflitos, por desentendimentos, por incompreensões. À época, tudo parecia confuso e incompreensível, mas afinal havia um sentido, um conteúdo impercetível que hoje, com a distância do tempo, se tornou claro e valioso.

Heranças, das outras, das tradicionalmente consideradas como tal, as desejadas e cobiçadas, as materiais, também as teve, embora poucas, mas essas revelaram-se um pesadelo, a fonte e o foco de experiências assaz desagradáveis, ao exporem o lado sombrio, ou negro, das pessoas.

 

Por isso Rodrigo, que é um homem de fé, em paz com morte que não deseja mas aceita, costuma dizer que a sua herança são os seus mortos e trá-los sempre consigo.

 

Fernando Couto

 

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11.11.16

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Foto: Learning – Sasin Tipchai

 

A comunicação formal e ativa por meio das redes sociais é o percalço do mediatismo e da mediocridade. Trata-se do exercício de descontração da especulação, abordar factos alheios à sua esfera, de forma destemida, sem possuir fundamentos, não se permitindo questionar e, sucessivamente, ir buscar respostas construtivas. Uma comunicação digna de realce deve ambicionar como target um mercado distinto e diferenciado, devendo a priori resolver o conflito existencial da interpretação do tempo e espaço, da objetividade dos factos e do seu posicionamento face à matéria em análise.

O passado, o presente e o futuro, são tempos cronológicos soltos que se desenrolam de forma sincronizada formando uma linha sensível devido ao seu caráter de continuidade. A distância que os separa não existe no plano temporal, somente no espaço existencial das pessoas, principalmente as que têm o relantim do relógio acelerado.

No mundo da moda, vasta maioria desapega-se do trabalho que exige esforço físico e/ou mental, envolvidos com o calor da zona tropical propagado pela brisa do índico. O prestígio, qualidade que constitui desiderato de todo o ser humano, é deveras laborioso e sinuoso de tal força que muitos conspiram, cometer atropelos, tal fenómeno social do encurtamento de rotas, caindo na fácil tentação de cometer o mal para o ganho fácil, desconsiderando o essencial: competência, ética e mérito.

 

O prestígio é um presente muito valioso, é o diamante que todos gostariam de receber mas não querem merecê-lo. Com ele aprende-se a ser intenso e a desafiar constantemente um novo e próprio modus vivendi, as leis da física sendo assim matéria-prima para os cientistas sociais e não só, constituindo-se acervo informacional para a escritura de um futuro best seller.

Atividades do quotidiano que designaria de empreendedorismo social, como é o caso do voluntarismo, são de mandatos irrevogáveis com renovação tácita, pouco atrativos no curto prazo devido a isenção de uma remuneração fixa, adotando uma lógica de remuneração dos fatores em regime de sucess fee associado à incerteza da sua eficácia. Elas asseguram, antes, o acesso a networking ou capital social, fonte de vantagem competitiva sustentável da nova era.

Nesse ecossistema a avaliação de desempenho é contínua e em tempo real, a sua versatilidade e exposição permitem comunicar-se com um público diversificado e vasto que futuramente irá assegurar vantagem de fazer-se conhecer, permitindo que se evolua a passos largos à omnipresença e até, porque não, a unanimidade em modelos de governação inclusivos.

A pessoa esclarecida sabe a nítida diferença entre espaço e tempo e vive como se fossem iguais. O seu ofício não é tratado com extrema modéstia sujeitando-se a estabelecer limites temporais para a sua implementação, o que colidiria com a entrega ao trabalho, compromisso com excelência e orientação no resultado. O seu foco é o objetivo de curto e de longo prazo, não é ao acaso que a vitalidade do setor produtivo requere que seja altamente competitivo e adote esse modelo operacional. A gestão por objetivos exige assim maior rigor, disciplina, motivação e competência.

Voltando à intensidade, alguém terá dito que apesar de teoricamente estar em igualdade de circunstância, desencorajava-se a pretender um papel de direção de um organismo, por exemplo, quando existem técnicos sem conflitos de interesse que possuem igual ou superior habilidade técnicas mas, sobretudo, conhecem melhor os contextos e histórias à volta, elementos diferenciadores na liderança de ambientes com uma significante diversidade cultural.

