24.8.16

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Foto: Girl - Adina Voicu

 

Sim, sim, o Homem é ele próprio e a sua circunstância. Causa e consequência, como o jogo, lembrais-vos? Verdade...

 

Há, portanto, aqui uma interação, um jogo entre quem influencia o quê e o que condiciona quem.

Há um sortido grande, quase sempre, maior ou menor de opções, de escolhas que dependem de nós, são de nossa responsabilidade, a partir das quais os caminhos podem levar a destinos muito diversos. Dramatizando, podem ser quase que opostos.

As escolhas, no entanto, não são irreversíveis, ainda menos definitivas. Mesmo que algumas decisões, ou indecisões, nos tenham encaminhado para um beco, querendo e procurando há de encontrar-se uma saída, de modo a achar vias mais airosas, rápidas, largas e bem frequentadas.

É assim, pois, que jogo pode ser divertimento, vício, justo, alienação, passatempo, lícito, ilícito, olímpico, brincadeira, desporto, feliz, infeliz, sujo, vitória, derrota... Depende de como se joga.

 

Há que ir a jogo. Há momentos em que se controla mais ou menos o jogo, mas não jogamos sozinhos. Somos nós, nunca esquecer, mas também há os outros. Todos somos sempre necessários para jogar. Atenção às regras, ganhar com batota que valor é que tem?

O jogo é em primeiro e em último lugar com nós próprios. Será possível fingir? De que vale varrer o lixo para debaixo da carpete? Joguemos limpo!

 

Jorge Saraiva

 

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23.8.16

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O programa Amigos do Ziki visa promover, nas crianças do pré-escolar (5 anos), a capacidade de manter uma boa saúde mental ao longo da vida.
Para o conseguir, treina, logo nos primeiros anos de vida, competências de identificação e comunicação de sentimentos, competências sociais e a capacidade de lidar com sentimentos e situações adversas do dia-a-dia.
 
 
Saiba tudo sobre o programa no sítio do Amigos do Ziki na Internet e no Facebook.
Partilhe, divulgue, torne-se Amigo(a) do Ziki fazendo o seu donativo.

 

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22.8.16

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Foto: Chess – Alois Grundner

 

O cenário era perfeito. O sol, brilhante e intenso, não incomodava porque as copas das árvores coavam a dureza da luz e oferecia uma sombra convidativa ao descanso. Ele, sentado num banco, ia bebendo uma espécie de chá gelado e aguardava. Ela baloiçava-se numa rede presa a dois troncos e, não fosse o olhar fixo no tabuleiro colocado entre os dois, dir-se-ia que relaxava. Mas, um olhar mais atento e percebia-se que aquele era o confronto entre dois seres que se queriam derrubar. 

“Amar-te-ei até à eternidade!”. Disparou ela sem qualquer emoção na declaração de tão nobre sentimento. E enquanto mexia a rainha pondo-a a salvo de ser comida por um peão - no xadrez até os peões podem comer as rainhas - mirava-o pelo canto do olho. Um esgar no rosto e a espera pelo momento em que ele haveria de baixar a guarda, aproximar-se-ia e faria um gesto para a acariciar, sinal de que a declaração o tinha sensibilizado. Era então chegado o momento de recuar e de o ridicularizar como tantas outras vezes. Dir-lhe-ia que não há eternidade naquilo que se pode ver ou tocar e o amor deles, quando existiu, era palpável, não podia ser eterno. Tomou gosto pelo jogo em que transformaram o relacionamento. Definiram regras que infringiam constantemente; usavam as mesmas armas: provocação, humilhação e desamor. Se um deles se aproximava, o outro tinha que se por em guarda porque se se deixava arrebatar, o mais certo era ser magoado e humilhado.

Ele, como ela, sabia quão leviana era a declaração. Há muito que, falar de amor entre eles era ridicularizar a palavra e o sentimento. Desta vez ela sairia defraudada, não faria o jogo dela. Não foi sempre assim. Entendiam-se, amavam-se e conheciam a felicidade. Hoje continuavam unidos, mas fazia muito tempo que se tinham deixado. Continuavam unidos apenas e somente na infelicidade de já terem sido felizes.

 

Gostava de lhe comer a rainha. Pensava ele enquanto colocava o bispo na diagonal na esperança de que a soberana se pusesse a jeito. E, na ânsia de lhe desferir o golpe, não reparou que o cavalo, de um salto, se atirou ao bispo e o derrubou. O sorriso mal disfarçado da adversária irritou-o.

Como a odiava! A ela e ao jogo do toca e foge que tão bem sabia jogar!

A saída do bispo desprotegeu o rei branco, o sorriso dela era de triunfo quando gritou: “Xeque ao rei!”. Precipitou-se a comemorar o triunfo porque a torre, ameaçadora, fez “Xeque-mate” ao rei preto.

Foi a vez de ele sorrir e gritar: “Fim de jogo, querida!”.

 

Cidália Carvalho

 

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21.8.16

ZippysFriends Logo.jpg

 

O programa Amigos do Ziki visa promover, nas crianças do pré-escolar (5 anos), a capacidade de manter uma boa saúde mental ao longo da vida.
Para o conseguir, treina, logo nos primeiros anos de vida, competências de identificação e comunicação de sentimentos, competências sociais e a capacidade de lidar com sentimentos e situações adversas do dia-a-dia.
 
 
Saiba tudo sobre o programa no sítio do Amigos do Ziki na Internet e no Facebook.
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20.8.16

Writing-StockSnap.jpg

Foto: Writing – Stock Snap

 

Procuramos Articulistas para o blogue Mil Razões..., em regime de voluntariado.

Se tem vontade e se se sente capaz de assumir o compromisso da escrita de artigos originais em língua portuguesa, sobre temas da saúde mental, na perspetiva da pessoa comum, no seu dia-a-dia, se tem domínio da língua portuguesa e se é natural, ou vive num país de língua oficial portuguesa (preferencial) candidate-se aqui.

 

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19.8.16

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 Foto: Money – Michal Jarmoluk

 

Desde pequenina que tentam ensinar-me a jogar xadrez. Não sei porquê, nunca consegui ter grandes resultados… Quer dizer, sei: não me interesso pelo jogo, esse jogo. Talvez por ser um jogo de calculismo, estratégia, frieza, análise do pensamento do outro para conseguir prever o que este irá fazer.