Dito isto, destaca-se a máxima de Mahatma Ghandi segundo a qual “O melhor presente que um pai pode dar ao seu filho, é educação”. Somente pessoas preparadas para os desafios do amanhã saberão brilhar em ambientes adversos.

 

António Sendi

 

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9.11.16

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Foto: Girl – Adina Voicu

 

Eu herdei os olhos do meu pai. A boca também. E com o passar dos anos eu percebo que herdei muito além das suas caraterísticas genéticas. Reconheço em mim alguns traços de personalidade que, na adolescência eu abominaria, pois imaginava ser tão diferente dele... Naquela época, não era capaz de reconhecer em mim alguns “defeitos” tão parecidos com os do meu pai e menos ainda, algumas qualidades.

Na maioria das vezes, quando se pensa em “herança”, vem logo à cabeça, propriedades, bens materiais e ainda uns pouco afortunados que herdam dívidas também. Pensamos pouco sobre o quanto herdamos dos nossos pais ou daqueles que estiveram presente em nossas vidas, na nossa formação como indivíduo. Acho que há uma tendência em culparmos a nossa “herança” pelas mazelas da vida e atribuir o nosso sucesso a nós mesmos. Mas talvez esqueçamos que, até os defeitos dos nossos pais, nos fazem ser quem somos. Hoje, mais madura, sou capaz de perceber que herdei do meu pai, coisas boas e ruins, e reconhecendo mais claramente em mim esses “defeitos”, tento combatê-los (muitas vezes sem sucesso).

 

Não tenho filhos mas se os tivesse, penso que os educaria de forma parecida com a que meu pai me educou, ainda que em alguns momentos tenha passado por sofrimento (típico dos adolescentes), hoje percebo o quanto aquelas exigências todas fizeram diferença na minha vida.

Vejo que muito além de qualquer bem material, herdamos hábitos (bons e maus), aptidões e valores. Claro que quando nos tornamos adultos podemos sempre refletir e decidir sobre o que queremos herdar. Sobre a genética não há poder de escolha, mas talvez a grande diferença da vida esteja em como lidamos com aquilo que nos foi deixado.

 

Leticia Silva

 

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7.11.16

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Foto: Brothers – Adina Voicu

 

A herança pode ser uma coisa fantástica, se falarmos daquelas comédias em que alguém fica milionário com uns milhões vindos de um tio-avô esquecido, ou de um primo em sabe-se lá que grau. Mas isto é o lado superficial ou fútil da questão, aquele que não é importante nem determinante para as nossas vidas.

A verdadeira herança é outra coisa, é quem somos e como somos e a compreensão que temos do mundo por causa daqueles que nos criaram e daqueles que passaram pelas nossas vidas.

Nem sempre são coisas boas, porque os outros são como nós, ou seja, não são perfeitos. Para complicar, a herança não é só feita de palavras e gestos. É muito mais o resultado do que observamos enquanto crescemos, a soma inexata dos exemplos que nos foram oferecidos enquanto crescemos e nos moldamos.

Interessa mais o que nos dizem ou o que fazem e o que nos fazem? Tem mais impacto o que vemos ou o que ouvimos? Há situações com um impacto tão profundo nas nossas vidas que nunca mais dele nos livramos.

Um filho que é fisicamente maltratado ou verbalmente abusado, como se torna numa pessoa meiga e gentil? Uma filha com uma mãe ansiosa aprende onde a ser calma e tranquila? O que nos ensinam pais, avós, tios, mentores e outros que tal, para nos preparar para a vida, a nossa vida? Não a que imaginaram ou esperaram para nós mas aquela que vivemos porque somos únicos e temos sonhos próprios, esperanças diferentes, aquela que nos faz bater de cara na parede muitas vezes, porque tem que ser e na realidade só aos trambolhões aprendemos qual o caminho que desejamos.