No entanto, na vida é isso que faço, tenho que fazer. Se não fizesse, como conseguiria pagar os impostos? Sim, tenho que prever todas as despesas, o meu adversário são as despesas. Tenho que pensar num adversário para conseguir focar os meus esforços de modo a vencer o dia-a-dia.

 

Ao longo dos anos fui-me apercebendo que as pessoas não são adversários, embora algumas tentem. São apenas peões que vão surgindo e só têm força e impacto nas nossas vidas se deixarmos. Claro que quem chega com boas intenções pode causar o impacto que pretende mas, infelizmente, a maioria chega para tirar o melhor proveito para si e vê-nos como meros peões para a sua própria vitória, alguns até como os verdadeiros adversários.

Houve tempos que também pensei assim… Mas, tal como com o xadrez, não sei jogar esse tipo de jogo com pessoas. Gosto mais de ser quente e natural, sem estratégia de relacionamento, apenas eu própria. Se fosse um jogo de xadrez, em vez de “Xeque-mate!” diria “Churrasco?”.

 

Mas o que não são pessoas sim, parece uma força do oculto que ninguém vê… Com essa sim, já consigo ser calculista e tento ser gélida para não deixar que me faça xeque-mate. Mas isso custa-me imenso… Admiro quem consegue ser indiferente ao bem-estar só porque todas as criaturas do mundo merecem. Faz-me confusão estar bastante bem na vida, de bem com tudo, e lá vem uma despesa extra por um azar qualquer e ainda nos cobram imposto por esse azar. Resta-me aprender a jogar esse tipo de jogo…

 

Sónia Abrantes

 

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17.8.16

Hand-Falco.jpg

Foto: Hand – Falco

 

Em tempos em que a cooperação entre todos é mais necessária do que nunca, temos necessidade de interiorizar aspetos que nos liguem uns aos outros. (Re)aprender a viver em conjunto e com objetivos comuns, desperta em nós a necessidade de nos (re)descobrirmos e de nos (re)educarmos. O individualismo deixa de ter protagonismo e sentido. A proposta passa por valorizarmos o que os outros têm a oferecer no que diz respeito à confiança, à lealdade, à solidariedade e à competitividade, entre outros aspetos, que fazem sentido para vivermos num mundo adverso capaz de criar relações interpessoais indesejáveis. Este trabalho de cooperação exige uma forma de jogo em que a estrutura, a coesão e as regras estão presentes. Existe uma coesão grupal, em que a homogeneidade grupal e a heterogeneidade individual se entrecruzam. Neste jogo coletivo existe um maior sentimento de segurança, criam-se laços de amizade, há divisão de tarefas, e o trabalho torna-se mais tranquilizador (é também a minha convicção). Despertam-se competências e valores, muitas vezes desconhecidos, nomeadamente o respeito pela heterogeneidade, no que se refere a formas de estar e viver a vida. Este respeito parece fazer cada vez mais sentido! Quando se vive a vida a trabalhar sozinho, sem perceber o outro como importante para nós próprios, este jogo de cooperação não parece ser um exercício fácil de enfrentar e de praticar. É muitas vezes um jogo perturbador, mas parece que vale a pena tentar!

 

Ermelinda Macedo

 

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15.8.16

Smartphone-StockSnap.jpg

Foto: Smartphone - StockSnap

 

- E cá estou eu, como sempre, para aqui sozinho. Ninguém quer saber de mim. Ninguém vem visitar-me. Ninguém telefona a saber se estou vivo ou morto. Tenho a minha música e isso basta-me. Mas já nem tenho quem ma grave. Também não peço a ninguém. Hoje ainda não falei com ninguém. Devo ter a voz de quem acabou de acordar. Mas hoje até acordei bem cedo. Sai e fui dar uma volta aqui, ao pé de casa, sem olhar para ninguém. Andei em círculo. Sinto-me só. Ela já está melhor, mas não sei quando regressará e eu fico aqui, sozinho. Nem me agradece por tê-la ajudado. E toda esta gente pergunta por ela. Hipócritas. Agora que ela está doente vão visitá-la e perguntam por ela, como se eu tivesse de responder. Não respondo; viro-lhes as costas. A minha vontade era mandá-los fo***. Por mim, que estou aqui, não perguntam, não querem saber, não querem saber de mim. De mim, eu que a salvei. Saca***! Eu, que tenho problemas, eu, que sofro tanto, eu, que já passei por tanto. Só eu sei… ninguém imagina pelo que passei e pelo que passo. Não é fácil ter o problema que eu tenho; mas nem imaginam. Ter a doença que tenho e ninguém quer saber. E ainda vem falar de mudança… Mudar o quê? O que é que eu posso mudar? Só se fosse estourar com esses tipos todos. Se soubesse o esforço que faço para me controlar… Mudar… Ninguém entende que eu sou assim, seus filhos ** ****? Não entendem que não há mudança? Não entendem que eu sou assim, que a minha doença é assim, que não há nada para mudar, nada a fazer, que é assim e pronto? Não entendem o que eu sofro. Há as pessoas normais, como você. E depois existo eu, que sou diferente, que sou assim. Mas ninguém quer saber, ninguém ajuda, ninguém facilita, ninguém me respeita. Nada vai mudar. Isto é assim. E eu não preciso de ninguém. Quero é que me deixem em paz, que não me chateiem. Tenho a minha música e pronto!

 

- Sabe que a forma como vê o mundo e as outras pessoas, a forma como se sente, a agressividade que sente, a violência que gostaria de provocar mas que consegue controlar, sabe que tudo isso faz parte da sua doença? Não será possível eliminar a doença, mas será possível controlá-la, mantê-la controlada e ter uma vida normal, em paz, gratificante, na qual se sinta bem, bem melhor do que é agora. Essa hipótese não lhe agrada? Se acredita que não há regresso a uma vida gratificante, então ela nunca existirá. Se acreditar que o regresso é possível, então a mudança poderá acontecer.

 

- Tretas! Tudo tretas. E os médicos são uns ignorantes e uns mentirosos. Foi por culpa deles que eu fiquei assim. Mas eu percebi a tempo e deixei de os sustentar. Não entendem que não há volta a dar a isto, que eu sou assim e que isto será sempre assim, logo, não vale a pena. Não há caminho de regresso! E eu estou bem, desde que me deixem em paz. Ouço a minha música e isso basta, não quero mais nada. Deixem-me em paz, cara***! Eu sei controlar a minha irritação, eu sei tratar de mim, eu sei o que devo tomar. Não vou é encharcar-me de pastilhas, como eles querem e depois ser um mer*** como eles. Não quero falar mais!

 

Fernando Couto

 

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8.8.16

Color-LoggaWiggler.jpg

 Foto: Color - Logga Wiggler

 

Ontem era o meu dia de folga e fui aos saldos. Bem, digamos que, por força do adiantado da época, fui mais às rebaixas das promoções dos saldos das promoções. Como gosto de andar sempre na última moda, tinha que ir aos últimos saldos, certo? Assim como assim, já que não vou de férias julguei justo permitir-me essa extravagância, com uns últimos trocados do que consegui poupar este mês.

Comprei um trench coat reversível: uma lindeza! De um lado, uma aguarela pintada de fresco, ainda escorrendo cores de rebuçados. Do outro, uma indefinível e elegante cor de tarde pardacenta. Ficou-me a matar, parecendo talhadinha para o meu corpo de modelo único. Sim, porque igual a mim, moi, je, já não se fazem hoje em dia! Que o digam todas as roupinhas maravilhosas que rejeitei lá pelas lojas, umas de tamanho excessivamente pequeno, outras de tamanhão escandaloso. Meu Deus, serei assim tão especial, singular, eu, com as minhas medidas de mãe-de-trazer-por-perto e de mulher-de-lazer-ao-largo?  Francamente, não sei se fique feliz ou infeliz com essa particularidade. Feliz, porque até me considero jeitosinha, para o gasto, e infeliz... bem, é óbvio, porque nunca consigo comprar uma roupa que me caia bem, nas “oportunidades”.  Adiante, que se faz cansaço.

Dizia eu que vim toda feliz, ontem, com o meu trench coat. Digam lá, soa bem, trench coat, não soa? Foi a menina da loja que lhe chamou isso. Diz que é chique, ainda por cima! Para mim, se querem que lhes diga, aquilo é uma gabardina, mas pronto. É muito bonitinha, a peça.  E reversível. O que dá um jeito que vocês nem imaginam. Ora pensem lá: um dia visto-a de um lado. Outro dia visto-a do outro. Duas peças pelo preço de uma. E por uma pechincha. Ah, eu sempre soube que trabalhar num restaurante de sol a lua era um desperdício. Eu devia era ter um cargo, assim um cargo importante no mundo dos negócios. Gestora financeira, ou assim. Ah, deixa-te de tretas, Maria Almerinda, já tens uma carteira bem difícil de gerir: a tua!

 

Ai, cheguei a casa tão feliz!... Mas depressa o meu estado de graça se reverteu. Outra coisa reversível que eu tinha lá por casa, era o estado de espírito do meu marido, convém dizer. Pois. Parece que ontem a vida não lhe correu bem, e desatou a descarregar em mim as frustrações do dia. E os últimos vapores de álcool do vinho a martelo lá da tasca da esquina.

Disse-me coisas irrepetíveis. Barbaridades duma injustiça acutilante. Vociferou, perdeu a razão. Não adiantou ripostar, argumentar, tentar todas as estratégias que tenho traçadas, nos velhos calendários de anos e anos, a ouvir e calar, a levar e perdoar, a esquecer para sobreviver, a aprender a ter a arte da reversibilidade. A verborreia não demorou muito a passar a tareia. Mais uma. Só mais uma nódoa negra para a qual eu teria hoje de inventar uma desculpa criativa, lá no trabalho. As crianças tinham-se, como de costume, encolhido no canto mais remoto da casa, tapando os ouvidos para não deixar entrar as memórias futuras. Depois dos gritos, o habitual bater violento da porta da rua. Depois dos habituais três ou quatro minutos cronometrados à lágrima, dois pares de passos trémulos ao meu encontro. Dois abraços, um ao nível das pernas, outro da cintura. Isto, quando eu não estava no chão, derramada num desconjuntado monte de ossos e de mágoas.

 

Ontem, foi também um dia desses. Ontem, foi o dia da irreversibilidade - a aguarela do meu lado cor de rebuçado, borratou, enegreceu, ficou irreconhecidamente ácida, dolorosamente maculada, ultrajada, corrompida. Sem outra face. Alguém chamou o 112. Não sei. Doía-me o ar que respirava. Doíam-me, sobretudo, dois pedaços de mim, que me levaram dali em lágrimas.

Vestiram-me a gabardina nova (quero lá saber se é trench coat!), do lado mais triste, para me cobrir o corpo rasgado. Fechei os olhos e, juro, dentro deles vi um festim de cores, tons pastel beijando flores doces, andorinhas felizes perseguindo brilhos de sol, azuis de céu pedinchando arco-íris. Uma tela magnífica, pintada por mim mesma, pela minha vontade de me virar do direito e sair para a chuva sem medo.

 

Hoje, os meus filhos vieram ver-me. E viram: é nos olhos que primeiro a alma se percebe. São meninos sensíveis, os meus filhos. Não é preciso contar-lhes que há coisas nesta vida que são irreversíveis: palavras que marcam indelevelmente, atos indignos, traçados de dignidade própria, caminhos de um só sentido, decisões sem alternativa. Nem explicar-lhes que só os objetos podem ser reversíveis, como uma moeda, um trench coat, uma porta. O resto, vou explicar-lhes, devagar, que é apenas redefinível: o ponto de vista, a posição estratégica, a escolha dos caminhos, a maneira de olhar, o modo de ver, o conhecimento de causa e das coisas. 

 

“Amanhã é outro dia.” Ah, o tempo, o tempo também é irreversível! As coisas que ainda temos que aprender, os três! Eles foram buscar a gabardina, quando sentiram o meu arrepio e vestiram-ma do lado garrido. Havia aqui e ali uma mancha de sangue seco. Vivo, paradoxalmente - mas isso só acrescentou ao quadro mais cor, mais força, mais caráter. E mais verdade.