Herdamos manias, tiques, agimos muitas vezes de formas que nos tolhem, porque não podemos desiludir quem nos ajudou a crescer. Dizer não, ou apenas nada dizer, a quem nos fez nascer, nos mudou fraldas e deu a primeira papa, é muito duro. Sentimo-nos a falhar às suas expetativas e a ser mal-agradecidos. E quando a vida é madrasta e nem a infância foi simpática e amena, ainda assim estamos sempre em busca dessa aprovação. Como se sem ela não fossemos nada e nenhum dos nossos passos tivesse valor. Como eternas crianças, bem lá no fundo.

 

Aquilo que mais tenho procurado é ser eu mesma e viver a minha vida como desejo; é um caminho arriscado porque estamos mais expostos a críticas. E quando falhamos? Como dizia a minha avó, Deus nos livre e guarde. A dado momento pivotal da nossa passagem pelo planeta, temos mesmo que decidir se conseguimos, ou não, ser a ovelha negra da singularidade familiar.

Não tenho como negar que muitas recordações aconchegantes se estendem pela minha infância e adolescência; e depois há outras mais complexas e que, falando claramente, dispensava. Mas tudo isso é a minha herança e a partir dela já me construí e reconstruí inúmeras vezes. Não só com sucessos, nem sempre com sorte, mas com uma profunda convicção.

A nossa herança é tudo o que nos deram, mais do que tudo o que nós damos aos outros. Os que nos amam devem compreender isso. Os pais devem saber quando passar de redoma para malha de segurança; devem saber quando nos largar ou quando nos apanhar. Os irmãos devem saber quando passar a amigos em vez de rivais. O resto da malta deve saber quando nos deixar voar e respeitar a nossa essência.

Não é nada fácil, eu sei. Mas o Amor genuíno é assim.

Amor sem aceitação, não é amor. Mesmo quando parece.

 

Laura Palmer

 

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4.11.16

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Foto: Cemetery - 3345408

 

Algumas considerações acerca de heranças (de alguém que não percebe mesmo patavina do assunto):

 

Herança Familiar - Complicado, para afirmar o mínimo. A primeira entrada no Google remete-me para uma página da DECO. Dou uma leitura rápida no texto explicativo que acompanha uma foto de uma mão com um porta-chaves em formato de casa, deitado numa palma aberta. Património. Herdeiros. Sucessão. Bens. Direitos. Dívidas. Funeral. Atos religiosos. Testamento. Administração. Liquidação. Perfilhar. Deserdar. Quota indisponível. Aceitação tácita e Deus me livre. O castigo que a morte trás aos vivos não acaba na dor emocional. Evidentemente que nem todas as mortes são iguais e, em muitos casos, o consolo do coração serve-se do que se deixou. Noutros porém, tal como refere o texto citado, a inexistência de um seguro de vida é basto motivo para desconsolar e responsabilizar quem cá ficou. Sim, já ouvi afirmar: “quando me for, pelo menos não deixo a ninguém as minhas contas”. Reconheça-se que, como último gesto altruísta, a coisa não está nada mal. Há quem faça muito menos naquela tendência final de acertar contas com a vida e com os vivos.

 

Herança Patrimonial - Advém da anterior ou é uma parte da mesma. Confesso que não sei. Julgo ser TUDO aquilo que se deixa. Acho que, existindo diferença para a primeira, este TUDO não tem de advir de um familiar. É o caso típico e frequente da fantasia, em que aquele milionário sem herdeiros deixa em testamento tudo ao seu fiel mordomo. Isto, claro, depois da namorada, 40 anos mais nova, ter gozado o seu devido quinhão.

 

Herança Económica - Soa-me a algo político ou empresarial. Ou a algo semelhante a bode-expiatório. No caminho diário para o trabalho ligo sempre o rádio na Antena 1. Tenho a tendência masoquista (claro que sou português) de ouvir as notícias da atualidade, como se gosta de dizer. Evidentemente que as noticias são as da atualidade. As que já foram notícias, na sua decrepitude tornaram-se história. Mas já estou a divagar. Parece-me então familiar a expressão. A sua tradução em bom Português é (independentemente da cor da boca partidária que a produz), “está tudo uma merda mas a culpa não é nossa”.