 

Teresa Teixeira

 

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3.8.16

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Foto: Flowers – Jacqueline Macou

 

Procurando algum repouso sento-me na sala em tons de castanho. Sem dar consciência ao ato, os olhos começam por percorrer o espaço e encontram vários móveis que compõem a divisão, acrescidos de múltiplos elementos decorativos. Um mapa-mundo enorme, por exemplo, preenche as minhas costas. Do lado esquerdo, vários desenhos de Da Vinci, evidentes reproduções do trabalho de um génio ímpar. A riqueza de todo o conjunto do espaço encontra-se, contudo, nos elementos que carregam histórias. Um pequeno rádio que pertenceu ao avô da minha esposa repousa no topo de uma prateleira. Curiosamente, atrás de mim e abaixo do mapa-aguarela, encontra-se um maior que pertenceu ao meu. Dois bons exemplos de objetos tão iguais e com histórias tão diferentes. Que seja do meu conhecimento, um não terá passado do raio geográfico do grande Porto, enquanto o outro conta com uma passagem transoceânica.

A cabeça roda ligeiramente para a esquerda e a consciência súbita da visão assalta-me o espírito. E o corpo. O coração sobressalta-se (o que acontece quase sempre), quando revejo a fotografia dos meus avós.

 

Numa humilde moldura de uma cadeia sueca de mobiliário, uma magia de 10x15 cm rompe com o tempo e com o espaço. De modo automático e descontrolado algo me acontece no peito e a seguir na garganta. E a seguir nos olhos. Rompe, na maioria das vezes, no meu rosto um sorriso tímido e molhado, banhados que são meus lábios pelas lágrimas que agora caem. São estados mistos, confesso. A primeira vaga é a da tristeza. De já não os ter. De não os poder beijar e dizer que os amo. A segunda vaga é a da saudade. Da falta que me fazem e que me continuarão a fazer. A terceira vaga, a tal do sorriso torcido, é a do conforto e da felicidade. Conforta-me saber do papel que tiveram no meu crescimento e educação. Conforta-me relembrar o que fizemos juntos e a felicidade desses tempos e momentos. Momentos que já não temos. Momentos que foram momentos e que agora já não são. E que nunca mais serão. A irreversibilidade do tempo é isto mesmo. Se de alguma forma conseguíssemos repetir os momentos do passado, a sua riqueza nunca assim existiria. Por muito dano que nos cause no presente.

Na fotografia estou com eles. Tenho um de cada lado, com o meu avô à esquerda. O meu braço esquerdo repousa no seu ombro e o direito segura na pasta da universidade. A foto pretendeu ser uma recordação de quando vesti o traje académico pelas primeiras vezes. Os três sorrimos, desafiantes que fomos do tempo e do que ele nos ia roubar. Atrás de nós está uma camélia. Aquela onde eu e meu irmão íamos arrancar botões, antes de serem flores, apenas para ouvir a minha avó gritar connosco.

 

Rui Duarte

 

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1.8.16

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Foto: Arrow - Gerd Altmann

 

Escolhas. Escolhas que traçam um caminho, que caraterizam uma trajetória, que moldam a vida e a fazem avançar. É delas, das escolhas, que se vive. Opções que ora estão certas, ora estão erradas, mas que são irreversíveis. Sempre diferentes na forma como se vivem e, por consequência, irreversíveis.

E se determinada escolha fosse escolhida em detrimento de outra que acabou por originar arrependimento? E se não tivéssemos que escolher? E se as escolhas se tornassem impossíveis? Ou seja, e se houvesse a oportunidade de não escolher?

“Tu tens que fazer a escolha certa. Enquanto tu não escolhes, tudo contínua a ser possível.”

Para quê e porquê escolher? “Porque eu sou eu e não outra pessoa qualquer?”

Um mundo onde pudéssemos viver todas as vidas possíveis e imaginárias e onde todas as possibilidades se manteriam em aberto. Nada seria irreversível. Várias dimensões paralelas coexistiriam, dimensões onde o ser humano se poderia multiplicar em diferentes “eus”.

“Cada escolha é a escolha certa. Tudo poderia ser qualquer outra coisa. E teria tanto significado como qualquer outra.”

Um mundo louco, por certo, onde sonho, realidade, imaginação e ilusão se confundiriam; um mundo onde a palavra “sonho” perderia dimensão e significado.

O que seria um sonho nessa pseudo-realidade?

 

Nesta dimensão, na realidade em que vivemos, cada escolha é também a escolha certa. Ainda que irreversível. Ainda que possa ser a escolha errada. Foi essa escolha que te fez quem és hoje; foi ela que te fez (querer) ser sempre melhor, como ser humano.

“Na vida só temos um take, se estiver mau temos de o aceitar.”

O que dá sentido à vida é o caminho percorrido. Ainda que a meta não seja exatamente aquilo que idealizaste, o que enriquece e lhe dá sentido são as escolhas tomadas ao longo deste percurso e as experiências proporcionadas por tais escolhas. A vida, seja ela qual for, valerá sempre a pena ser vivida.

 

Sandra Sousa

 

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29.7.16

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Foto: Mouth – Gianni Crestani

 

Diz-se que existem três coisas que, quando partem, nunca regressam, designadamente a palavra proferida, a pedra lançada e a oportunidade perdida. As caraterísticas materiais e formais destes objetos, em sentido restrito, conferem certa qualidade que adjetiva a ação, assim, dependendo do impacto causado, nada garante que haja uma segunda vez, a menos que o sujeito a crie para se retificar e seja entendido como tal.

Todavia, é inevitável que ocorram estes incidentes, quer seja por ignorância, desinteresse, ou falta de atenção, nalguns contextos mais propensos à aceitação do risco a prediposição para errar é, mais do que a assumpção da natureza humana, uma abertura para o aprendizado num processo de transformação da matéria de forma criativa. O caminho para a inovação ou desenvolvimento implica cometer erros através dos quais aprendemos a lição e melhoramos a nossa prestação nas ocasiões futuras até acertar, numa sequência de tentativas incertas.

Numa aldeia cada vez mais global, em que o espaço transcende a dimensão física, perdem-se as referências e conteúdos locais devido ao imperialismo de protótipos externos que ganham relevância devido ao descohecimento ou fraca consolidação dos modelos locais. Essa baixa compreensão e desinteresse pela cultura local é campo fértil para a aceitação de ideias rotuladas de ocidentais por alegadamente serem melhores que as locais.