 

Herança Cultural / Social - Peço desculpa por misturar as duas, mas as fronteiras das expressões são de difícil destrinça. A malta que pôs um gato dentro de um pote, pôs o pote no alto de um poste, pôs a base do poste em chamas (mais ou menos isto, perdoem-me qualquer imprecisão de tão sublime quadro tradicional) provavelmente será um exemplo espetacular do primeiro caso. Mais espetacular do que o próprio espetáculo contudo, terá sido o facto de pelos vistos ninguém ter sido condenado por tal. Ora aí está talvez um bom exemplo do segundo caso. Já vem de trás no nosso país (herança social) que a vida dos animais não vale um chavo. Vá lá que isso aparentemente está a mudar. Exceto quando é a RTP a fazer uns trocos e “serviço público” com a transmissão das touradas.

 

Herança Genética - É como um encontro às cegas. Com sorte nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem na tua vida romântica. Com azar nunca mais o esqueces e até pode ser o ponto de viragem da tua vida romântica. Ou como a roleta-russa. Mas já perceberam a ideia. Já aqui o escrevi várias vezes mas aqui vai mais uma. Trabalho há 15 anos com pessoas com deficiência intelectual e/ou multideficiência. O que posso dizer? A herança genética é tramada. Síndromes, mais síndromes e mais síndromes. Cromossomas, tinto, coca. Má nutrição, bagaço, cavalo, tabaco. E por aí fora. Diagnósticos difíceis de pronunciar, muitos deles com nomes de uns senhores estrangeiros. Não interessa muito. O rótulo é o mesmo, no final.

 

Mas aproveito para deixar à vossa consideração o seguinte: o rótulo não tem de existir mais que o necessário, dado que rótulos todos temos. Olhem para todas as pessoas como isso mesmo. Pessoas. Umas precisam de mais apoios e outras de menos. Todos temos direitos e deveres. Não deixem que a herança cultural e social de olhar para alguns como “coitadinhos” tolde o vosso juízo crítico da justiça social e relacional.

 

Herança Indivisa - Não faço ideia do que se trata. Nem quero saber. A não ser que dê jeito saber caso herde alguma coisa que se veja.

 

Rui Duarte

 

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2.11.16

Mother-Unsplash.jpg

Foto: Mother - Unsplash

 

Durante anos questionei-me a que lado da família me assemelhava mais, ao contrário da minha irmã mais velha que herdou o feitio e as feições do nosso lado paterno, e da minha irmã do meio que herdou a personalidade do nosso lado materno, nunca consegui identificar quer em mim quer no meu irmão, semelhanças específicas com nenhuma das partes. Com o passar dos anos fui-me dando conta da “hibridez” da minha personalidade, ao mesmo tempo que encetei uma corrida contra o tempo para puder trabalhar tudo aquilo que herdei e que não gosto ou me faz mal.

Existe uma linha muito ténue entre aquilo que herdamos e o que queremos herdar, seja em termos de caraterísticas, ou em termos de código genético. E nesse contexto a genética – que é a mais universal e legítima das heranças - tanto pode maravilhar como pode condenar.

A genética é a mais ambígua das heranças: por um lado recebemos as caraterísticas menos boas, as doenças e até as situações mal resolvidas dos nossos ascendentes, que inevitavelmente, acabam por desaguar em nós. Por outro lado, exibimos com orgulho as qualidades que nos passam, e que tanto apreciamos: mesma cor de olhos, a mesma frontalidade, a mesma humildade, etc., e no outro reconhecemos traços físicos e de personalidade que nos fazem recordar, com alegria, quem já não está e assim louvar a abençoada genética.

É então que surge uma necessidade de divisar aquilo que somos fruto do que herdamos e aquilo que nos construímos para ser, em alguns casos combatendo o que não queremos ser.

 

No entanto, meus caros, muito mais importante do que preocupar-me com aquilo que sou através dos outros e do que sou através da minha individualidade, é trabalhar o meu todo para deixar o melhor de mim à Herança Maior que recebi e que deixo ao mundo: o Sol em forma de um rapazinho que me foi legado. O meu filho sim, é a maior e mais valiosa de todas as heranças que algum dia podia ter sonhado, e, sem dúvida, a mais nobre que posso deixar ao mundo, não porque tem uns incríveis traços de personalidade e jeitos familiares que me transportam no tempo, mas porque me resgatou às sombras, fez crescer em mim a necessidade de ser melhor a cada dia, e porque me ensina mais do que algum dia sonhará.