Uma ideia deve ser tratada como tal, um ponto de partida, exigindo algum rigor, profundidade e cuidado, o que implica uma apreciação prévia antes de passar a fase de aceitação ou refutação. Pelo método científico o pesquisador, partindo de uma inquietação válida e conhecida, define pressupostos estruturalmente consistentes e com base em instrumentos robustos recorre ao campo para recolher dados imparciais com vista a sua validação face aos pressupostos previamente definidos, e assim poder emitir uma opinião materialmente relevante.

Para alguns a especulação alimenta a ânsia pela verdade, para muitos a especulação confunde-se com a verdade, pois não se permitem aprofundar as matérias muito menos despender um processo mental, nomeadamente de investigação, explorando a arte de pensar nas dimensões de perguntar e de duvidar, e daí formar uma opinião sólida e própria que resulta da consolidação do conhecimento gerado neste processo.

 

É interessante notar a força da especulação que ganha supremacia num ecossistema em que o conhecimento não é prioridade, à medida que for sendo repetida de forma ressonante ofusca a intuição humana, ganha contornos de verdade e levará algum tempo até que a verdade absoluta se sobreponha e recupere o seu lugar.

Não é de estranhar que vulgaridades encobertas pelo populismo tenham alguma preponderância relativamente à verdade, é o mundo de quem fala mais alto ou mais depressa. A franqueza com que é proferida uma verdade com algum nervosismo à mistura fragiliza a antítese, a menos que haja um juízo competente, independente e imparcial para neutralizar a subjetividade e focar-se no objeto avaliando não só as palavras, mas também o contexto em que se insere e a linguagem corporal. Com algum ceticismo diria que, enquanto houver espaço para a manipulação do processo, os meios podem justificar os fins no curto prazo, mas a verdade revelar-se-á.

 

António Sendi

 

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27.7.16

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Foto: Sunrise – Claus Heupel

 

Gostaria de pensar que no momento de partir, seja em que dia, hora, idade for, que a vida, no geral, valeu mesmo a pena ter sido vivida. Sentir que me cruzei com as pessoas certas, que estive nos lugares certos, que fiz as escolhas certas… enfim, gostaria de pensar assim. Na verdade, se partisse agora, sentiria que no geral, tive uma boa vida, mas para ser franca, cruelmente franca, há erros que cometi. Já houve decisões que foram um tremendo erro, já disse coisas que foram totalmente absurdas, já tive pensamentos negros, já estive nos lugares errados, já calei quando devia ter falado, não defendi quando devia ter defendido, não ajudei quando devia ter ajudado, já me ri quando devia ter sentido compaixão, já acreditei em palavras que eram ilusórias e já neguei o que podia ter recebido… tantos erros… e como o Tempo é Irreversível, não posso visitar o passado para remexer no que já foi. Mas posso mexer no Agora. E se o passado é irreversível, fico muito feliz por, a cada dia que acordo, poder mudar o Presente… e o Futuro. Que bênção que é cada dia! Que bom que é saber que Hoje posso ser bem diferente. Que posso, em situações idênticas às do passado, fazer toda a diferença. E é por isso que apesar de existirem situações que não posso mais mudar, há algo que é Reversível: posso não ter o poder sobre o que me acontece, mas tenho o Poder de reagir com mais sabedoria ao que me acontece! E o Irreversível pode, hoje, ser um trampolim para me tornar num Ser melhor.

 

Sara Almeida

 

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25.7.16

Logo-GerdAltmann.png

Foto: Logo – Gerd Altmann

 

Descobri a dificuldade em encontrar algo na vida, ou no mundo, que seja irreversível, e não encontrei. Num primeiro olhar achamos que a morte e o tempo são irreversíveis. Tudo me surge como sendo reversível em algum momento ou circunstância, o que me proporciona uma sensação de tranquilidade na existência.

Quantos já ultrapassaram o limbo que separa a vida da morte e foram resgatados desse túnel luminoso que dizem conduzir a uma paz eterna! Os fusos horários apresentam-se como uma forma divertida de viajarmos no tempo. Podemos avançar ou recuar no tempo, pelas 24 fatias da Terra, tendo como referência o meridiano de Greenwich. É-nos oferecida a oportunidade de repetir minutos ou horas já vividas, ou a possibilidade de saltar no tempo sem desfrutar desse tempo residente de um qualquer fuso horário do nosso passado.

Quantas vezes no percurso da nossa própria vida, reconhecemos períodos ou fases que nos transmitem a sensação de estarmos a reviver algo que já tínhamos experienciado anteriormente. Como se de uma espiral se tratasse, parece que a vida nos desafia a reexperienciar a mesma situação com uma nova roupagem, talvez com a intenção de nos fazer aprender e evoluir para um patamar acima. Tal como a cadência de noite e dia, a sequência das estações do ano, primavera, verão, outono, inverno, primavera… em que cada instante parece idêntico ao anterior, deixando-nos atordoados nestes movimentos de rotação e translação.

 

Prefiro encarar a irreversibilidade como sendo uma convenção utópica, castradora de sonhos e de aprendizagens, inibidora do desenvolvimento e da evolução. Porque a vida é feita de avanços e recuos, aprendizagens e repetições, de segundas oportunidades!

 

Tayhta Visinho

 

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22.7.16

Apple-PublicDomainPictures.jpg

Foto: Apple – Public Domain Pictures

 

Certas coisas na vida são mesmo irreversíveis. Simplesmente não podemos voltar no tempo e apagar palavras que foram ditas (ou dizer as que não foram), não podemos voltar atrás em caminhos que percorremos, o passado não se muda. O que foi feito assim permanecerá. Mas certamente podemos optar por refletir sobre quem fomos no passado, sobre as coisas que gostaríamos que fossem diferentes, sobre tudo que deixamos para traz, inacabado. Há tantas coisas que simplesmente abandonamos pelo caminho. Tantos sonhos que ficam esquecidos, mas quase tudo na vida é passível de mudar. Depende de nós, acima de tudo, querer mudar de verdade, ao invés de se lamentar pelo que já não podemos reverter. Perdemos imenso tempo a reviver aquilo que não podemos mudar e muito pouco a trabalhar nos nossos sonhos, a nos empenhar em sermos pessoas melhores, a nos dedicar a construir um futuro pelo qual sintamos orgulho. São as escolhas que fazemos hoje que irão sustentar o nosso caminho amanhã. Alguns hábitos são mesmo difíceis de mudar.

 

Acho que fazer dieta (por experiência própria) é um grande desafio. No mundo em que vivemos, as ofertas de comidas pouco saudáveis e tentadoras são proporcionais aos alertas de doenças que os maus hábitos podem nos trazer. Mas em algum momento, realmente precisamos ter claro qual caminho queremos escolher: o da saúde ou o da doença. Essa escolha não depende dos anúncios de TV, é uma escolha nossa, escolha essa que se confirma a cada refeição que fazemos. E isso se aplica a muitas escolhas da vida, acho que a todas. Pensar em quem queremos ser em poucos anos e insistir nisso, afinal o tempo passa e o passado não se muda...

 

Letícia Silva

 

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20.7.16

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Foto: Person - Petra

 

Podemos até saber o que queremos da vida, mas nunca o que esperar dela, tal como daquele colega de carteira meio incerto, que nunca percebemos se é mesmo nosso companheiro, ou se pela calada faz queixinhas de nós à professora, o mesmo que nunca sabemos se nas brigas nos vai defender ou ajudar a bater.

Deixa-me ser a miúda das tranças que te sorri com ternura, e cúmplice, te pisca o olho enquanto levas a reprimenda da professora, que te ajuda a tratar as feridas depois do pugilato com o Gudas do 9.º ano e ainda diz que da próxima vez é que vai ser! Ah, pois vai! Da próxima vez vamos fazer a folha ao Gudinhas!... Ideias que acalentamos naquele espaço do nosso coração em que a nossa criança interior ainda tem voz. Porque às vezes me fazes sentir assim: leve e sorridente, como uma miúda.

Seria bom se a vida se fizesse apenas de dança, sorrisos e afetos… Mas não, às vezes parece que faz até questão de nos atormentar e de não deixar que nos sintamos tranquilos. Nem felizes. Como se ser feliz não fosse vencer na vida, mas sim vencer à vida.

No entanto, essa mesma vida castrante que tão má sabe ser, acaba por nos trazer um punhado de coisas boas, que ficam, que amaciam e adoçam o caminho… Mas não as dá de mão beijada: há que saber segurá-las de mão firme para nada se esvaia entre os dedos. É onde te seguro: na palma, de encontro ao peito.

 

Ana Bessa Martins

 

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18.7.16

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Foto: Girl - Adina Voicu

 

No tempo e no espaço em que nos situamos, a nossa vida percorre o seu caminho num sentido irreversível. Para uns, é mais longa; para outros, é mais curta. Para todos, porém, atingindo o seu limite que lhes é imposto pela própria “Natureza” não volta para trás. É assim a essência da vida! Já diz a sabedoria do povo que “a primavera volta sempre, mas a mocidade não volta mais”, refletindo-se neste pequeno aforismo popular o caráter irreversível da vida. O relógio do tempo - se assim podemos considerar - que marca as várias fases da nossa vida, não para até atingir o seu limite. O presente sai do passado, o futuro sairá do presente. É a razão de viver no espaço que chamamos Terra, num tempo que é sempre o mesmo, por onde passa a nossa vida. Nele, passamos e vivemos com tudo o que nos é inerente, nesse tempo que é infinito, mas limitado temporalmente para todos nós. Todas as coisas naturais da vida, consideradas como naturais, ocorrem sempre num só sentido, numa direção irreversível, sendo por isso fácil reconhecer a ordem temporal com que acontecem. As ações irreversíveis são muito comuns na “Natureza”, pelo que devemos saber compreendê-las e aceitá-las, pois só assim estaremos no caminho certo da vida. Em contraposição, as atitudes de todos nós, enquanto dependentes do nosso arbítrio ou da nossa vontade, poderão, na maioria das vezes, ser revertidas quando assim se justifique e contribua para a afirmação da dignidade humana. É com base neste princípio e quando estão em causa os valores fundamentais da sociedade, que, sendo possível, devemos saber recuar, voltar ao princípio para corrigir as nossas atitudes e as nossas ações.  

 

José Azevedo

 

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15.7.16

Seagull-Unsplash.jpg

Foto: Seagull - Unsplash

 

Sabes, um destes dias – daqueles dias perfeitamente normais em que nada de interessante mereceria registá-lo - olhei para mim.

Não me olhei ao espelho (até porque raramente me olho ao espelho; não consigo encarar-me, percebes?). Olhei para dentro de mim, para a minha essência, para o meu ser. E não gostei do que vi.

Aconteceu de repente, sem que voluntariamente eu o desejasse. Eu estava apenas ali, na varanda, a olhar para a tarde que terminava sem pressas, enquanto uma gaivota espreguiçava as asas na pequena piscina em que se banhava.

E pelo seu caráter inesperado, este momento atingiu-me como um raio.

 

Primeiro, vi um vazio. Não um vazio emocional (Ah! as emoções! Poderia vendê-las aos molhos!), mas um vácuo intelectual, cultural, social.

Senti-me roubada, compreendes?!

Quem me retirou as convicções, pensamentos, os argumentos bem defendidos?

Quem me arrancou as minhas preferências, hobbies, vícios e manias?

Quem apagou aquilo que eu era e aquilo que eu projetava ser?

Um vidro lavado de uma janela é mais interessante. Sou transparente. Desapareci. (Conseguirás ainda ver-me?)

E pergunto-me se este será um caminho sem volta, se poderei ainda resgatar-me.

Todavia, neste momento, as únicas respostas que me surgem são aquelas que aparecem nos questionários para evitar um beco sem saída:

Nada. Não sei. Não respondo. Não aplicável.

 

Sandrapep

 

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13.7.16

Girl-AlexandrIvanov.jpg

Foto: Girl – Alexandr Ivanov

 

Costumava pensar que irreversível era a morte. E depois estive tão perto dela e percebi que sei lá se é irreversível ou não, porque na verdade não morri. Sei lá se é o fim, ou uma transformação, ou um passo para outra dimensão, ou o nada total. Não sei mesmo se é irreversível.