 

Ana Bessa Martins

 

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31.10.16

Serra do Marão - Grupo de Montanhismo Vila Real.j

Foto: Serra do Marão - Grupo de Montanhismo Vila Real

 

Quando o meu pai morreu, disse-me: “deixo-te por herança o Marão”.

Não entendi bem isso de eu herdar uma serra tão grande! Ainda por cima, sempre ouvira dizer: “grande é o Marão, e não dá palha nem grão”. Que iria eu fazer com tanta fraga infértil?

Mas também ouvia dizer, desde pequenina, que para cá do Marão, mandam os que cá estão. Por isso respeitei o meu pai e aceitei a herança; lá fiquei com a Grande Serrania. Enchi os olhos com ela, ou melhor, com a parte que me era possível ver dela, lá da minha aldeia pendurada na colina sobranceira mais bonita do Douro Sul. Enchi os olhos dela nos invernos em que se cobria de branco agreste, nas primaveras em que se enfeitava de neblinas finas, nos verões em que namorava o pôr-do-sol, nos outonos em que deixava o Douro estender-lhe aos pés uma colcha de vinhedos avermelhados.

A parte que me era dado ver já me era herança suficiente, é justo que se diga: o meu horizonte já era largo e abarcava o perfil mais bonito do Marão – sobranceiro às colinas adocicadas pelo rio e domadas pelo Homem, o Marão impunha-se em duas grandes elevações quase simétricas, como dois seios eretos. Até assim, de tão longe e quando a transparência do ar era fina e o sol faiscava sobre as fragas, conseguiam-se distinguir as escarpas aguçadas das suas ravinas! Para que queria eu mais? Aquele era o “meu” Marão. O que o meu pai me deixara, o que eu me habituara a ver todas as manhãs, aquele que, nas tardinhas quentes de verão, refrescava as sombras da minha rua.

 

E fui crescendo assim, dona, por justo olhar e por legítima herança, da serra que me viu nascer. E era feliz.

Depois cresci e fui mudando de lugar, de miradouro, de ponto estratégico, de ponto de vista. O Marão, em vez de engrandecer, apequenou. Mas o mais estranho é que descobri que a minha joia herdada mudava de forma, de cores, de orientação solar, sempre que eu me movia, na minha busca de vida além-herança.

E agora? Aquilo era tudo meu? Sim, se o meu pai me disse: “pega, o Marão é teu”, e se o Marão era aquilo tudo, aquela extensão irregular, policromática e temperamental de granitos e xistos, searas e vinhedos, pastagens e baldios, tojo e rosmaninho... meu Deus, tanta paisagem! Tantos contornos, tantas feições! Eu era rica! Eu era rica e tinha-me contentado tanto tempo só com aqueles dois enormes seios de pedra defronte dos meus olhos!

Bem, era tempo de reclamar o que era meu: fiquei com tudo. Governei todas as estradas, todos os cumes frios, todos os vales abruptos, todos os montes áridos e todas as colinas férteis, só com o olhar! Ah, agora sim, o Marão todo era meu, de pleno direito! Agora podia conquistar o mundo!

 

Mas o mundo depressa me disse que não se herdam montanhas que os olhos dos outros também possuem – só herdamos a parte delas que sabemos delinear de cor. O resto é paisagem. O resto corre, no sentido inverso dos nossos passos errantes. O resto muda, consoante a necessidade dos pastos existenciais. O resto, esquecemo-lo, ao capricho dos sonhos de ir mais longe.

Dona, dona, fui descobrindo, eu era só da memória precisa do que amava: aquele familiar perfil, entre agreste, maternal e pedraria, que eu podia tocar com os meus olhos, como se o percorresse com os meus dedos; aquele tesouro imaterial único, só meu, que me servia de paisagem, à data da minha herança. À data da morte do meu pai.

Pai, meu pai. Deixa-me guardar nos olhos tudo o que me deixaste, e na alma, tudo o que eu hei de deixar aos meus filhos.