 

Irreversível é viver. Cada escolha que fazemos, cada decisão que tomamos, o modo como vamos moldando o nosso destino. Os passos que damos, os cursos que escolhemos tirar ou não, os empregos. O modo como cuidamos da nossa saúde e do nosso bem estar físico ou psicológico, se somos ativos ou passivos. E os imponderáveis, como um acidente de viação que nos incapacita para a vida e nos rouba anos de qualidade de vida. Irreversível é tudo o que fazemos porque tudo define a nossa história e o nosso percurso, quer queiramos quer não. Se tivéssemos noção disso muito cedo, acho que não nos mexíamos.

 

Mais importante ainda, irreversível é como amamos, quem amamos, o que fazemos com os nossos amores e afetos. Se os regamos e alimentamos ou se os levamos a definhar, a morrer. É o modo como acabamos por ser felizes ou infelizes porque menosprezamos amores, demos coisas por garantidas, fomos levianos, fúteis. Irreversível e perigoso é optarmos por ser egocêntricos e egoístas. Magoarmos aqueles que nos amam, isso sim, não tem volta. 

Por isso é que a espontaneidade tem que ser programada; somos tão dados a cometer erros graves que é preciso pensar. E, sobretudo, acreditar. Acreditar cegamente no amor, no companheirismo, na honestidade total.

Há riscos que podemos e devemos correr. Normalmente têm a ver com pessoas. Tudo o resto é secundário.

 

É por isso que dedico esta crónica à pessoa mais importante da minha vida, o meu amor. E ao nosso filhote. Porque aquilo que mais desejo é que, apesar dos tropeções e das dificuldades, o nosso amor seja para sempre irreversível.

 

Laura Palmer

 

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11.7.16

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Foto: Old People – Claudia Peters

 

Passou tudo tão rápido: as folhas no calendário, a vida, as sensações, as decisões que, hoje, nem sei se foram realmente minhas. Vivi no escrutínio divino sem sentir a humanidade em mim. Zanguei-me tantas vezes com o mundo, exigi a perfeição de quem sempre me rodeou – e eu nunca fui perfeito. Fui amado enquanto vociferava coisas sem sentido, fui amparado, mesmo quando caía sozinho. Tudo o que tive foi fácil demais, foi como soprar uma vela de aniversário num bocejo descuidado. Fiz planos, sim, muitos planos, para mim e para os outros, e vivi sempre na antecipação do momento seguinte - alguém tinha de se preocupar com isso, num mundo insano em que tudo andava à deriva. Havia de chegar o dia do descanso, o dia do lazer absoluto, o dia em que os filhos estariam arrumados, empregados e, se possível, felizes; o dia em que a Antonieta estaria também reformada e poderíamos fazer todas as viagens com que me atormentou, durante anos, até ao mais ínfimo detalhe. Mas agora, agora não era tempo para lamechices ou diversão, agora não. Agora era preciso ser racional, ter a cabeça no lugar, fazer dinheiro, garantir o sustento da família. Mais do que isso: era preciso assegurar o sucesso da família, o bom nome, o respeito de todos. 

 

Os filhos queixaram-se sempre: nunca fui presente o suficiente, amoroso o suficiente, interessado o suficiente. Assim que perceberam que o “agora” seria sempre um “depois”, que o amor do pai podia significar um novo gagdet ou aquele par de calças super fashion, deixaram de se queixar. Passaram a viver felizes com o que tinham mas, aos poucos, fui deixando de saber quem eles eram. A Antonieta também vivia insatisfeita, queixou-se anos a fio. Chorou e fez cenas dignas de qualquer tragédia grega, felizmente, dentro da privacidade do nosso lar; só não a deixei porque me poupou dessas vergonhas em público. Sempre a amei, mesmo quando não o percebia, mas irritava-me ela não ser capaz de entender que só um homem que realmente a amava, podia trabalhar como um louco para garantir que nada lhe faltava. Como era possível ouvi-la dizer que lhe faltava o mais importante, sem me sentir irado? Como explicar o amor e a dedicação a quem vive de eufemismos românticos? Felizmente, três décadas depois de termos casado, deixou de me atormentar. Nunca mais chorou - nem baixinho, não voltou a falar em viagens, jantares a dois ou idas ao cinema. Achei que tinha, finalmente, aprendido a ser feliz. Eu sentia-me, sem margem para dúvidas, muito mais feliz.

Da longa lista de insatisfeitos e queixosos da minha vida, fazem também parte os amigos. Sim, tive uma boa dúzia de verdadeiros amigos ao longo dos anos que, tal como a Antonieta, tornaram a minha existência um inferno, sempre com solicitações, telefonemas e apelos a “gozar a vida”. Cambada de imaturos, pensava eu. Enquanto eu cumpria todas as minhas obrigações e pensava no futuro, eles encontravam-se amiúde para eventos de família, férias, exposições e abraços sem sentido nenhum. Cheguei a perguntar-lhes se aquela utopia toda os ia alimentar, vestir e, provavelmente, sedar quando a velhice se instalasse. De que se iam rir depois quando tivessem uma reforma miserável – ou, pior, nenhuma reforma, quando os filhos andassem por aí a mendigar esmolas ou quando um cancro os levasse, como castigo, claro, por todas as asneiras que faziam. Apesar de tudo o que lhes disse, mantiveram-se a meu lado, de pedra e cal, até a vida lhes minar a capacidade de amar um presunçoso moralista, que nunca faria o mesmo por eles. Cada telefonema deles que deixei de receber, trouxe-me alívio, devo dizer. A minha vida começava, lentamente, a entrar nos eixos. Todos à minha volta pareciam aprender a respeitar-me e a deixar de exigir de mim coisas sem nexo. Como vivia ludibriado o incauto. Que parvo fui.

 

Muito cedo na minha carreira, o trabalho deixou de ter segredos. Aprendi a fazer dinheiro antes de falar – para confirmação deste facto, muito contribui a memória dos parentes ainda vivos. Contam, a quem está disposto a ouvi-lo, o episódio na casa da Granja, era eu um gaiato ladino e, aparentemente, envergonhado. É preciso acrescentar que, por altura deste acontecimento que marcou para sempre a história da minha vida, eu mal falava. Repetia, como um papagaio, o nome do cão, Max, e Tixa que, queriam as gentes crer, seria um diminutivo amoroso para a minha irmã Patrícia; para tristeza dos meus pais que não me arrancavam um “mamã, papá, mã, pã”, nem com todos os truques do mundo. Essa ideia prosaica caiu por terra, no dia em que me encontraram a gritar “Tixa” como um disco riscado, enquanto uma pequena lagartixa se escondia debaixo da minha cama. Mas, de volta ao episódio do dinheiro que a família sempre adorou e que, claramente, resgatou a fé de todos aqueles que duvidavam das minhas capacidades. Quando o meu léxico se resumia a duas palavras apenas, tivemos uma festa enorme na freguesia e todos os vizinhos saíram à rua, com bancas, música, bebida, comida e muita animação. Pelas três da tarde, a família estava oficialmente em estado de sítio: ninguém sabia de mim, havia horas, e já circulavam rumores de uma série de raptos nas redondezas. Sim, eu estaria morto, trucidado para todo o sempre, ouvia-se por todo o lado. Não vale a pena ficarem aflitos, claramente não morri nem fui raptado, tão pouco esta é uma história com um final triste. Quando me encontraram, eu estava junto da banca de um vizinho que, esse sim, havia sucumbido com um ataque cardíaco fulminante, numa “fugidinha” ao quarto de banho. Não só eu não estava assustado como, na ausência do vizinho, havia vendido tudo o que ele tinha em cima daquela banca. Sem dizer uma palavra e por um valor superior ao pedido pelo vizinho. Nesse dia, aprendi a ganhar dinheiro, a multiplicá-lo. Fi-lo a vida inteira, com a mesma facilidade: era excitante mas nunca foi, verdadeiramente, desafiante. Aceitei este “dom” como parte da missão da minha vida: tinha nascido para multiplicar dinheiro.

Não vou dizer que percebi tudo o que vivi, que aceitei sempre, sem questionar. Todavia, dentro de mim, alimentava secretamente a esperança de um momento de epifania que esclarecesse todas as coisas que não encaixavam. Durante os meus primeiros cinquenta anos, acreditei piamente que tudo faria sentido quando completasse meio século de vida. Quando cheguei aos cinquenta, bom, nada mudou. Apenas morreu em mim a esperança de que isso pudesse vir a acontecer.

Aprendi muito, envelheci rapidamente, mas não amadureci com sapiência. Tudo o que sei da vida não chega, nunca vai chegar. Sem me dar conta, hoje completo setenta e cinco anos. Celebro rodeado de gente que nada espera de mim, que me sabem calado e um pouco avesso a celebrações ou a grandes discursos. Mas hoje descubro em mim uma chama inesperada, não sei explicar. Olho para todos em êxtase e com curiosidade, como se os visse pela primeira vez. Cresce-me esta excitação dentro do peito, sinto-me melancólico e emocional. E tenho tanto para lhes dizer.

 

A ti, Antonieta, quero dizer-te que te amei a vida toda. Que hoje lamento não ter vivido contigo cada momento a dois que imaginaste para nós. Que hoje percebo que abdicaste da tua felicidade para ficar a meu lado. Agradeço-te por me teres amado tanto. Perdoa-me por ter sido tão cego. Nunca te mereci. Nunca te valorizei mas hoje, sim, hoje vou dizê-lo aqui, em frente de toda a gente, para que o oiças da minha boca, uma vez que seja na vida. De hoje em diante, minha amada, sou eu que te vou convidar para o cinema, sou eu que te vou roubar um beijo pela manhã. De hoje em diante, quero passar o meu tempo a levar-te a todos os lugares onde sempre sonhaste estar, mas onde nunca foste sem mim. Quero namorar-te e honrar-te. Continuas tão bela, Antonieta! De entre todos os homens do mundo, como me foste escolher a mim, este inculto que nunca soube ler-te com sensibilidade, tu que és pura poesia?

 

Meus filhos, hoje não vos reduzo a coisa nenhuma. Hoje quero, pela primeira vez na vida, dizer que vos amo. Que tenho orgulho em todos vós. Também quero pedir-vos perdão: algumas das vossas escolhas talvez tenham sido, afinal, uma validação das minhas próprias decisões. Sei que não vou apagar uma vida inteira de ausências e de críticas, mas talvez seja bom saberem que o vosso pai, afinal, vos ama tanto.

Meus amigos aqui presentes, estou surpreso e profundamente grato em vos ver: claramente, nunca fiz por merecer a vossa lealdade. Hoje, quero abraçar-vos, sem pressa em vos largar. Quero agradecer a dádiva da amizade que resistiu às investidas do tempo e, sobretudo, ao meu feitio execrável. Sabeis que não presto culto a gurus mas hoje deixai-me baixar a cabeça perante vós, com humildade: não sou digno de vos olhar nos olhos, recebi tão mais do que alguma vez vos dei. Perdoai-me, meus amigos, precisei de ficar velho para conseguir decifrar o código das emoções.

 

Cantam-me os parabéns em uníssono. Sinto a voz embargada, um reboliço bom dentro da alma. Delicio-me: sou um privilegiado. Como é que esta gente me aturou todos estes anos? Fecho os olhos, ainda oiço os parabéns, e sinto-me feliz. Quero muito partilhar com eles tudo o que sinto, tudo aquilo que nunca souberam. Quero dar-lhes aquilo que nunca lhes dei.

Quando as palmas inundam a sala, é tempo de soprar as velas e deixar falar o coração. Quero agradecer, sobretudo, as dádivas preciosas que me foram dadas. Preparo-me para me levantar mas não sinto as pernas. Por qualquer razão, o meu corpo não me obedece. Embora não me doa nada, quero pedir ajuda, dizer que alguma coisa não está bem. Oiço as palavras na minha cabeça mas a minha boca não se abre. É só quando as gargalhadas dos outros dão lugar a um choro profundo e aflitivo, que percebo a ironia do momento. Não, agora não. Por favor, Deus, universo, alguém, ainda não.

Hoje, quando finalmente entendo o Amor e o Tempo, extingue-se a vida em mim.

Ainda agora cheguei e já estou de saída.

 

Alexandra Vaz

 

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