 

Teresa Teixeira

 

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28.10.16

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Foto: At The Bloodbank – Lynn Greyling

 

Decidira ter o privilégio de doar uma parte do seu sangue. Tivera conhecimento que era considerado dador universal. O seu tipo de sangue era O Rh negativo, por isso qualquer pessoa poderia receber o seu sangue, quer tivesse antigénios do tipo A, B ou AB e como o antigénio Rhesus estava ausente, poderia também ser recebido por todos o que tinham Rh positivo ou negativo. Compreendera que o seu sangue poderia ser partilhado sem restrições por toda a humanidade.

Enquanto observava o seu precioso líquido cor de rubi deslizar pelo tubo que lhe saía do braço, deixou-se afundar no nevoeiro dos seus pensamentos.

 

Vê-se rodeado numa nuvem alva de algodão. Consegue perceber os contornos humanos através da cortina de névoa, da voz que se lhe dirige. Diz-lhe a voz envolvente e carinhosa, que ele é um dos escolhidos para acordar a humanidade do negro pesadelo em que vive. É-lhe revelado que chegou o momento dos humanos terem consciência da sabedoria do universo e perceberem que cada ser humano é apenas uma partícula que faz parte de um imenso organismo infinito.

Acorda subitamente, com os movimentos de reanimação da enfermeira que entretanto já tinha guardado a sua vital dádiva.

Sorriu. Sentia uma paz imensa. Com um olhar profundo e sábio, as suas palavras flutuam amorosamente:

 

Somos todos um único ser infinito. O que corre nas veias de todos os humanos é o fluído da vida que nos liga uns aos outros, sem escolher raça, género, religião… Trazemos dentro de nós, a correr-nos nas veias, a herança de todos os nossos antepassados, desde os primórdios da vida em todo o universo. Somos todos um. Os herdeiros da Vida e da Sabedoria Universal.

 

Tayhta Visinho

 

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26.10.16

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Foto: Mom - Unsplash

 

Quando saímos com os nossos pais, é frequente cruzarmos caminho com pessoas que já não encontramos há algum tempo. E passamos todos pelo mesmo: paramos para duas de treta e cria-se ali aquela conversa de circunstância, sem mais nem porquê, que passo a descrever:

 

(depois de sabermos como a pessoa está e como vai a vida)

- É a tua filha?

- É, sim.

- Que idade é que tem?

E a filha atira um número com prontidão, ao que o senhor/a responde:

- Ai está tão crescida! Como o tempo passa…

- O tempo passa por nós, também passa por eles.

- Ainda me lembro dela pequenina, quando a levavas a x sítio. É a cara chapada do pai, não é?

- Não há consenso: alguns acham mais parecida com o pai, outros mais parecida comigo (mãe).

- Ai não! É pai! É igualzinha ao pai!

 

Invariavelmente a conversa é sempre a mesma, apenas muda o interlocutor com quem nos cruzamos. E no decorrer da conversa nós, filhos, ficamos com aquela cara sem graça a achar que temos o dom da invisibilidade, qual manto do Harry Potter, pois travam aquela conversa como se não estivéssemos presentes.

As opiniões divergem e, sinceramente e fisicamente falando, não me acho parecida nem com o meu pai, nem com a minha mãe. Reconheço em mim (e aprecio até!) pequenas caraterísticas físicas de um e de outro, mas a herança genética não é algo que tenha demasiada importância. (Lembro-me de quando era mais nova questionar se seria adotada! Parvoíces!) Passaram anos: mudei, obviamente; apesar de a imagem do espelho não me apresentar, ou de não fazer notar aos meus olhos, as diferenças entre eles.

Não sei quanto de mim veio do meu eu, da minha essência; em igual dúvida, não sei quanto de mim foi herdado dos meus pais e avô. Reconheço-me na família Ribeiro tanto quanto da família Sousa, mas de diferentes formas.

Vejo em mim a força, o sentido prático, a determinação, a perseverança e o sentido de humor (e a gargalhada) da minha mãe; revejo, como que refletido no espelho, a sensibilidade, a bondade, o lado afetivo e a capacidade de sonhar do meu pai. E a teimosia e “resmunguice” de ambos! A timidez, agora que penso nisso, veio mesmo de mim.

Como essas caraterísticas coexistem? Lamento, não sei também! Talvez entrem em conflito, não raras vezes; ou talvez tenha herdado o melhor de dois mundos. Os meus dois mundos. E é essa a minha maior e melhor herança: os meus dois mundos!

 

Sandra Sousa

 

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24.10.16

Suitcase-JoseAntonioAlba.jpg

Foto: Suitcase – Jose Antonio Alba

 

No fascinante universo da Psicoterapia existe um método terapêutico deveras interessante, por espelhar as falhas que existem no sistema mais importante na vida do indivíduo - a família.

Basicamente é uma terapia que assenta em três pilares muito simples:

- Necessidade de pertencer a uma família (muitas vezes em nome desta necessidade sacrificamos a nossa felicidade, para não sermos excluídos);

- Necessidade de ordem (quem nasce primeiro na família tem precedência sobre quem nasce depois);

- Necessidade de Equilíbrio (aquilo que se dá e recebe deve estar em equilíbrio numa relação para que haja paz).

Segundo o criador deste método terapêutico, onde existirem pessoas, estas forças estarão sempre a atuar para que haja equilíbrio entre elas.

 

Porém, nem sempre assim é. O que acontece é que, para além de herdarmos os olhos da mãe e o otimismo do pai, a casa do avô e a enxaqueca da avó, nós realmente herdamos as situações mal resolvidas também, pois a história da nossa família acaba por ser herdada por cada um de nós, existindo uma espécie de transmissão cultural que nos afeta mais profundamente do que é possível imaginar.

Por amor e pertença, podemos repetir um padrão familiar que nos desequilibra e leva à tristeza ou à doença, muitas vezes de forma inconsciente. Quando um dos três pilares é transgredido, resulta em sofrimento para a pessoa.

Este método propõe a possibilidade da pessoa compreender e integrar dentro de si a carga familiar que herdou, portando, permitindo a capacidade de colocar na ordem certa o próprio lugar dentro da família e uma certa ordem interior.

 

A questão que coloco é se seremos nós assim tão livres e independentes quando, na verdade, temos tantas cordas e amarras invisíveis que nos amarram ao passado e aos membros familiares que nos antecederam. Serei então aquilo que sou, ou um espelho da minha família? Serei assim tão independente nas decisões que tomo ou é a voz da família que ecoa em mim e escolhe?

 

Nota: Falo, no texto, sobre a Terapia das Constelações Sistémicas Familiares de Bert Hellinger.

 

Sara Almeida

 

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17.10.16

Angel-Emocje.jpg

Foto: Angel - Emocje

 

Regresso do oitavo funeral, na minha família, em menos de quatro anos. Apesar da razão pela qual nos encontrámos, foi bom abraçar aqueles com quem raramente estou, conhecer alguns novos membros e constatar as mudanças, mais ou menos evidentes, em cada um de nós. Na verdade, com um ou outro parente, precisei de alguns segundos, do registo da voz, de um pormenor, para perceber com quem estava a falar. Achei-os diferentes da imagem que tinha deles, não os reconheceria na rua se com eles me cruzasse. O tempo passou para todos nós.

Eu tive sempre parecenças fisionómicas com este lado da família, por isso me surpreendi com a dúvida levantada por um primo, para quem eu havia sido sempre a “cara” do meu pai: “tem graça… mas tu agora és parecida com quem..? ah, pois, estou a ver, olha que engraçado… estás igualzinha à tua mãe”. Passaram-se quatro décadas: posso eu ter mudado tanto, em tão pouco tempo e não me ter dado conta disso; pode o mesmo ter-se passado com alguns dos familiares que hoje revi e que conheci de outra forma? Arrisco dizer que alguns de nós terão partilhado este pensamento. Tentámos, apressadamente, “por a conversa em dia” mas sabemos que, nestes encontros, ficamos sempre pela versão mais sucinta do resumo das nossas vidas.

Podia partilhar muito do que vivemos nos últimos dias mas, dissecar o luto dos meus familiares, não tornaria o processo menos doloroso ou mais rápido. Na realidade, nenhuma palavra pode descrever, fielmente, a intensidade do que cada um de nós sente neste momento, no somatório de tantas perdas. Falarmos das nossas parecenças físicas ou de caráter foi, talvez, uma forma de não nos concentrarmos na razão pela qual estávamos ali reunidos. Quando nos despedimos, as opiniões sobre “quem era parecido com quem” não eram unânimes, mas não nos digladiamos. Hoje pesou a finitude da vida, mais do que a herança genética.

 

Deixo-me embalar pelo som do comboio em que viajo, precisava dessa paz antes de entrar em casa. Aceito o meu próprio processo, concentro-me nele, rompo esta bolha de sensações e pensamentos ambíguos, ainda que os demais permaneçam herméticos na sua dor. A pergunta, insistente, dentro da minha cabeça: sou parecida com quem, afinal? Na minha essência, ou naquilo em que me reconheço, o que é meu, o que foi herdado?

Apesar de todas as minhas dúvidas, quando ponho o pé fora do comboio, caminho sem vacilar. Não sei se é a força que me move ou uma imensa vontade de viver. Não sei que reboliço é este que sinto dentro de mim, uma imparável energia que transborda do meu corpo físico e voa, livre, no firmamento. Não sei serenar os batimentos do meu coração, não sei acalmar a corrida. Não sei que braços me acolhem, que lágrimas partilham a minha dor. Não sei tanta coisa…

Sei que sorrio sem pensar. Que rio com vontade e choro como se não houvesse amanhã. Sei que comigo caminham o medo e a felicidade, a dor e a paz, a incerteza e a força, o amor e a amizade. E algo que não consigo explicar, ou arrancar de mim, que me empurra para a frente, mesmo quando não sei para onde vou.

Sei que sou apenas humana, que sou falível e frágil. Que tenho dias em que nem o diabo me quer para companhia. Sei que a minha psique será a minha melhor amiga e a minha pior inimiga, sempre que eu deixar. Ninguém me poderá fazer tanto mal quanto consigo fazer a mim própria… Sei que, aqui e ali, vou cair do cavalo e que ficar lá estendida, não é solução. Sei que são nuvens muito negras, as que de mim zombam quando eu toco o chão. Sei que vou errar e errar, e errar de novo, e aprender. E crescer. E ser cada vez melhor.

 

Sei que sou feliz. Que sou uma abençoada pelas coisas extraordinárias que tenho vivido. Pelas pessoas extraordinárias que partilham a minha existência. Pelos momentos extraordinários, pelos sentimentos avassaladores, que vivem debaixo da minha pele. Pela Vida em mim. Pelas Vidas comigo. Pela Vida em Nós. Quero cantar, mesmo quando a voz se me embarga. Quero dançar, ainda com mais vontade, quando mais dói existir. Quero aprender, conhecer, beber do conhecimento de almas fabulosas, de vidas, que uma vida inteira não chega para conhecer. Quero rir. Quero abraçar. Quero a plenitude de uma vida que não se esgota, que não perece. Quero os sentidos todos num só. Quero o pulsar da Alma em cada célula do meu corpo. Quero pedir, com humildade, que na minha existência neste Cosmos, eu possa sentir tanto…

 

Sei o que trago do meu pai e sinto-me profundamente honrada por ter o melhor dele. Mas, neste dia de luto, é a minha mãe que reconheço em cada um dos meus sentimentos. É dela a resiliência, a perseverança, a capacidade de sorrir no meio do caos, a força e a serenidade; mesmo que ela não se reconheça atualmente nestes atributos. Não sei se a minha fisionomia se assemelha à dela ou não, mas sei que herdei da minha mãe aquilo que me estrutura enquanto ser humano, aquilo que me faz querer ser, sempre, melhor pessoa. Herdei dela a capacidade de sonhar e de dar sentido aos dias, sem a ilusão de quem anda à deriva, mesmo quando dói muito.

Até ao dia em que se reúnam em torno do meu caixão, luto, amo e sigo em frente, honrando a dádiva da minha mãe e dos meus antepassados, e a singularidade da vida. Por mim, pelos que já partiram e pelos que ainda caminham comigo. É esta a herança mais preciosa que espero deixar aos meus filhos.

 

Alexandra Vaz

 

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